Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa (...)
António Franco Alexandre
"Quatro Caprichos", Assírio & Alvim, 1999
Aprendendo o paraíso
Conservo-te o meu sorriso
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso...
Cecília Meireles, always
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso...
Cecília Meireles, always
Alma Pública
Hoje vou quebrar uma regra que mantenho há algum tempo. A de passar para aqui textos pessoais, não ficcionais, e que surgiram como resposta a conversas faladas, escritas ou desenhadas. O próximo texto faz parte de um e-mail que escrevi em mais ou menos 7 minutos, e que fiz seguir, num atilho com cor vibrante, para um e-mail para onde seguiram muitos mais. Passo-o para aqui porque não sei bem como o escrevi: parece-me até que foi rápida demais a sua escrita, como se eu fosse apenas mensageira de algo ou de alguma coisa... (Thanks, Jo). De qualquer forma, é algo que eu deixo escrito porque quero-me lembrar do que disse (ou escrevi) sempre, sobretudo em dias marcados pela finitude. Ou seja, quero lembrar do que sou. De quem sou. E como vivo.
Pessoas de quem gosto. Tenho conhecido todo o género de pessoas: as que passam pela vida como um sopro; as que se arrastam ao longo dos anos fazendo-me sentir atemporal; as que me enviam mensagens tão só porque é Outono e porque, de repente, passam numa mercearia velha numa rua do Chiado e se lembram que um dia ( um dia no tempo curto) eu já lhes disse que, um dia ( nesse dia sem tempo) eu hei-de fotografar um sítio desses; as que conhecem sinónimos para a palavra valor, dignidade, ombridade e verdade...
Sim, saber viver sem ser reconhecido é uma arte. E ter amigos, uma arte maior. Mais ou menos o tamanho que a vida tem.
Quero ser amadora na arte de amar. As vias profissionalizantes roubam o encanto e o brilho de tudo quanto reluz. Não é ao acaso que o selvagem e o bravio despertam em nós sentimentos tão profundos quanto a espessura da nossa alma.
O domínio do formal e do correcto, deixo para as pessoas que escolhem óculos incolores, comidas destemperadas, banhos em praias acessíveis e iluminadas, caminhos apontados por placas, decisões medidas pelo mais fácil e pelo maior capital de segurança que oferecem ... e pouco sumo, cheiro, sabor, olfacto e tacto na ponta das mãos.
Para mim, quero a vida. Com todo o valor e toda a verdade a que posso aspirar, no mais doce de mim. Felizes dos que saboreiam os amigos da mesma forma como se saboreia uma compota numa tarde triste.
E pode ser que um dia eu aprenda a saber quando devo apenas reenviar e-mails porque eles contêm uma mensagem importante (como o que deu origem a este) e a não acrescentar nada
Pessoas de quem gosto. Tenho conhecido todo o género de pessoas: as que passam pela vida como um sopro; as que se arrastam ao longo dos anos fazendo-me sentir atemporal; as que me enviam mensagens tão só porque é Outono e porque, de repente, passam numa mercearia velha numa rua do Chiado e se lembram que um dia ( um dia no tempo curto) eu já lhes disse que, um dia ( nesse dia sem tempo) eu hei-de fotografar um sítio desses; as que conhecem sinónimos para a palavra valor, dignidade, ombridade e verdade...
Sim, saber viver sem ser reconhecido é uma arte. E ter amigos, uma arte maior. Mais ou menos o tamanho que a vida tem.
Quero ser amadora na arte de amar. As vias profissionalizantes roubam o encanto e o brilho de tudo quanto reluz. Não é ao acaso que o selvagem e o bravio despertam em nós sentimentos tão profundos quanto a espessura da nossa alma.
O domínio do formal e do correcto, deixo para as pessoas que escolhem óculos incolores, comidas destemperadas, banhos em praias acessíveis e iluminadas, caminhos apontados por placas, decisões medidas pelo mais fácil e pelo maior capital de segurança que oferecem ... e pouco sumo, cheiro, sabor, olfacto e tacto na ponta das mãos.
Para mim, quero a vida. Com todo o valor e toda a verdade a que posso aspirar, no mais doce de mim. Felizes dos que saboreiam os amigos da mesma forma como se saboreia uma compota numa tarde triste.
E pode ser que um dia eu aprenda a saber quando devo apenas reenviar e-mails porque eles contêm uma mensagem importante (como o que deu origem a este) e a não acrescentar nada
Acorda-me quando for noite.
Deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e nada escrevo. o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim
3ª edição
Dezembro 2000
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e nada escrevo. o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim
3ª edição
Dezembro 2000
Seguindo o rasto
Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
Ponho a máscara do sonho e vou sambar.
Hoje ficas por casa
quase nem ousas lembrar,
mas a lua ainda te chama
como dantes, para dançar.
Já cruzaste oceanos
por caprichos de paixão,
foste deusa, foste bicho,
viste a festa, a fome, o fundo
do país de carnaval,
tira a máscara dos anos
e vem dançar
só mais um samba,
só mais um samba...
Tantas águas passadas
pesam tanto quanto o mar,
mas o tempo ainda reclama
outro tanto navegar.
São novíssimos dias,
novas vozes a cantar,
quero ver-te sem tristeza,
como quando eras nobreza
no país do carnaval,
põe a máscara do sonho
e vem dançar
só mais um samba,
só mais um samba.
J.P.S.
quase nem ousas lembrar,
mas a lua ainda te chama
como dantes, para dançar.
Já cruzaste oceanos
por caprichos de paixão,
foste deusa, foste bicho,
viste a festa, a fome, o fundo
do país de carnaval,
tira a máscara dos anos
e vem dançar
só mais um samba,
só mais um samba...
Tantas águas passadas
pesam tanto quanto o mar,
mas o tempo ainda reclama
outro tanto navegar.
São novíssimos dias,
novas vozes a cantar,
quero ver-te sem tristeza,
como quando eras nobreza
no país do carnaval,
põe a máscara do sonho
e vem dançar
só mais um samba,
só mais um samba.
J.P.S.
Morrer de rir
Perdida
Na avenida
Canta seu enredo
Fora do carnaval
Perdeu a saia
Perdeu o emprego
Desfila natural
Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade, sim
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir
Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol,a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol,a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
C.B.
Na avenida
Canta seu enredo
Fora do carnaval
Perdeu a saia
Perdeu o emprego
Desfila natural
Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade, sim
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir
Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol,a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol,a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
C.B.
Praças
há praças onde esculpir um lírio
zonas subtis de propagação do azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar
M.C.
zonas subtis de propagação do azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar
M.C.
Colectivo
Este texto foi-me apresentado num dia de razoável calor e prolongada a sua leitura pela noite fora. Quando o ouvi, tive a certeza que era isto: escrever. E senti que o faria só (ou sobretudo)por esta razão: viver por dentro da palavra gente, olhando cada centímetro de carne, com a dignidade e a lucidez de um verdadeiro ser humano, de emoções e sentimentos: há uma vida antes deste texto e uma vida depois deste texto, creio. Este texto recuperou-me para a vida, depois do amor. E tive a certeza de que fui privilegiada por conhecê-lo no momento exacto em que o conheci. Devolveu-me à ternura, antes que o soubesse e sonhasse. Não se pode morrer sem o ler, penso. Não se pode continuar a não amar, depois de o ler. Ñão se pode oferecer o corpo e adormecer sem pensar no trecho: " Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista." Não ouso pensar em intimidade, sem que este texto me venha à memória. Não sei dizer o corpo, tocar em alguém ou dizer o calor sem que o meu imaginário refaça cada uma das sensações que este texto me provoca quando o leio.
Numa noite escura ou numa manhã clara, sei que o tenho ao pé da cama. Sei que cada gesto dos meus braços no ar, cada curva que a minha cintura descreve, cada osso que o meu desejo amplifica... em panho de fundo... tem, este mundo que este texto abriu, ao meu redor.
Comunidade (fragmentos):
(...)Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.(...)
(...) Desde que estamos aqui, estudámos, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima, dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lina ou o Zé) atravessados a nossos pés. E havia, ainda, o problema da colocação ou das vizinhanças: eu e a Irene num lado e os miúdos noutro, ou nós no meio e eles um de cada lado, isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família, favoritismos e cìumeiras e choros e berraria às vezes, resolvidos em família entre risos e lágrimas, bofetões, beijos; descomposturas, carícias leves...
(...)Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, rne penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção e a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas). A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura;
(...)Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. As vezes, muitas vezes, beijos e abraços. (...)
Homenagem solar pessoal, feita pessoalmente
" Enquanto o sol desce em direcção ao ocaso, o reflexo branco e incandescente vai-se tingindo de ouro e de cobre. E, para onde quer que o senhor Palomar se desloque, é sempe ele o vértice daquele triângulo douado; a espada segue-o, apontando-o como um ponteiro do relógio que tem por centro o sol.
É uma homenagem pessoal que o sol me faz a mim pessoalmente, sente-se tentado a pensar o senhor Palomar, ou antes, o eu egocêntrico e megalómano que nele habita. Mas o eu depressivo, ou masoquista, que coexiste com o outro no mesm invólucro, objecta: Todos aqules que têm olhos podem ver este reflexo que os segue; a ilusão dos sentidos e da mente mantém-nos sempre a todos prisioneiros. Intervém então um terceiro inquilino, um eu mais imparcial: De qualquer modo, quer dizer que eu pertenço ao grupo dos sujeitos sensíveis e pensantes, capazes de estabelecerem uma relação com os raios solares e de interpretarem e avaliarem as percepções e as ilusões."
De : Italo Calvino, Palomar.
É uma homenagem pessoal que o sol me faz a mim pessoalmente, sente-se tentado a pensar o senhor Palomar, ou antes, o eu egocêntrico e megalómano que nele habita. Mas o eu depressivo, ou masoquista, que coexiste com o outro no mesm invólucro, objecta: Todos aqules que têm olhos podem ver este reflexo que os segue; a ilusão dos sentidos e da mente mantém-nos sempre a todos prisioneiros. Intervém então um terceiro inquilino, um eu mais imparcial: De qualquer modo, quer dizer que eu pertenço ao grupo dos sujeitos sensíveis e pensantes, capazes de estabelecerem uma relação com os raios solares e de interpretarem e avaliarem as percepções e as ilusões."
De : Italo Calvino, Palomar.
Sure
How close am I to paradise.
I see my fingerprints in stars.
And ask where sould I leave this?
Entra e fecha a porta. Faz demasiado frio lá fora.
Pelas frinchas, entra barulho de vozes que se atropelam
na sua própria solidão.
The footsteps in the sand.
The way you said daydreamer.
The walk upon the bridge.
Os amigos põem-me num banho de maria de amor.
E eu digo sexta-feira, sábado e não digo domingo.
Por razões óbvias e motivos objectivos.
Keep breathing.
I sure live in.
I see my fingerprints in stars.
And ask where sould I leave this?
Entra e fecha a porta. Faz demasiado frio lá fora.
Pelas frinchas, entra barulho de vozes que se atropelam
na sua própria solidão.
The footsteps in the sand.
The way you said daydreamer.
The walk upon the bridge.
Os amigos põem-me num banho de maria de amor.
E eu digo sexta-feira, sábado e não digo domingo.
Por razões óbvias e motivos objectivos.
Keep breathing.
I sure live in.
No countable words
(Tell your body to forget the words)*
Estendeu-as. Todas as fotos. Nas cordas da roupa dessa casa que dá para o Tejo. Acordou, de manhã, de forma bizarra e sentiu-se absurdamente melancólico. Como quando desliga todas as luzes e fica deitado na cama com a vista apontada à clarabóia tentando discernir cada um dospontos luminosos no espelho do céu. Pensa em lugares comuns e no modo como escreve cartas. Com o sangue e as vértebras de fora.
(Show me what it's like to give that pain)*
Atravessa a cozinha com uma faca na mão. Parte um limão em dois e espreme o líquído directamente para a sua boca. Às vezes, tudo o que precisa é sentir o ácido. Para reconstruir o mundo. E desaprender as formas e os movimentos.
(Escape from the lights Away from the nights we've known)*
Abre a porta e sai. Lá fora estão todos os pesadelos de trazer por casa e todos os sonhos por nascer. * Pedaços da letra "Can you teach me how to fight", Junior Boys
Dia 11
Trago milhões de frésias no vestido. E o vestido enrolado até ao pescoço. E uma vertigem que me pesa na cabeça feito sombra. O corpo parece quebrar. Arrastado através da areia e as ondas lá atrás esmagam os restos de verde que há pouco povoavam todo o espaço que já foi meu.
(Esta noite não quero vírgulas a separar as ideias porque preciso de espaço na cama para dormir).
Todas as coisas minhas (que não eram minhas porque nunca as possuí, apenas as provei ) fi-las seguir num envelope com um atilho em seda. Já não me lembro da cor e do que escrevi no verso. Tão pouco do que é isso de ter a cabeça vazia e o corpo em chill out.
(Sair deste corpo para fora, emigrar para outra alma e agir como um funcionário público no dever da profissão: a legislação prevê a extinção da sua cabeça de pássaro no prazo de 5 dias úteis, a contar da data da publicação da sua última heresia.)
Júdice diz, num poema, qualquer coisa como "o que é sucessivo, perde-se". Quando é que eu me perdi de mim? Nas vezes em que apanhei o autocarro no meio da noite para regressar a Lisboa antes do amanhecer? Ou em todas em que fugi para o centro da dor em busca de algum conforto que não sei se alguma vez pode suceder?
Pego na tristeza do dia de hoje que não pode ser mais triste que dia algum e no caminho que faço para a cama tento lembrar-me deste texto:
"E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que o façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos, acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz oiço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu ... para sempre. ...”
Texto de MST
Bom dia
Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços
Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre
O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar
Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade
Mário Cesariny
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços
Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre
O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar
Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade
Mário Cesariny
Canção dedicada
"You could drive a car through my head in five minutes from one side of it to the other I wanna hurry home to you put on a slow, dumb show for youand crack you up so you can put a blue ribbon on my brain god I’m very, very frightening I’ll over do it You know I dreamed about you for twenty-nine years before I saw you You know I dreamed about you I missed you for for twenty-nine years You know I dreamed about you for twenty-nine years before I saw you You know I dreamed about you I missed you for for twenty-nine years."*
Esta era a canção que poria a tocar hoje. No escuro. Para te esperar. Em casa. No final do dia. Temos uvas na mesa e afectos na sala. Estamos afectos um ao outro numa só noite. Esperam-nos sombras projectadas na parede do quarto. E sonhos por viver em dias imperfeitos que contam histórias de acasos felizes no caso aceso que é a vida.
Esta era a canção que poria a tocar hoje. No escuro. Para te esperar. Em casa. No final do dia. Temos uvas na mesa e afectos na sala. Estamos afectos um ao outro numa só noite. Esperam-nos sombras projectadas na parede do quarto. E sonhos por viver em dias imperfeitos que contam histórias de acasos felizes no caso aceso que é a vida.
*Letra Slow Show, The National
Little things (a marvellous world)
Lembro-me do jeito como passavas as mãos pelas combinações de tecidos finos. Sempre sonhei em ser assim, alegre, nas pequenas coisas. Viva. Vivida. Uma personalidade toda feita de pequenos pormenores e de pequenos prazeres. Pequenos vícios. Pequenos pecados.
O modo como desenhavas o cabelo na tua cabeça de princesa fazia-me lembrar bailes pela noite fora, como se toda a tua existência fosse muito mais além do que aquilo que viamos, como se tivesses uma vida secreta onde bailasses por salões de festa e bebericasses licores à vez e tomasses a vida nos lábios, apenas para não a deglutir de uma só vez, e ao invés, lhe tomando o gosto, tão sábia quanto lentamente.
Acho que disso percebias tu: de viver, da vida: do tempo e do ritmo a que sabe bem a vida: desaceleravas quando a menor importância das coisas se impunha ou quando o pulsar do êxtase te pedia mais uns segundos de prazer. E "corrias que voavas" (expressão que tu adoravas, lembras-te?) sempre que sentias que o tempo era teu e que nos teus braços podia repousar a felicidade, se corresses muito.
(Vou esperar-te a noite inteira para ver reluzir o brilho da madre-pérola das tuas travessas)
Quando rias muito, Adelina, e a tua cabeça se quedava para trás. Diz-me: que mais se pode pedir de uma infância feliz? Como esquecer os tempos em que fomos felizes, ao coberto de tardes que escureciam muito depressa e de manhãs que gostavas de me apresentar?
(Continuas certa de que as noites são a minha segunda pele)
Quando saio de casa, pela manhã, para caminhar pelo dia, lembro-me de ti. Sempre gostaste de manhãs, do seu muito característico calor (que eu sei não ser igual a nenhum outro calor de uma nenhuma outra parte do dia, porque tu me explicaste) e do ritmo regular de todas as coisas do Universo: as sementeiras, as luas, os nascimentos... Talvez por isso comunicasses tão bem com meu avó Francisco, cujas mãos cuidaram anos e anos a fio de animais e plantas, sem mácula de sofrimento.
Quando morreste, em pleno Verão, eu soube que a estação estava a acabar. Que rapidamente o sol se poria. Que o vibrante das cores das flores do campo daria lugar ao outonal tom heterógeneo de Outubro. Que um ciclo se fechara. Que a natureza, por respeito, reprimiria as cores e embelezaria todo o espaço onde deixaste de estar, omnipresente, com o tom melancólico e grave que te acompanharia na despedida.
Hoje pensei em ti o dia inteiro. Como nas lembranças felizes, ajustou-se-me a curva do sorriso num sentido ascendente. E não podia deixar de escrever-te, Adelina.
No riso e na melancolia saio a ti. No passar as mãos pelo suave das coisas, das pessoas e dos lugares, saio a ti. No bebericar de pássaro, saio a ti. No correr mundo com as pernas às costas, saio a ti. Na prosa, saio a ti.
(Podes-me emprestar esses olhos azuis de mar para chegar mais rápido à Ericeira?)
És-me feliz.
O modo como desenhavas o cabelo na tua cabeça de princesa fazia-me lembrar bailes pela noite fora, como se toda a tua existência fosse muito mais além do que aquilo que viamos, como se tivesses uma vida secreta onde bailasses por salões de festa e bebericasses licores à vez e tomasses a vida nos lábios, apenas para não a deglutir de uma só vez, e ao invés, lhe tomando o gosto, tão sábia quanto lentamente.
Acho que disso percebias tu: de viver, da vida: do tempo e do ritmo a que sabe bem a vida: desaceleravas quando a menor importância das coisas se impunha ou quando o pulsar do êxtase te pedia mais uns segundos de prazer. E "corrias que voavas" (expressão que tu adoravas, lembras-te?) sempre que sentias que o tempo era teu e que nos teus braços podia repousar a felicidade, se corresses muito.
(Vou esperar-te a noite inteira para ver reluzir o brilho da madre-pérola das tuas travessas)
Quando rias muito, Adelina, e a tua cabeça se quedava para trás. Diz-me: que mais se pode pedir de uma infância feliz? Como esquecer os tempos em que fomos felizes, ao coberto de tardes que escureciam muito depressa e de manhãs que gostavas de me apresentar?
(Continuas certa de que as noites são a minha segunda pele)
Quando saio de casa, pela manhã, para caminhar pelo dia, lembro-me de ti. Sempre gostaste de manhãs, do seu muito característico calor (que eu sei não ser igual a nenhum outro calor de uma nenhuma outra parte do dia, porque tu me explicaste) e do ritmo regular de todas as coisas do Universo: as sementeiras, as luas, os nascimentos... Talvez por isso comunicasses tão bem com meu avó Francisco, cujas mãos cuidaram anos e anos a fio de animais e plantas, sem mácula de sofrimento.
Quando morreste, em pleno Verão, eu soube que a estação estava a acabar. Que rapidamente o sol se poria. Que o vibrante das cores das flores do campo daria lugar ao outonal tom heterógeneo de Outubro. Que um ciclo se fechara. Que a natureza, por respeito, reprimiria as cores e embelezaria todo o espaço onde deixaste de estar, omnipresente, com o tom melancólico e grave que te acompanharia na despedida.
Hoje pensei em ti o dia inteiro. Como nas lembranças felizes, ajustou-se-me a curva do sorriso num sentido ascendente. E não podia deixar de escrever-te, Adelina.
No riso e na melancolia saio a ti. No passar as mãos pelo suave das coisas, das pessoas e dos lugares, saio a ti. No bebericar de pássaro, saio a ti. No correr mundo com as pernas às costas, saio a ti. Na prosa, saio a ti.
(Podes-me emprestar esses olhos azuis de mar para chegar mais rápido à Ericeira?)
És-me feliz.
Retrato com espuma
Se pudesse escolher uma estrutura. Uma forma. Um modo líquido de ser. Escolhia, talvez, ser espuma. Espuma dos dias: espuma do galão que bebo para aquecer as mãos em dias não, espuma dos sais de banho que se dissolvem à espera de um corpo mais, espuma da maré arrastada até ao meus pés nos dias em que procuro a lua no espelho que a devolve ao mar. Espuma porque facilmente se dissolve e passa a outro estado, sem pedir licença, apenas pelo jeito natural de ser.
Sempre achei piada ao verbo dissolver. Talvez por isso me entusiasmasse fazer experiências com matérias dissolventes, açucar incluído. O tempo que leva o tempo a dissolver as coisas é um enigma tramado. Mais ou menos o mesmo tempo que imagino quando deito uma daquelas bolas de cristal ao contrário, para ver as bolas (na maior parte das vezes, neve) a reassumirem um espaço próprio.
A imagem da reconstrução depois da construção é qualquer coisa de sublime. Pegar nos cacos e reconstruir a vida. Pegar nos remendos e costurar os afectos. Secar as lágrimas e semear esperança.
Quantas vezes já tentei restaurar o rosto na tentativa de restaurar também o sentir original?
Há uma certa dignidade em acreditar, creio. No que fui. No que sou. No que poderei ser. Ou (me) dissolver.
Amor, amor.
A vida toca-me.
... Quando saí de casa, sozinha pelas mãos, não me dei conta. Da noite menos fria que o habitual. Da primeira vez que conduzi sozinha, à noite, para ver as luzes das inúmeras figuras que se arrastam à frente da minha vista. Quando abandonei o quente da cama de onde não me apetecia sair para lugar algum, lembrei-me do sabor da frescura na cara. Quantas vezes me deixei ficar em quente e desperdicei o fresco? Quantas vezes procurei o consolo agreste que o frio me dá? Tudo isto sem saber que ia acontecer a vida.
Acontece-me a vida e fico de rastos. Acontece-me a vida e inebrio-me de felicidade.
(Qual o doce sabor do equilíbrio?)
Como pode um filme ter tudo? Como pode um filme lavar-nos a alma de uma ponta à outra? Como posso estar lá, no acidente, na viagem de táxi final, na dança da cama, na dança da sala, no olhar sobre as quatro crianças que dormem, no barco pelo oceano, na relação entre irmãos, na linguagem simples da gente simples e na intelectualidade e no sonho de quem não quer ser normal? Como pode um filme ter tudo? Como pude ser tão líquida em tantos instantes repetidos? Porque é que sou tão frágil como a vida?
(Se eu chorar, confia que vivo)
Quero fazer uma viagem de táxi daquelas, pelo menos, uma vez por dia. Para não desaprender a vida. Vi-me lá em todas as cenas. Não é inocente o facto dele sofrer do coração, acho. Não sofremos todos? E quando ele diz que gosta de olhar as pessoas, nas suas vidas e reinventar enredos, teias de relações que se aproximam e cruzam, e a si mesma se espelham... como passar ao lado?
Durante todo este tempo, inúmeras pessoas me disseram aérea, sem consciência da situação traumática por que passei. Referiram-se ao tema, aliás, como efeito normal do mesmo trauma: os primeiros dias são sempre assim: caminhar nas nuvens: só depois a realidade se instala. Não percebi na altura e não percebo hoje. Hoje, hoje, hoje, hoje, hoje ... Meu Deus ... bebo cada segundo de vida com um sorriso nos lábios. Se me lembro, Meu Deus, se me lembro: amo a vida.
(Amo-a. )
A vida toca-me,
violenta-me,
chora-me
e faz-me chorar,
faz-me rir e soltar os lábios.
A vida promete-me e eu sinto-me prometida. A vida faz-me sentir perdida. A vida faz-me olhar para o céu pelo limite de uma janela de táxi. A vida faz-me amar. A vida faz-me bem e melhor a cada instante.
Não queria morrer. Como hoje não quero. Só se tem consciência do que vale um minuto de felicidade quando a vemos escapar sem saber como. E hoje, depois de todos os dias que se seguiram, fiquei a admirar a vida comigo lá dentro. E não tenho lágrimas suficientes para a canção triste deste filme: que é a minha e daí a dificuldade. Porque somos sempre mais pequenos do que imaginamos no nosso vogar de ave. E eu e a minha alma estamos, de repente, de frente, sentadas, uma para a outra, a contemplar o vazio da imagem reflectida.
Estou nua, sinto-me nua, porque a minha alma passou no cinema e a exposição tem demasiada luz para uma escuridão que quero negra. Faz-me lembrar aquele trecho da canção que diz assim: " e quando à minha casa fores dar, vem devagar e apaga-me a luz, que a luz dessa outra ribalta, às vezes não me seduz, às vezes não me faz falta, às vezes não me seduz..."
Quero a vida assim. Para doer menos. Ainda que me doa mais.
Poema desta nuvem
a esta hora entre os blocos de prédios
enevoados a bela mancha
diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão
partir nos braços da
sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que lhe são
remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentando seguido pelas aves que acordam a
duzentos e mais metros de altura
o que não é ainda a grande altura
sim sim
não são
quem sabe
dentro do grande túnel digo-te a vida
esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e
rosada
como aproa de um barco
bateira que me trás os dados e a roleta onde
no branco ou no preto
devo jogar
jogando-me contigo
malmequer
bem-me-quer
ou muito ou pouco
ou nada
o que só com as mãos pode ser soletrado
só nos teus olhos nos teus olhos escrito
dentro do grande túnel digo-te a vida
o moço que há uma hora não fazia senão fumar
cigarros
o mesmo que julgou ter a noite perdida
que maçada
sempre encontrou o seu par
lá vão eles já no extremo do outro lado
da praça
ilustrando uma tese velha da idade do sol
um tanto impertinente e
desde logo minha
segundo a qual no amor toda a entoação da voz humana
tende a reduzir o indivíduo receptor ao estado de
serpente
fascinada
sem que daí advenha a petrificação
estrela cadente
ou qualquer outra espécie de perturbação durável
eu digo que há tambores
mapa louco riscado sobre a areia
há o desenho de onda que atravessa o dorso da cigarra
há o gato tão limpo e ainda e sempre a lavar-se à soleira da porta – a tua porta
quando olhas para mim, a trave mais segura, dizes tu, da viagem –e no vitral de tudo o que eu mais adoro
a dez mil metros de profundidade
lá onde a carpa avança sem deixar
qualquer rasto
há o campo selvagem dos teus ombros
espreitando contra a luz na orla do rio
na nuvem de corsários
que sou eu
vestido de andaluz para o baile em chamas
– digo o grande baile
do século na ilha
o havermo-nos encontrado na horrível sala dos passos perdidos
é o que levarei mil anos a decifrar
o teu cabelo mapa onde tudo reflecte a ronda luminosa dos meus dedos
é o santo e a senha do percurso na sombra
o gesto com que voltas de repente
a cabeça interrompendo o fio da meada
sem que é engraçado hajam batido à porta
entrado ou saído alguém
são os astros o sangue e os jardins de Brauner
e a tua mão posta em arco sobre a minha boca
é uma nova rosácea sobre o mar
livres
digo livre
se isso é não só a grande rua sem fim por onde
vamos
viemos
ao encontro um do outro
a esta casa dorso de todas as casas
e no entanto a única perfeita
silenciosa fresca
mas e também as chamas que acendemos na terra
da floresta humana
não só ao longo dos álamos gigantes e das clareiras mais especta-culares
– aí a memória é fácil
–mas na erosão física de cada folha no vento
tudo o que teve terá a sua vez connosco
a haver de nós a mesma dádiva recíproca
porque tu vês
de costas para a janela tu que disseste:
"vai haver uma grande guerra"
"nenhum de nós eu sei escapará vivo"
vês tão bem como eu o pouco que isso vale,
na muralha da china
onde ainda estamos
nada é de molde a tapar por completo a figura
de bronze enterrada
na areia
o écran que floresce
como tu como eu nos tubos que dissemos
fizemos
faremos acordar
até quando?
amor
amor humano
amor que nos devolve tudo o que perdêssemos
amor da grande solidão povoada de pequenas figuras cintilantes
digo: a constelação de peixes rápidos
do teu corpo em sossego
seja ela a aurora halo multicor
seja o perpétuo real ceptro branco da noite
seja até porque não a luz crepuscular com o seu chapéu preto
as suas hastes mudas
começa a ouvir-se o canto da cigarra
sinal de que foi pisado o botão entre os limos
estão presentes ao acto todos os seres vivos e
entre esses aqueles que
nos foram queridos
na maré límpida que nos impede sabe o polvo dos mares
até onde e
se haverá regresso
em qualquer lado a última janela fotográfica
as mãos do faroleiro
como a locomotiva no seu túnel
mas não há senão o teu rosto o teu rosto o teu rosto
ainda e sempre o teu rosto
como é fácil como é belo
a vida inteira
meu amor
SOMOS NÓS
o cigarro do anúncio luminoso adoeceu deveras
já não fuma o espaço
a uma certa velocidade calma
o atrito longo e agudo dos eléctricos moendo calhas
diz-nos que amanheceu
na sua torre de londres o relógio da estação do rossio
adquire decidida importância
amanheceu é óbvio amanheceu
da nossa viagem ao país dos amantes já não
resta senão esse penacho de fumo
que ameaça evoluir de acordo com a paisagem
uma fábrica ou antes na janela entreaberta
a mensagem do pássaro-extra-programa
que toca desafinado a fabulosa ária
O Mundo Conhecido
e faz baixo cifrado com a diva local
A Lágrima aos Leões
agora somos pequenos e inúmeros e
percorremos o espaço com gangrenas
nas mãos
e intentamos chamadas telefónicas
e marcamos de novo e desligamos depressa
e tu pões uma écharpe sobre os ombros
e eu visto o meu casaco e saímos de vez
porque nós somos a multidão a que eu chamo
o homem e a mulher de todos os tempos áridos
e como sempre não há lugar para nós nesta cidade
esta ou outra qualquer que de perto ou de longe a esta se pareça
o regresso é sempre assinalado por esta negra actividade carfológica
verdadeiro sinal-emblema destes tempos
em que a evidência necessita de envólucro
para não morrer na estrada
junto às rodas do avanço a golpes de clarim
reinvenção espantosa
masculina da morte
ou nos carros do clube As Mãos no Sexo
junto ao qual admira-te vivemos
o problema não passa da sua fase primária:
um – o crocodilo
e dois – o clou do arame
se bem que esta velha raça de acrobatas anões
devesse dar por terminada há muito a sua nobre
facécia sobre a
cúpula em chamas
dividir o homem
pôr-lha à direita a luz
a assistência aplaude
pôr-lhe à esquerda a
sombra a assistência treme
de tal modo que a meio da operação cabalística
em silêncio e miséria em medo e melancolia
o homem atinja bravo
bravo bravo a imobilidade do sepulcro
após o que rocegagem do arlequim de plumas
e iluminação de todos os fósseis mais antigos
convenhamos meu amor convenhamos
sem que estamos bem longe de ver pago todo o tributo
devido à miséria deste tempo
e que enquanto um só homem
um só que seja e ainda que seja o
último existir
DESFIGURADO
não haverá Figura Humana sobre a terra
- a ensombração maligna de certas lágrimas
quando a alegria é mais
resplandecente
não deve ter outra origem
no centro do diamante o pequenino carvão
venenoso é quanto basta
para perder a vida
e no entanto nós meu amor partimos
livres e únicos no altar da estrela que só nós
podemos mas por este lado estamos presos à roda
como a lapa não o está na
sua rocha
e na cama-beliche desfeita da viagem
floresce a sono solto uma flor
especiosa
decor para a estrada
pela esquerda alta da figura do Homem Sufocado
o homem que nos fala de apagador na mão
doce chapéu cinzento
rosto impermeável impossível sair impossível passar ele quer ir
connosco até aos confins
da terra
contra ele meu amor a invenção do teu sexo
único arco de todas as cores dos triunfos humanos
contra ele meu amor a invenção dos teus braços
maravilha longínqua obscura inexpugnável rodeada de água por
todos os lados estéreis
contra ele meu amor a sombra que fazemos
no aqueduto grande do meu peito O MAR
Mário Cesariny
enevoados a bela mancha
diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão
partir nos braços da
sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que lhe são
remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentando seguido pelas aves que acordam a
duzentos e mais metros de altura
o que não é ainda a grande altura
sim sim
não são
quem sabe
dentro do grande túnel digo-te a vida
esta nuvem que vai para o centro da cidade leve e
rosada
como aproa de um barco
bateira que me trás os dados e a roleta onde
no branco ou no preto
devo jogar
jogando-me contigo
malmequer
bem-me-quer
ou muito ou pouco
ou nada
o que só com as mãos pode ser soletrado
só nos teus olhos nos teus olhos escrito
dentro do grande túnel digo-te a vida
o moço que há uma hora não fazia senão fumar
cigarros
o mesmo que julgou ter a noite perdida
que maçada
sempre encontrou o seu par
lá vão eles já no extremo do outro lado
da praça
ilustrando uma tese velha da idade do sol
um tanto impertinente e
desde logo minha
segundo a qual no amor toda a entoação da voz humana
tende a reduzir o indivíduo receptor ao estado de
serpente
fascinada
sem que daí advenha a petrificação
estrela cadente
ou qualquer outra espécie de perturbação durável
eu digo que há tambores
mapa louco riscado sobre a areia
há o desenho de onda que atravessa o dorso da cigarra
há o gato tão limpo e ainda e sempre a lavar-se à soleira da porta – a tua porta
quando olhas para mim, a trave mais segura, dizes tu, da viagem –e no vitral de tudo o que eu mais adoro
a dez mil metros de profundidade
lá onde a carpa avança sem deixar
qualquer rasto
há o campo selvagem dos teus ombros
espreitando contra a luz na orla do rio
na nuvem de corsários
que sou eu
vestido de andaluz para o baile em chamas
– digo o grande baile
do século na ilha
o havermo-nos encontrado na horrível sala dos passos perdidos
é o que levarei mil anos a decifrar
o teu cabelo mapa onde tudo reflecte a ronda luminosa dos meus dedos
é o santo e a senha do percurso na sombra
o gesto com que voltas de repente
a cabeça interrompendo o fio da meada
sem que é engraçado hajam batido à porta
entrado ou saído alguém
são os astros o sangue e os jardins de Brauner
e a tua mão posta em arco sobre a minha boca
é uma nova rosácea sobre o mar
livres
digo livre
se isso é não só a grande rua sem fim por onde
vamos
viemos
ao encontro um do outro
a esta casa dorso de todas as casas
e no entanto a única perfeita
silenciosa fresca
mas e também as chamas que acendemos na terra
da floresta humana
não só ao longo dos álamos gigantes e das clareiras mais especta-culares
– aí a memória é fácil
–mas na erosão física de cada folha no vento
tudo o que teve terá a sua vez connosco
a haver de nós a mesma dádiva recíproca
porque tu vês
de costas para a janela tu que disseste:
"vai haver uma grande guerra"
"nenhum de nós eu sei escapará vivo"
vês tão bem como eu o pouco que isso vale,
na muralha da china
onde ainda estamos
nada é de molde a tapar por completo a figura
de bronze enterrada
na areia
o écran que floresce
como tu como eu nos tubos que dissemos
fizemos
faremos acordar
até quando?
amor
amor humano
amor que nos devolve tudo o que perdêssemos
amor da grande solidão povoada de pequenas figuras cintilantes
digo: a constelação de peixes rápidos
do teu corpo em sossego
seja ela a aurora halo multicor
seja o perpétuo real ceptro branco da noite
seja até porque não a luz crepuscular com o seu chapéu preto
as suas hastes mudas
começa a ouvir-se o canto da cigarra
sinal de que foi pisado o botão entre os limos
estão presentes ao acto todos os seres vivos e
entre esses aqueles que
nos foram queridos
na maré límpida que nos impede sabe o polvo dos mares
até onde e
se haverá regresso
em qualquer lado a última janela fotográfica
as mãos do faroleiro
como a locomotiva no seu túnel
mas não há senão o teu rosto o teu rosto o teu rosto
ainda e sempre o teu rosto
como é fácil como é belo
a vida inteira
meu amor
SOMOS NÓS
o cigarro do anúncio luminoso adoeceu deveras
já não fuma o espaço
a uma certa velocidade calma
o atrito longo e agudo dos eléctricos moendo calhas
diz-nos que amanheceu
na sua torre de londres o relógio da estação do rossio
adquire decidida importância
amanheceu é óbvio amanheceu
da nossa viagem ao país dos amantes já não
resta senão esse penacho de fumo
que ameaça evoluir de acordo com a paisagem
uma fábrica ou antes na janela entreaberta
a mensagem do pássaro-extra-programa
que toca desafinado a fabulosa ária
O Mundo Conhecido
e faz baixo cifrado com a diva local
A Lágrima aos Leões
agora somos pequenos e inúmeros e
percorremos o espaço com gangrenas
nas mãos
e intentamos chamadas telefónicas
e marcamos de novo e desligamos depressa
e tu pões uma écharpe sobre os ombros
e eu visto o meu casaco e saímos de vez
porque nós somos a multidão a que eu chamo
o homem e a mulher de todos os tempos áridos
e como sempre não há lugar para nós nesta cidade
esta ou outra qualquer que de perto ou de longe a esta se pareça
o regresso é sempre assinalado por esta negra actividade carfológica
verdadeiro sinal-emblema destes tempos
em que a evidência necessita de envólucro
para não morrer na estrada
junto às rodas do avanço a golpes de clarim
reinvenção espantosa
masculina da morte
ou nos carros do clube As Mãos no Sexo
junto ao qual admira-te vivemos
o problema não passa da sua fase primária:
um – o crocodilo
e dois – o clou do arame
se bem que esta velha raça de acrobatas anões
devesse dar por terminada há muito a sua nobre
facécia sobre a
cúpula em chamas
dividir o homem
pôr-lha à direita a luz
a assistência aplaude
pôr-lhe à esquerda a
sombra a assistência treme
de tal modo que a meio da operação cabalística
em silêncio e miséria em medo e melancolia
o homem atinja bravo
bravo bravo a imobilidade do sepulcro
após o que rocegagem do arlequim de plumas
e iluminação de todos os fósseis mais antigos
convenhamos meu amor convenhamos
sem que estamos bem longe de ver pago todo o tributo
devido à miséria deste tempo
e que enquanto um só homem
um só que seja e ainda que seja o
último existir
DESFIGURADO
não haverá Figura Humana sobre a terra
- a ensombração maligna de certas lágrimas
quando a alegria é mais
resplandecente
não deve ter outra origem
no centro do diamante o pequenino carvão
venenoso é quanto basta
para perder a vida
e no entanto nós meu amor partimos
livres e únicos no altar da estrela que só nós
podemos mas por este lado estamos presos à roda
como a lapa não o está na
sua rocha
e na cama-beliche desfeita da viagem
floresce a sono solto uma flor
especiosa
decor para a estrada
pela esquerda alta da figura do Homem Sufocado
o homem que nos fala de apagador na mão
doce chapéu cinzento
rosto impermeável impossível sair impossível passar ele quer ir
connosco até aos confins
da terra
contra ele meu amor a invenção do teu sexo
único arco de todas as cores dos triunfos humanos
contra ele meu amor a invenção dos teus braços
maravilha longínqua obscura inexpugnável rodeada de água por
todos os lados estéreis
contra ele meu amor a sombra que fazemos
no aqueduto grande do meu peito O MAR
Mário Cesariny
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