Chiado a t(r)inta
tenros vícios, leves massacres,
em casa do saber de cor.
Leio a tua linha da vida
meio avessa, c/d olorida
no balanço de quem ama a dor.
Menino-mãe-coragem
a tua biografia é uma aragem
e o resto, beabá do ardor.
E eu, fingindo não ser assassina,
em passos de bailarina:
de cada vez que mato o amor.
* Concerto a trinta
Em letra pequena
Do imaginário supremo
Nimarói, Letra de J.P. Simões
Inquietação ou isso
Comecei por escrever este post depois de inserir uma música. Tenho este hábito tenebroso de acrescentar sempre mais coisas às coisas mais sempre ditas. Ouvi-o na ZDB, rodeada de gente até aos ossos e de alguns cartazes, em que não me detive, por estar absorta na noite. Pensei depois, no caminho para casa, que a vida é um lugar extraordinário onde tudo volta e os meandros recomeçam quando nos perdemos nos acasos dos atalhos de amargo/doce de boca. Já vi aquela ironia deliciosa, já me foi dado a conhecer aquele primor de escrita, já conheci quem fizesse aquele trejeito quando fala, porque lhe subia inadvertidamente a terra à boca. E, por hoje, sinto-me privilegiada por ter vivido tanto. E sei que gosto dele porque lhe reconheço a ele, e não a quem me faz lembrar. E sei que vivo para ouvir e ver a trágico-comédia que lhe imagino a roçar os escritos. E não me lembro agora de uma música com maior força que essa, supra-citada, cantada por ele. E se eu me pintasse, num quadro no atelier do Pomar, seria toda essa sequência cantada na letra. Com laivos de escarlate. Para abonar a vida e a paixão.
Dizer o que já foi dito, tantas vezes, por outros*
Sol
e toda a água do mar à minha espera quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente
altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais
– também, já por cá passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive
as mulheres que assombrei
as ruas por onde passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história de sentido ainda oculto
magnífica
irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca como uma linha férrea ultrajada pelo tempo "
Vitamina C (Assírio e Alvim)
O mar A mar
Nunca conseguiu viver longe do mar.A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meios cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.
Al Berto, Anjo Mudo, Assírio & Alvim
Cocktails e carrinhas
Em pele nocturna
Olfacto-me
seguindo os passos sempre demorados e longos da imaginação.
Quando os meus olhos se fecham
juro que vejo conchas
naquelas cascatas que já foram de água para dar de beber à bicharada.
Sonho que estou de mãos abertas, pescoço nú
a adivinhar recortes de gente com roupa a mais
debruçadas num qualquer varandim daquelas casas de traça colonial
a aspirar o ar dócil e inebriante
da explosão de cor daquelas árvores
cujas flores nos roubam a respiração
e nos fazem cócegas no nariz erguido
- porque o olfacto nos leva vezes demais a territórios de paixão.
Joga-a-vida-para-depois
Cesariny
(se razões, precisas, fossem)
numa palavra:
verticalidade,
em duas:
espinha.
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