Lembro-me do jeito como passavas as mãos pelas combinações de tecidos finos. Sempre sonhei em ser assim, alegre, nas pequenas coisas. Viva. Vivida. Uma personalidade toda feita de pequenos pormenores e de pequenos prazeres. Pequenos vícios. Pequenos pecados.
O modo como desenhavas o cabelo na tua cabeça de princesa fazia-me lembrar bailes pela noite fora, como se toda a tua existência fosse muito mais além do que aquilo que viamos, como se tivesses uma vida secreta onde bailasses por salões de festa e bebericasses licores à vez e tomasses a vida nos lábios, apenas para não a deglutir de uma só vez, e ao invés, lhe tomando o gosto, tão sábia quanto lentamente.
Acho que disso percebias tu: de viver, da vida: do tempo e do ritmo a que sabe bem a vida: desaceleravas quando a menor importância das coisas se impunha ou quando o pulsar do êxtase te pedia mais uns segundos de prazer. E "corrias que voavas" (expressão que tu adoravas, lembras-te?) sempre que sentias que o tempo era teu e que nos teus braços podia repousar a felicidade, se corresses muito.
(Vou esperar-te a noite inteira para ver reluzir o brilho da madre-pérola das tuas travessas)
Quando rias muito, Adelina, e a tua cabeça se quedava para trás. Diz-me: que mais se pode pedir de uma infância feliz? Como esquecer os tempos em que fomos felizes, ao coberto de tardes que escureciam muito depressa e de manhãs que gostavas de me apresentar?
(Continuas certa de que as noites são a minha segunda pele)
Quando saio de casa, pela manhã, para caminhar pelo dia, lembro-me de ti. Sempre gostaste de manhãs, do seu muito característico calor (que eu sei não ser igual a nenhum outro calor de uma nenhuma outra parte do dia, porque tu me explicaste) e do ritmo regular de todas as coisas do Universo: as sementeiras, as luas, os nascimentos... Talvez por isso comunicasses tão bem com meu avó Francisco, cujas mãos cuidaram anos e anos a fio de animais e plantas, sem mácula de sofrimento.
Quando morreste, em pleno Verão, eu soube que a estação estava a acabar. Que rapidamente o sol se poria. Que o vibrante das cores das flores do campo daria lugar ao outonal tom heterógeneo de Outubro. Que um ciclo se fechara. Que a natureza, por respeito, reprimiria as cores e embelezaria todo o espaço onde deixaste de estar, omnipresente, com o tom melancólico e grave que te acompanharia na despedida.
Hoje pensei em ti o dia inteiro. Como nas lembranças felizes, ajustou-se-me a curva do sorriso num sentido ascendente. E não podia deixar de escrever-te, Adelina.
No riso e na melancolia saio a ti. No passar as mãos pelo suave das coisas, das pessoas e dos lugares, saio a ti. No bebericar de pássaro, saio a ti. No correr mundo com as pernas às costas, saio a ti. Na prosa, saio a ti.
(Podes-me emprestar esses olhos azuis de mar para chegar mais rápido à Ericeira?)
És-me feliz.
O modo como desenhavas o cabelo na tua cabeça de princesa fazia-me lembrar bailes pela noite fora, como se toda a tua existência fosse muito mais além do que aquilo que viamos, como se tivesses uma vida secreta onde bailasses por salões de festa e bebericasses licores à vez e tomasses a vida nos lábios, apenas para não a deglutir de uma só vez, e ao invés, lhe tomando o gosto, tão sábia quanto lentamente.
Acho que disso percebias tu: de viver, da vida: do tempo e do ritmo a que sabe bem a vida: desaceleravas quando a menor importância das coisas se impunha ou quando o pulsar do êxtase te pedia mais uns segundos de prazer. E "corrias que voavas" (expressão que tu adoravas, lembras-te?) sempre que sentias que o tempo era teu e que nos teus braços podia repousar a felicidade, se corresses muito.
(Vou esperar-te a noite inteira para ver reluzir o brilho da madre-pérola das tuas travessas)
Quando rias muito, Adelina, e a tua cabeça se quedava para trás. Diz-me: que mais se pode pedir de uma infância feliz? Como esquecer os tempos em que fomos felizes, ao coberto de tardes que escureciam muito depressa e de manhãs que gostavas de me apresentar?
(Continuas certa de que as noites são a minha segunda pele)
Quando saio de casa, pela manhã, para caminhar pelo dia, lembro-me de ti. Sempre gostaste de manhãs, do seu muito característico calor (que eu sei não ser igual a nenhum outro calor de uma nenhuma outra parte do dia, porque tu me explicaste) e do ritmo regular de todas as coisas do Universo: as sementeiras, as luas, os nascimentos... Talvez por isso comunicasses tão bem com meu avó Francisco, cujas mãos cuidaram anos e anos a fio de animais e plantas, sem mácula de sofrimento.
Quando morreste, em pleno Verão, eu soube que a estação estava a acabar. Que rapidamente o sol se poria. Que o vibrante das cores das flores do campo daria lugar ao outonal tom heterógeneo de Outubro. Que um ciclo se fechara. Que a natureza, por respeito, reprimiria as cores e embelezaria todo o espaço onde deixaste de estar, omnipresente, com o tom melancólico e grave que te acompanharia na despedida.
Hoje pensei em ti o dia inteiro. Como nas lembranças felizes, ajustou-se-me a curva do sorriso num sentido ascendente. E não podia deixar de escrever-te, Adelina.
No riso e na melancolia saio a ti. No passar as mãos pelo suave das coisas, das pessoas e dos lugares, saio a ti. No bebericar de pássaro, saio a ti. No correr mundo com as pernas às costas, saio a ti. Na prosa, saio a ti.
(Podes-me emprestar esses olhos azuis de mar para chegar mais rápido à Ericeira?)
És-me feliz.
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