Cidade do sol no último dia

Durmo na ignorância cálida que faz de mim uma mesa de bilhar. Há sempre alguém que me percorre e que encontra o seu destino num ponto mais além, num dos cantos que deixo em aberto.

Na itinerância calma de quem se sente menos só porque lhe apresentam Alexander Calder e de repente o meu circo existe e os trapézios são lugares seguros onde se balança a vida e se vê o mundo do sótão, sonho.

Quem me dera entrar na Cooperativa no próximo Natal e perder o tino entre papéis metálicos de todas as cores insinuando uma barriga respeitável do Pai Natal de sempre e um bigode castiço de quem tem uma noite só e milhões de prendas para entregar. E nunca mais me esquecer do modo como o brilho e a cor, a surpresa e o encanto, a luz e os chocolates estão na minha memória daquele sítio em todos os sítios.

A língua é um caminho sem atalhos, dir-te-ia se me tivesses perguntado e se não tivesse tão focada no sol a bater na relva e na cor do vinho sob o efeito da luz. Como se diz da incomunicabilidade que se deseja por nos sabermos mais como uma fronteira e menos como um destino.

 As grandes surpresas da vida são feitas de coisas, pessoas e sentimentos surpreendentemente simples, alegoricamente básicos, assustadoramente quotidianos. Uma garrafa de vinho e relva. Um adorno para o peito. Uma caneta para escrever. Pão e leite.

Se tivesse uma cortina daquelas na sala, colocava a última folha do teu livro. A primeira da minha ida a Évora. As bungavílias em flor na entrada para o mar. A limpidez de tudo quanto não soube perder.


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