Acredita em passagens que são o destino certo da sua pele aberta. Olha e relê trechos demasiadamente nocturnos para serem confessados sob uns lençóis brancos a que sempre chega depois da vida. Olha e exaspera-se vendo escorrer a delicadeza dos frutos que já levou à boca e que estão maduros quanto baste para fazer sumo de calmaria e sonhar com o dia em que vai deixar de ser excessivamente excessiva. Sabe que faz, tão instintiva como desenfreadamente, combinações de números primos com os números das portas a que já bateu para saber se a morada é errante ou se é ela que não quer chegar a casa depois de palmilhar a cidade com as solas da alma gastas. Sente a solidão num vértice sabendo de antemão que águas passadas não movem moinhos. Ou isso ou qualquer outro ditado que aluda a uma lição qualquer que ecoa noite dentro mas que ela fez por não aprender. (E se ela se alistar na primeira coluna de vento a seguir à muralha que protege a cidade, que música se escutará, na despedida?)
Gosta de escrever ar. E ser fogo. Como os signos auguram e os ascendentes procuram explicar. O Universo todo deve ter uma configuração bestial, mas a única coisa que lhe brilha interiormente é aquele ponto, aquele rascunho de circuito de pontos luminosos a apontar para o seu sono humano até aos ossos. De vez em quando, resgata pedaços de circunstância que a fazem sorrir pela pele que desconhece tão perto. Alguém que lhe falou de um nome de um gato de um amigo seu: Gatafunho e da forma como nasce um sorriso naquele rosto. Alguém tem uma sequência de fotos no seu desktop e só agora eu percebi todo o mundo dentro daquela pessoa. Entre as duas, um piso a dividir. Eu, no meu piso, à deriva da substância de luminosidade das duas, durante quase quatro anos. Feliz de quem as tem para consigo beber água do mar ocasionalmente vertida por aqueles olhos. (Quanto tempo até dourar a pele de um lado e poder voltar as costas?) E pouco há mais a dizer sobre a finitude dos que lhe chegam abandonados à sua face exposta. Pouco mais a acrescentar à existência sempre presente de encontros eternamente adiados. Há corpos vários sobre a mesa para jantar e desflorar. E uma manta púrpura na chaise long a anunciar preguiça de névoa e gente-flor caminha, cambaleando, entre retratos seus no chão, alternando a idade menor com a maior. Uma eterna feira de saldos, cinco palavras majestáticas que são o curricula abonado, maltratado e falsificado da sua vida. E os tornozelos feridos de sangue seu até doer. (Quantas noites rosa-velho deixará inacabadas?)
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