Não gosto nada de balanços. Embora possa perceber que eles sejam importantes para construir o futuro e para desembainhar o passado. Mas, seja como for, lembrei-me deste ano e de muitas das coisas que se sucederam ao longo dos dias e das noites de 2007 +1 e apeteceu-me escrever sobre isso.
Não posso não pensar no embate e no espectáculo
imagético de faíscas por cima da minha cabeça. A minha alma é
imagética. Tudo se faz de e por imagens. Aliás, quando não tenho talento ou disposição para falar, valem-me as imagens e os sons e muitas vezes as cores. Explico pessoas por cores porque me dá mais jeito ao peito e tenho um punhado de pessoas cor de pôr-do-sol na Ericeira. E ai de quem me diga que há um pôr de sol mais mágico que o da Ericeira. Vou já avisando!!!
Lembrei-me de pessoas com quem viajei e nem sequer neste ano. Lembrei-me da minha querida Shiva, com quem fiz o caminho do aeroporto num país adocicado na língua e nos gestos, várias vezes, refazendo a rota da coca e arriscando tudo quanto tinhamos em nós. Decidimos ir na semana anterior à partida, ela partiu um ano depois. Fizemos a viagem porque ela queria viver, VIVER à séria, embora tivesse um prognóstico de doença reservado. E sei que a viagem valeu-lhe pela vida. Ela também me valeu a vida.
Lembrei-me do Tiago, companheiro de viagem para Barcelona e das muitas
Ritas que conheci e desse sentimento que nos atravessa quando entramos num outro território e somos bafejados com o ar que ali se respira. Estou
indelevelmente ligada às pessoas com quem viajei porque elas me deram os dias e eu sorri-lhes com as noites. Estou ligada às pessoas, muito mais do que aos homens ou às mulheres, embora não desconhecendo que são homens e mulheres.
Lembrei-me dos amigos amigos de outros amigos que não cabem nos cinco dedos da mão. E das festas em casa dessas pessoas e das fotos que enquadram as músicas que alguém cantou. E do todo que ficou por dizer porque não era importante tirar conclusões e dizer a deixa final. As coisas mais bonitas são as que ficam por dizer.
A minha memória avivou também os amigos que conhecia há muito tempo e que me conheceram, sem
tule por cima, e fora do fato gasto da profissão em que me passeio. E de um amigo, de sempre, sobre quem escrevi, noutro blog, o seguinte sobre o modo como sempre encarámos o que fomos:
"Sempre souberam que não havia catálogo, caixa, nome, comparação para tudo o que edificaram para além dos
canônes tradicionais das relações e dos sentimentos."
E acho que chego ao ponto onde queria chegar. Estive todo este tempo (que parte da minha vida é que posso excluir de todo este tempo?) a caminhar e a passar, como os comboios ou os
elécricos em fim de tarde ou no meio da noite. Porque não sei se tenho identidade ou se, pouco a pouco, com gente e sítios, aprendo a construir a minha própria identidade. Não sei se vou conseguir não ser do mundo e por isso só posso estar agradecida por verem em mim mais do que o meu género indica.
Quando faço amigos, vejo pessoas. Vejo humanos neles. Vejo-os, fora dos muitos contextos em que eles se integram necessariamente. E ao vê-los e
con(vivê-los) olho para eles a sério. Uma pessoa é uma hipótese provável de excepção a todas as outras e é isso que me encanta e seduz. Cada pessoa, um mundo e todos os outros mundos que aquela pessoa trouxer consigo ou quiser partilhar.
E por isso, tenho de falar em ti,
Jo. Ou antes, quero. E no muito que me ensinaste a olhar. Porque tu és como uma casa, ou como alguém disse um dia, como um lar. Estar contigo é estar em casa. E poder ser. Agradeço-te, neste fim de ano, também por isso, por ofereceres tranquilidade e lealdade a quem entra em ti e por veres além do género que ocupo. A amizade é isso. Poucas pessoas percebem que as relações entre os dois géneros, sendo de amizade, podem ser completas nisso. E poucas acreditam e as vivem nessa base. Porque é que a amizade não pode ser completa e porque é que não nos podemos entusiasmar com os amigos do mesmo modo como nos apaixonamos?
Tenho amigos
delight e isso basta-me neles. Eles bastam-se nisso.
So,
what' s
the point?
Viajei com homens porque eles eram meus amigos. Da mesma maneira que viajei com mulheres porque eram minhas amigas. Jantei com pessoas: homens e mulheres e saio com todos, indiscriminadamente, sem fazer
género ao género. Acho demasiado redutor essa coisa dos géneros. E pouco saudável colocar o amor no topo.
Eu agradeço os amigos que tenho. E a eles, por saberem que não vejo neles, um pedaço de carne. É óbvio que somos todos humanos, mas porque não posso ter apenas amigos-homens e amigos-mulheres e isso me bastar na amizade que lhes tenho e que eles me devolvem.
Ao longo deste ano também se afastaram algumas pessoas que não perceberam isso ou que não partilhavam da mesma ideia. E isso entristeceu-me, de quando em vez, porque genuinamente somos quem somos e penso que é uma alegria termos amigos como lares. E a leveza de conhecermos mundo através deles e de todos aqueles que são trazidos por eles. Porque amizade é partilhar. Eu partilho os meus amigos velhos com os meus amigos novos.
Quanto à paixão e ao amor, capítulos de um sabor diferente, necessariamente, não vou querer falar neste fim de ano. Não porque pertençam a um capítulo sagrado, nem tão pouco porque queira contornar assuntos, só porque estou indizível e porque tantas outras coisas me fizeram saber quem sou, neste ano.