Morning

Freaks

Por uma janela entreaberta penso em arder em alto mar
salvar-me no puro instante em que desacredito
as mãos sempre rentes a tocar o chão
e o som de Piazzola incessante na curva do músculo
e fácil fácil
desolar-me em cinza forte ou num azul cobalto
entreter-me com as coisas que sei fazerem-me chover
metáforas incipientes e trocadilhos fora de moda
para depois colher na pele
a jovialidade do toque de sabor a sal
e daquela fonte no caminho para casa
que ao menos nos engane a sede e a fome de nos procurar
onde já não existimos quicá nunca por lá passámos
e a nossa existência mera lenda de tempos antigos

If you could save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone

Posso-me

Quando um dia eu for subtileza,
e tiver perdido a esperança secreta dos delírios comuns,
entra pela porta de minha casa e
fecha a porta,
para que não faça mais frio.
Bem sabes como vivo em calor.
E aí, basta que te recostes,
no sofá, a meu lado.
Escolhe um poema predilecto,
pede-me que escolha uma canção favorita.
Eu desvio as margaridas do teu rosto
e fico à espera que seja tarde,
e eu seja um regresso impossível.
Daqueles que avisto no primeiro sonho da noite.

Porque precisava de ouvir algo desta dimensão

Moldura com céu dentro


E se eu pegar num pedaço de céu,
e fizer uma redoma ao seu redor,
prevertendo o alcance do que se quer,
pela distância que encurto na passagem,
então,
talvez sejam nuvens o que vês,
a passar ao largo perfeito do espaço onde te moves,
imerso de vida e com a chuva na voz.




Che (reja) em cima do bolo!


Postal acabadinho de chegar à minha caixa de correio vindo de lá!

Obrigada!






Sit down next to me

Ultimamente parece que alguém decidiu, lá em cima, testar verdadeiramente a contracção (sim, não gosto do Acordo) das minhas duas meias luas, que é como quem diz o meu sorriso. Acontecimentos e mais acontecimentos a roçar o inverosímil. Eventos atrás de eventos a acontecerem a dois palmos do meu olhar e a roubarem-me a concentração. Ou a fixá-la? Hoje mesmo, perante uma questão de princípio, decidi assumir o erro. Que não era meu e que não foi provocado por mim. Mas ainda assim. Perante o culpado que fugiu. E a minha incapacidade para mexer com a vida de outros. Hoje, depois de assistir a tamanha injustiça por serem sempre penalizados aqueles que não usam de estratégias hábeis para camuflar o que são. Porque são bonitos e puros. E se recusam a serem felizes à custa da infelicidade dos outros.

Hoje eu tenho que dizer que tenho dias em que sou absolutamente ridícula. Enormemente complacente. Desgraçadamente sentida. Dias em que facilmente podia ser confundida com o pedinte cego à beira da estação do Marquês de Pombal. Ou aquela louca mulher a dar milho aos pombos no Rossio. Ou mesmo aquela estátua pouco convincente perto do Parque do Tejo, suposta rainha dos mares ao redor do mais negro lodo.

Hoje eu devo dizer que erro mais do que acerto. E que sou desajeitada e tudo me distrai facilmente, e por isso sigo aos tropeções, tentando ver onde ponho os pés, mas sabendo de antemão que o que gosto mesmo é de voar. E por isso tropeço. E por isso alterno voos rasantes com loopings de cortar o fôlego.

Sabe-me bem ser assim.

Running & Loving

O ritual é simples. E aconchega-me as ideias flutuantes. Num dia de algum frio que ameaça com uma chuva miudinha, por a cabeça à solta e o corpo a mexer. Correr até não haver mais destino. E depois vir para casa, mais leve do que nunca, e carregar apenas a moleza e o despreendimento do físico e do mental, a páginas tantas. Água quente no banho e um chocolate quente antes dos lençois. E, por hoje, os delírios têm todos cobro na minha casa. E as mais valentes utopias sentam-se à mesa para jantar. E eu sinto-me intensa. Intensa em mim.

Rasto

Deixaria um rasto de sonhos em suspenso,
para que me procurasses no meio da noite, em surdina,
pé ante pé, antevendo o chão crepuscular,
onde te deslocarias,
em recuos e avanços ao sabor dos sentidos,
na fímbria dos segredos dos dias que estão por vir,
na exaltação de tudo quanto pode caber em nossos braços.
Somos sentidos, pelo lado de dentro,
e tudo faz eco quando nos é tingido
sem memória de afecto.
Somos invísiveis aos olhos dos outros
porque tempos penas nas mãos,
e o dorso onde repousamos
é um pedaço de carne onde um dia iremos chegar,
exangues e enxutos,
sem soprar uma palavra.

Acordei com esta música na cabeça

http://www.goear.com/listen.php?v=15b1037

Pertencer

Às vezes dizemos cada coisa. E tantas coisas. Dizemos e escrevemos num rol. Como se não houvesse amanhã. Quando o que queríamos dizer podia ter sido dito numa frase. Num trecho só. É isso que me anima em determinados estilos musicais. O facto de estar tudo lá. Dito. Escrito. De forma simples. Todos os mais perfeitos mecanismos inventados são isso mesmo: simples. Fórmulas básicas. Ideias de negócio que resultam porque são A+B. E por isso é tão fácil olvidarmos o essencial. Hoje ouvi uma voz de algodão, (Rutz) a cantar no fundo de uma sala, clássicos intemporais. Como se fosse invisível. Uma árvore de folha perene. Uma mão que embala o berço. Qualquer coisa de vago e sublime.
Às vezes preparamos coisas para dizer. Coisas para fazer. Coisas para ser. E descobrimos que jamais nos sentiremos na nossa pele, ao fazê-lo. Não cabemos em determinados fatos e essa é uma circunstância que devemos escutar. Numa voz de algodão doce.
Fazer o caminho da Marginal e olhar as luzes à noite faz-me pertencer. Faz-me sentir querida. E isso é tudo o que preciso. Às vezes.

Mão cheia de tocar ou a enorme repetição do que não sei explicar

Sou assim com as palavras. Porque as ofereço. Porque quero sempre fazer por merecê-las. Porque gosto de recebê-las, ainda que seja por uma mera questão de educação. Alguns dos grandes presentes da minha vida foram palavras ditas ou escritas de que guardo memória. Bem sei que as gastamos. Que abusamos delas. Que perdem, tão rápido, a validade, a legitimidade, a verdade. Ou como diria uma colega de trabalho, desconfio que quem repete incessantemente que alcançou a verdade e aprendo a respeitar quem não se cansa de a procurar, mesmo sem saber se isso é um destino útil, utópico ou mesmo salutar.
Guardo muito pouco aquilo que escrevo. O que não quer dizer que não goste de ler, passado algum tempo, coisas que escrevi, que ofereci e de que já não guardo memória. É bom sentir no momento, o que o momento me fez escrever, passado esse e outros momentos. Gosto de pensar que me guardo a mim. Que serei sempre "unsaved". E que isso me dá um prazer danado. Que não tenho back-up dos momentos felizes, porque os vivi na altura em que eles aconteceram e nada os substitui: nem as fotos (de que tanto gosto), nem a escrita, nem nenhuma outra coisa. Tenho a vida em memória e essa só pode ser sempre a melhor recordação.
Ontem recebi, de volta, o meu telemóvel que julgava perdido no acidente. De uma forma tão mas tão pura e humana, que quase chorei. Atrapalhada, expliquei que sou avessa a novas tecnologias, que aquele telemóvel (que nem sei a que geração pertence e do qual desconheço todas as funcionalidades) foi-me dado no trabalho, quando deixei de ter telemóvel. Andei tempos imemoriais com um telemóvel todo feito em fanicos, com truques especiais para o conseguir ligar e desligar. Ando, desde o acidente, com um telemóvel absolutamente básico, o mais barato que havia, aliás, apenas quis que tivesse despertador: única função que, de facto, faz para mim a diferença. Expliquei que me estou literalmente a borrifar para o aparelho porque não gosto de telemóveis, nem tão pouco valorizo tudo quanto podem oferecer. Pouco tinha, em termos de dados, nesse telemóvel que me fizesse falta, profissionalmente.
Mas ao entregarem-me aquele telemóvel, com aquele sorriso na cara, devolveram-me parte da minha vida, apesar de eu saber que se há registo escrito dessa vida no mesmo telemóvel é porque eu a vivi, e tendo-a vivido, não há lugar a devolução de coisa nenhuma, porque tudo me pertencerá eternamente.
Mas, bolas, ler o que escrevi, emociona-me. Muito. Primeiro pelo que disse na noite do acidente. Depois por tudo o que escrevi antes. E o que me escreveram. Desde 2001. Tudo o que anotei. Os pensamentos no metro. As viagens interiores. O cruzar de perna que não me escapou. A frase mágica dita acolá. Um pormenor qualquer do quotidiano a caminhar nas nuvens. Tudo o que me fez levantar de manhã. Ou o que me chamou a atenção. Eu sei lá. Coisas de que não me lembrava. Coisas que me lembrava bem demais. Coisas. Tantas. Tanto de mim.
Escreverem-me. Escreverem para mim. Fico feliz com estas insignificâncias que não lembram a ninguém e fico líquida num instante.
Percebo instintivamente quando não escrevem. Porque não se emocionam da mesma maneira. Porque se toca sem saber que se toca, sem querer tocar. Porque se escreve, às escuras e se anda assim uma vida inteira. Porque serei sempre ingenuamente estúpida para perceber que parte do que digo é que toca. Quando sei, exactamente, o que me toca nos textos dos outros.
Sei ver que há gente que traz uma multidão atrás porque é grande. E lhe reconhecem mais do que qualquer outra coisa, a humanidade. Foi isso que, instintivamente, me tocou.
Amo as pessoas porque me apaixono por esse detalhe. Gigantesco. E quando olho para trás, vejo gente verdadeiramente humana a quem me dei. E fico feliz por isso. Por olhar para trás e sorrir. Me e os.
Esta semana pensei em ir embora. Porque não sei fazer outra coisa senão ir. E não sei se saberei alguma vez sair desta pele. Demasiado humana, até. Demasiado o que eu procuro nos outros. Sou alegre porque digo viver e isso rima com prazer e isso faz-me sentir bem por dentro. Mas sou triste até ao fundo, porque nas camadas do meu sentir, a indiferença choca-me. Machuca-me. Faz-me chorar. E há dias em que fico apenas triste porque alguém me faz sentir mais uma pessoa. Mesmo sabendo que tantas outras pessoas, com igual ou maior potencial de vida, o rodeiam. E dele mesmo se bastar.
Quero uma vida para tocar. E tocar em gente. Que se sinta tocada por mim. Porque sou eu.
Todas as conversas são, para mim, privadas (abusando de uma frase que não é minha). E privado é o que sinto. E não posso transportar isso para outrém. Fingir que susbstituo. Emocionar-me como que não me emociona.
Não escrevo mensagens iguais, nem repito o que quero dizer a mais do que uma pessoa. Não há pessoas iguais, nem escritas paralelas. Sinto-me. (Sentir tudo, de todas as maneiras...) E não me sinto em pecado por sentir. Arrepio-me porque me arrepio: sem bem explicar o motivo que subjaz. E emociono-me porque verdadeiramente me tocam.

Delight from Koop

Standing next to you
A dream is coming true
In a heartbeat

Feeling's right
I finally see the light
In a heartbeat

Something in your eyes
Has got me hypnotized
In a heartbeat

And near or far
I try to be where you are
In a heartbeat

Wanna laugh
wanna sing
Wanna do everything
In a heartbeat

Wanna live
wanna be
Where's the spirits are free
In a heartbeat

Keep it up
keep it down
Keep it turning around
In a heartbeat

Make it dark
make it light
Make it magic tonight
In a heartbeat

It all seems strange
My whole life has changed
In a heartbeat

Love is shining through
In everything you do
Honey in a heartbeat

And something in your eyes
Has got me hypnotized
In a heartbeat

And near or farI
try to be where you are
In a heartbeat

Dançar na noite

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Amanhã















"Não é nada, é um novo dia que começa. O sol ergue-se pela ésima, ésima vez. Há luz no ar. os pinheiros inundam-se dela, acenam na aragem a uma voz que vem de longe. Um cão ladra excitado à alegria de vida, há sinais longínquos do trabalho dos homens. Reconheço-me eu vvo também e recolho em mim o universo inteiro. Tudo se recompõe na vida que se suspendeu, as flores voltam a ter razão de ser à luz. E há por cima de tudo um céu azul. Não é nada. é um novo dia que começa."

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand Editora

Presente da Rutz



E mais, da "Cartola":

Alvorada lá no morro que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo, alvorada
Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco quase nada
Do que ir assim vagando
Nesta estrada perdida

Os meus amigos são os maiores.

Um dizer ainda puro


imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato," Um Mover de Mão", Assírio e Alvim, 2000.

A paz de um sonho aberto

Às vezes acho que ninguém vive assim. Ninguém chega a casa e se embebeda com Ramos Rosa. Nem se apaixona de textos. Ninguém tem tempo para ganhar tempo com quem não se conhece bem. E, mesmo num dia em que tudo corre bem porque nos salvam com um almoço e ganhamos umas pantufas às riscas e um Winnie the Poo terno para o pequeno R., não deixo de sair do corpo e me ver da plateia. Caminho em múltiplos passos, pensando em como me entusiasmo demais com as coisas. Talvez elas não sejam para viver desta forma. Talvez haja uma medida para todas as coisas. Talvez eu veja coisas onde elas não existem. Talvez não haja assim tanto tempo e vontade de nos conhecerem por dentro. Porque, a verdade, é que vivemos em compartimentos fechados. E trocamos simpatias. Cortesias. E nada mais do que isso. Talvez fosse bom não descarrilar assim. Há dias que não tenho chão. Apesar do sorriso que me veste. E noites em que apetece pegar no carro e ir. Sou um excesso em tudo. Até no tudo. Sobre (tudo).
Hoje explicava uma das coisas que introduzi num post recente a uma amiga. Contei-lhe que, num determinado momento profissional, foi necessário pensar numa oferta a dar, numa visita a Portugal de uma pessoa suave de veludo. Nada mais, nada menos que uma rainha de um país europeu. Em jeito de curiosidade mas também porque me interessava a opinião daquela pessoa, perguntei o que seria adequado oferecer. Ela confidenciou-me que, quando a conheceu, ofereceu-lhe simples espigas de cristal. Com um pormenor magistral: obtidas através de uma técnica de sopro. E a pura descrição e todo o cenário que refiz na minha cabeça, a propósito deste episódio único, fez-me vê-la, a pessoa a quem perguntei (pensando que a conhecia) sem filtros. A delicadeza e o detalhe são tudo. Quem me dera soprar espigas pela vida e ter esta profundidade e esta claridade de pensamento e de chão.
"Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar"
Excerto de poema de António Ramos Rosa, "O teu rosto", 1994

Prosa petiscada

Colecciono gente. Como outros coleccionam moedas, selos, lápis de cor ou lágrimas na boca.
Colecciono gente de passadeira vermelha. Gente que não precisa de se fazer anunciar. Gente contente. Gente contundente. Gente quente.
Gente e (a)gentes infiltrados de açucar e com espessura de carácter. Gente vertical, mesmo a dormir. Gente em que me espraio num par de horas apreciando o sol e a falta dele.
Gente demente que caminha pelo meu corredor, às escuras. E gente que pressente para lá das amarguras. De espírito e de boca.
Gente nirvana que se eleva com a velocidade da tristeza. E gente inflamada e que atravessa, periclitante, o tom grave da minha voz.
Gente-frutos-do-bosque: alma de mirtilo - corpo silvestre.
Gente com Mecas amovíveis, rebatíveis, impossíveis.
Salivo ao pensar nesta gente. Seria capaz de os trincar, bago a bago, roubar-lhes a casca, tirar-lhes a pele, apurando o tempero.
Ou então soprar-lhes. Como fazem os artesãos gourmet da Marinha Grande com as espigas de cristal.
Meto-os, finalmente, no tacho e salto dentro. Porque os meus amigos são, como direi,

... um petisco!

Rodrigo, de seu nome

Estava à espera que ele nascesse para poder partilhar este pedaço de céu.


Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse
Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou
Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

Letra de SG

Cássia revisited

Um dia,
ao dizer
um segredo,
teve medo,
da poesia.

De noite,
ao ver
cinema,
teve também pena,
de não entrar em cena,
e beijar a maresia.


Empunho a espada.
Lanço-me à guerra.
Com o mais doce que tenho.
Olho o retrato
da imagem na lapela,
leio-me nas causas perdidas dela,
sem ser santa,
nem lhe vestir o manto.

Solto o cabelo.
Afloro o riso.
Com o mais terno que possuo.
Miro a viagem
e a queda inexorável
para as batalhas perdidas,
quando é que eu vou,
não querer ser vertigem,
não procurar a origem
de tudo quanto reluz,
no oposto de mim.

Soletrar

O meu rosto
não tem coração,
dentro,
chego sempre tarde
parto sempre triste,
e o mais, sou,
em riste.

O meu útero
não tem oração,
ao centro,
regresso sempre cálida,
retempero sempre lânguida,
e o menos, estou,
em lâmina.

Pus todas as as coisas do sal e do sangue da vida junto ao mar.
Enxaguei as estrelas e o mundo que cabe na palma da minha mão aberta.
Tentei, em vão, respirá-las em fogo e vê-las a arder no fundo, exangues.
Tirei um retrato ao desejo e planeei uma réplica de onda, à medida dos meus braços, para trazer para junto da cama. E vou, tenho a certeza, deitar-me nela. E fazer da sombra da memória, clarabóia do mundo tocante.
Quando não souber onde pus o sono.
O que fiz com o abandono.
Onde parou o tempo.
Como pôde um Homem ficar sedento.
Do mundo.
E atalhar caminho.
Vislumbrar o corpo em desalinho.
E dizer que valeu a pena.

1ª Classe

A chama,
o ardor,
na janela,
e as reticências
que, no vidro, tomam cor.

Esperei-te
uma tarde
inteira
de versos
e agora que me escutas,
tão pouco me perguntas,
se sei soletrar amor.

E guardei-te
uma caixa
rendilhada
de nuvens
e na fímbria delicada da voz,
procurei por nós,
até encontrar a dor.

Silabar

Ao norte,
desnorte,
eu também já quis velejar.

Sem sorte,
E na morte,
passei, ao menos, sem ficar.

De noite,
a vida feita açoite,
porque eu quero marejar.

Right from the beggining.















Pego. Nas nuvens que pintam o céu de cores de inverno. No ar rarefeito que me deixa a pele menos quente do que quando aqui cheguei. E penso. Estou de passagem. Na aragem. Do mundo. Colecciono estrada. Não armazeno piada. Sou da gente, a mais amada. Num dilúvio de palavras, afundo o Verão inteiro no silêncio e o riso ecoa, ecoa, ecoa. Sou só. Só. Só. Só. Só a andar por aí. No ruído ensurdecedor de remendos feitos à pressa em passados pouco dados à adivinhação. Vou, vou, vou. Vou-me sempre embora porque nunca chego bem a chegar. Nunca me chego bem. Nunca sou a suficiência para a solidão toda. Estou numa casa de vidro onde avisto a paisagem em todos os graus e pessoas emendadas dos erros que foram. Na minha memória descritiva, vou pôr a cor púrpura. E depois apagar a memória descritiva e começar de novo. Começar de novo.
* Imagem de FGC