Freaks
salvar-me no puro instante em que desacredito
as mãos sempre rentes a tocar o chão
e o som de Piazzola incessante na curva do músculo
e fácil fácil
desolar-me em cinza forte ou num azul cobalto
entreter-me com as coisas que sei fazerem-me chover
metáforas incipientes e trocadilhos fora de moda
para depois colher na pele
a jovialidade do toque de sabor a sal
e daquela fonte no caminho para casa
que ao menos nos engane a sede e a fome de nos procurar
onde já não existimos quicá nunca por lá passámos
e a nossa existência mera lenda de tempos antigos
If you could save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone
Posso-me
e tiver perdido a esperança secreta dos delírios comuns,
entra pela porta de minha casa e
fecha a porta,
para que não faça mais frio.
Bem sabes como vivo em calor.
E aí, basta que te recostes,
no sofá, a meu lado.
Escolhe um poema predilecto,
pede-me que escolha uma canção favorita.
Eu desvio as margaridas do teu rosto
e fico à espera que seja tarde,
e eu seja um regresso impossível.
Daqueles que avisto no primeiro sonho da noite.
Moldura com céu dentro
Sit down next to me
Ultimamente parece que alguém decidiu, lá em cima, testar verdadeiramente a contracção (sim, não gosto do Acordo) das minhas duas meias luas, que é como quem diz o meu sorriso. Acontecimentos e mais acontecimentos a roçar o inverosímil. Eventos atrás de eventos a acontecerem a dois palmos do meu olhar e a roubarem-me a concentração. Ou a fixá-la? Hoje mesmo, perante uma questão de princípio, decidi assumir o erro. Que não era meu e que não foi provocado por mim. Mas ainda assim. Perante o culpado que fugiu. E a minha incapacidade para mexer com a vida de outros. Hoje, depois de assistir a tamanha injustiça por serem sempre penalizados aqueles que não usam de estratégias hábeis para camuflar o que são. Porque são bonitos e puros. E se recusam a serem felizes à custa da infelicidade dos outros.
Running & Loving
Rasto
para que me procurasses no meio da noite, em surdina,
pé ante pé, antevendo o chão crepuscular,
onde te deslocarias,
em recuos e avanços ao sabor dos sentidos,
na fímbria dos segredos dos dias que estão por vir,
na exaltação de tudo quanto pode caber em nossos braços.
Somos sentidos, pelo lado de dentro,
e tudo faz eco quando nos é tingido
sem memória de afecto.
Somos invísiveis aos olhos dos outros
porque tempos penas nas mãos,
e o dorso onde repousamos
é um pedaço de carne onde um dia iremos chegar,
exangues e enxutos,
sem soprar uma palavra.
Pertencer
Mão cheia de tocar ou a enorme repetição do que não sei explicar
Delight from Koop
A dream is coming true
In a heartbeat
Feeling's right
I finally see the light
In a heartbeat
Something in your eyes
Has got me hypnotized
In a heartbeat
And near or far
I try to be where you are
In a heartbeat
Wanna laugh
wanna sing
Wanna do everything
In a heartbeat
Wanna live
wanna be
Where's the spirits are free
In a heartbeat
Keep it up
keep it down
Keep it turning around
In a heartbeat
Make it dark
make it light
Make it magic tonight
In a heartbeat
It all seems strange
My whole life has changed
In a heartbeat
Love is shining through
In everything you do
Honey in a heartbeat
And something in your eyes
Has got me hypnotized
In a heartbeat
And near or farI
try to be where you are
In a heartbeat
Hora
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Amanhã

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand Editora
Presente da Rutz
E mais, da "Cartola":
Alvorada lá no morro que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo, alvorada
Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco quase nada
Do que ir assim vagando
Nesta estrada perdida
Os meus amigos são os maiores.
Um dizer ainda puro
imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.
dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.
diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.
Vasco Gato," Um Mover de Mão", Assírio e Alvim, 2000.
A paz de um sonho aberto
Prosa petiscada
Colecciono gente de passadeira vermelha. Gente que não precisa de se fazer anunciar. Gente contente. Gente contundente. Gente quente.
Gente e (a)gentes infiltrados de açucar e com espessura de carácter. Gente vertical, mesmo a dormir. Gente em que me espraio num par de horas apreciando o sol e a falta dele.
Gente demente que caminha pelo meu corredor, às escuras. E gente que pressente para lá das amarguras. De espírito e de boca.
Gente nirvana que se eleva com a velocidade da tristeza. E gente inflamada e que atravessa, periclitante, o tom grave da minha voz.
Gente-frutos-do-bosque: alma de mirtilo - corpo silvestre.
Gente com Mecas amovíveis, rebatíveis, impossíveis.
Salivo ao pensar nesta gente. Seria capaz de os trincar, bago a bago, roubar-lhes a casca, tirar-lhes a pele, apurando o tempero.
Ou então soprar-lhes. Como fazem os artesãos gourmet da Marinha Grande com as espigas de cristal.
Meto-os, finalmente, no tacho e salto dentro. Porque os meus amigos são, como direi,
... um petisco!
Rodrigo, de seu nome
Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse
Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou
Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Letra de SG
Cássia revisited
ao dizer
um segredo,
teve medo,
da poesia.
De noite,
ao ver
cinema,
teve também pena,
de não entrar em cena,
e beijar a maresia.
Empunho a espada.
Lanço-me à guerra.
Com o mais doce que tenho.
Olho o retrato
da imagem na lapela,
leio-me nas causas perdidas dela,
sem ser santa,
nem lhe vestir o manto.
Solto o cabelo.
Afloro o riso.
Com o mais terno que possuo.
Miro a viagem
e a queda inexorável
para as batalhas perdidas,
quando é que eu vou,
não querer ser vertigem,
não procurar a origem
de tudo quanto reluz,
no oposto de mim.
Soletrar
não tem coração,
dentro,
chego sempre tarde
parto sempre triste,
e o mais, sou,
em riste.
O meu útero
não tem oração,
ao centro,
regresso sempre cálida,
retempero sempre lânguida,
e o menos, estou,
em lâmina.
1ª Classe
o ardor,
na janela,
e as reticências
que, no vidro, tomam cor.
Esperei-te
uma tarde
inteira
de versos
e agora que me escutas,
tão pouco me perguntas,
se sei soletrar amor.
E guardei-te
uma caixa
rendilhada
de nuvens
e na fímbria delicada da voz,
procurei por nós,
até encontrar a dor.
Silabar
desnorte,
eu também já quis velejar.
Sem sorte,
E na morte,
passei, ao menos, sem ficar.
De noite,
a vida feita açoite,
porque eu quero marejar.
Right from the beggining.

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