das cores

Ontem passei por lá, para mostrar uma coisa que escrevi a propósito dos The National. Revíamos o concerto no SBSR e a minha aparição no iutubi e tudo quanto nasceu, em conversas, e-mails, mensagens, expressões de rosto, mãos como faces escondidas mas com tudo à mostra, pequenas cerejas de que se perdeu a conta, como naturalmente acontece a quem muito tem para dizer.

Muito tinha a dizer-te. Mas os dias são claros e as noites mais claras ainda. E nem sempre estou com a claridade na língua e a língua e os olhos se coordenam de modo a produzirem um discurso intelegível e suficientemente perto de toda a verdade e força que as palavras deveriam carregar.

Estou fluorescente até ao osso. É isso.

Burning people

"The only people for me are the the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploiding like spiders across the stars."

Jack Kerouac

Do caos e da claridade

Há dias de plena revolução na nossa superfície. Dias de informação a entrar p'la nossa cabeça num corredor de fogo e de repente já não ouvimos as vozes e tudo é uma ventania. Não gosto muito de vento porque me aturde os pensamentos, me ofusca os sons, me impede de abrir os olhos na medida de que gosto, me faz brotar lágrimas de passagem.

Trabalhar gostando é gigantesco. Infinito. Poderoso. Ganhamos dias em noites não pagas. Perdemos anos de vida em horários certos no pólo oposto. E não se trata de ser demasiado passional. Por motivos demasiado próximos, não me apetece falar claro. Antes dar piruetas com as palavras, atirar bolas ao ar e lançar setas na brancura da tranquilidade a que desço se fechar as portas, desligar o mundo e trazer-me por casa, junto das polaroids da casa de Arroios, da intensidade de um livro que se chama "Vigílias", da preciosidade que é conhecerem-nos bem e deixarem-nos a sós quando nos olham de relance e. E. E.

Vou mudar-me, fazer outra coisa profissionalmente falando, pisar nuvens ao desbarato. A força de um torpedo alavanca-me para sentir arrepios com determinadas sequências de palavras. A claridade dos sonhos eleva-me para a tranquilidade-mor que faz de mim uma terra onde às vezes corre vento.

Cidade do sol no último dia

Durmo na ignorância cálida que faz de mim uma mesa de bilhar. Há sempre alguém que me percorre e que encontra o seu destino num ponto mais além, num dos cantos que deixo em aberto.

Na itinerância calma de quem se sente menos só porque lhe apresentam Alexander Calder e de repente o meu circo existe e os trapézios são lugares seguros onde se balança a vida e se vê o mundo do sótão, sonho.

Quem me dera entrar na Cooperativa no próximo Natal e perder o tino entre papéis metálicos de todas as cores insinuando uma barriga respeitável do Pai Natal de sempre e um bigode castiço de quem tem uma noite só e milhões de prendas para entregar. E nunca mais me esquecer do modo como o brilho e a cor, a surpresa e o encanto, a luz e os chocolates estão na minha memória daquele sítio em todos os sítios.

A língua é um caminho sem atalhos, dir-te-ia se me tivesses perguntado e se não tivesse tão focada no sol a bater na relva e na cor do vinho sob o efeito da luz. Como se diz da incomunicabilidade que se deseja por nos sabermos mais como uma fronteira e menos como um destino.

 As grandes surpresas da vida são feitas de coisas, pessoas e sentimentos surpreendentemente simples, alegoricamente básicos, assustadoramente quotidianos. Uma garrafa de vinho e relva. Um adorno para o peito. Uma caneta para escrever. Pão e leite.

Se tivesse uma cortina daquelas na sala, colocava a última folha do teu livro. A primeira da minha ida a Évora. As bungavílias em flor na entrada para o mar. A limpidez de tudo quanto não soube perder.


Das coisas


Dormir sobre este poema

A direcção do sangue


Quando se viaja sozinho

pelas imagens que perduram

as evocações ganham um modo tão real

A mancha ténue dos arbustos

indica o caminho para o regresso

que nunca há

o mar ficou de repente perto

sobre esta praia travámos lutas

para as quais só muito depois

encontramos um motivo

era à pedrada que nos defendíamos

do riso mais inocente

ou de um amor

Mas aquilo que nunca esquecemos

deixa de pertencer-nos e nem notamos

Estamos sós com a noite

para salvar um coração





José Tolentino de Mendonça

P de Paula

Há coisas que me acalmam. Ouvir falar espanhol baixinho. Parar em determinados momentos e imaginar que na minha alma corre o trailer de um filme que tem asas e desejo no título. Lembrar-me do dia em que caí num buraco junto à Gulbenkian com o meu pai.

Como se esquece pessoas sem esquecer o que nos faz únicos e que nos aproxima dos outros? Porque é que somos fatais até ao fundo e ligeirinhos à superfície e para esse cocktail danado é justamente aquilo que mais atrai as pessoas e mais as afasta?
Deveria haver um dispositivo qualquer para isso. Uma espécie de soul finder, uma espécie de luz na noite. Que sinalizasse os piegas corrompidos, como eu. Os melancólicos da treta, como eu. Os absurdos números primos, como eu. E já agora as pessoas que me acalmam sem falarem espanhol nem voarem sobre uma cidade. Quando estamos felizes, ficamos com calor. Quando desço ao Rossio, adquiro uma vontade louca de fazer conversa com um desconhecido que use um chapéu ousado. Quando vou aninhar-me no Tejo, nasce-me um desejo absoluto de frio porque o frio conforta e é ao menos real.

Tenho uma faca na liga psicosomática e um punhal entre dentes no cérebro e só me lembro de coisas muito estúpidas.

Vou deixar de trabalhar com uma pessoa que mudou a minha vida. Vou ouvir alguém que não oiço há 5 anos. Sou um bicho do mais patego que há e só digo tonterias porque sou forrada a sentimento por dentro e só tenho uma ou duas mudas de roupa para o meu exterior.

O mundo é mais puro, mais doido e infinitamente mais feliz contigo dentro, Paula. Vá e adoro gente de caracóis e óculos coloridos e o resto do tratado sentimental é só para ti, num gabinete perto de ti.