Caminhar

"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quanto a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar."

Albert Camus

Tudo o que quis dizer hoje

Tenho a cabeça a rebentar, o corpo numa temperatura que já passou definitivamente do razoável e as ideias como girinos, a vaguear à solta, mas sem fio condutor- o que há-de dar, espero, numa coisa ainda mais bonita.

Escrevo sem ponta nenhuma a ligar, o que é francamente libertador, e sem muita vontade de explicar. Coisas que se arrastam nos dias, entram nas noites, aclaram e escurecem o que se sente sendo que fico cada vez mais esclarecida de que menos esclarecida estou. A ignorância e o olhar para a paisagem e sentir melhor é um remédio santo para tantos males de alma, mais ou menos na correspondência de um gin para um fim-de-semana que começa.

O Verão está a acabar (apesar da temperatura do meu corpo a esta hora precisa indiciar o contrário) e portanto prefiro acreditar no que me faz feliz, no caminho que me leva a becos esconsos, circuitos de corrida, praias bem amadas e nas pessoas tatuagem.

Houve quem nascesse neste dia. E quem quissesse escrever neste dia, por todos os dias em que não tem escrito, pelas linhas paralelas e pelo unir dos pontos que liga cidades, pessoas, bocas que sorriem, peitos que se contorcem, gente que deriva porque é isso tudo e muito mais: ilha, porto, nenufar, farol, casa de conveniência, loja de província à beira da estrada, cruzamento de estrada que liga o interior ao litoral num dia infinito.

tenho

Tenho tudo em casa, não tendo nada nela. Tenho um pedaço de texto, não tenho nada concluído. Tenho um plano louco e vontade de partir sexta e voltar domingo e a minha conta bancária é uma parábola financeira. Tenho o sentir todo, sabendo que cada vez mais procuro intensidade e verdade e fico a contas para saber que circuito intímo é este, por onde ninguém passa - e - nem por sombras sou uma pessoa pouco feliz.

Às voltas no chão, fazendo colagens de bocas e recortando frases que fazem colibris no meu cérebro- a vida é um caminho às escuras, de luzes brilhantes e doces e acres paisagens, que nos salivam a alma e nos rompem o corpo.

Stay Golden.