Eu, em branco

De vez em quando, alguém diz algo verdadeiramente básico ou banal e eu escuto. De quando em vez, os meus ouvidos escutam algo simples que se tende a repetir, vezes sem conta, na minha cabeça até adormecer. Costumo dizer que tenho amigos que têm teorias. Amigos que tiram da cartola do nada, coisas tão assustadoramente banais que me deixam de boca no chão.
De repente, uma frase meio sussurada, como se de inútil se tratasse que resolve o meu mundo de dúvidas e inquietações mil. Gosto de ouvir os meus amigos. E de olhar para eles quando eles misturam o quotidiano com o surpreendente e nem se apercebem. Acho que, muitas vezes, não fazem ideia do tanto que dizem. Do quanto me tingem. Do muito que me sopram ao ouvido.
Gosto de entrecortar o trivial com o frágil. O quotidiano com o filosófico. A certeza com o pueril. A basófia e a trivialidade com a humanidade e a verdade. E é sempre nos intervalos entre estes mosaicos que se dá o óbvio: no meio da mais acesa discussão sobre quanto o F.C. Porto polui o imaginário do futebol português enquanto exemplo máximo da corrupção e da influência, surge uma tirada genial sobre a vida a dois ou o sentido da própria vida. E tudo isto dito, como a coisa mais ligeira e fluida de sempre, como se se tratasse de encomendar ameijôas na loja da esquina.
E eu assisto, divertida e chocada, ao imaginário feliz dos que me acompanham. Como, no domingo (em todos os domingos sem data), Ritz...
Gosto de mandar postais. Com o veludo dos amigos. E parece que não sei dizer outra, nestes últimos tempos, senão: amigos. Mas recebo um telefonema como o de segunda-feira e sei que, embora descontando a correcção e a educação, fui-me feliz. Por ser eu. E por acreditar repetir, no mais íntimo de mim: "possuo para sempre tudo o que perdi. recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: apaga as estrelas...", à boa maneira de A..
Tenho um vinho floral. Ou será, frutado? Furtado? (risos)
E toda a incerteza que me sabe bem nos lábios.
Os relógios desligados até mais não-ver.
As palavras desacertadas porque o melhor, de mim, vem em silêncio.
O coração novo, a cabeça leve e as pernas a andar...
Amanhã vai amanhecer exactamente igual.

2007+1

Não gosto nada de balanços. Embora possa perceber que eles sejam importantes para construir o futuro e para desembainhar o passado. Mas, seja como for, lembrei-me deste ano e de muitas das coisas que se sucederam ao longo dos dias e das noites de 2007 +1 e apeteceu-me escrever sobre isso.
Não posso não pensar no embate e no espectáculo imagético de faíscas por cima da minha cabeça. A minha alma é imagética. Tudo se faz de e por imagens. Aliás, quando não tenho talento ou disposição para falar, valem-me as imagens e os sons e muitas vezes as cores. Explico pessoas por cores porque me dá mais jeito ao peito e tenho um punhado de pessoas cor de pôr-do-sol na Ericeira. E ai de quem me diga que há um pôr de sol mais mágico que o da Ericeira. Vou já avisando!!!
Lembrei-me de pessoas com quem viajei e nem sequer neste ano. Lembrei-me da minha querida Shiva, com quem fiz o caminho do aeroporto num país adocicado na língua e nos gestos, várias vezes, refazendo a rota da coca e arriscando tudo quanto tinhamos em nós. Decidimos ir na semana anterior à partida, ela partiu um ano depois. Fizemos a viagem porque ela queria viver, VIVER à séria, embora tivesse um prognóstico de doença reservado. E sei que a viagem valeu-lhe pela vida. Ela também me valeu a vida.
Lembrei-me do Tiago, companheiro de viagem para Barcelona e das muitas Ritas que conheci e desse sentimento que nos atravessa quando entramos num outro território e somos bafejados com o ar que ali se respira. Estou indelevelmente ligada às pessoas com quem viajei porque elas me deram os dias e eu sorri-lhes com as noites. Estou ligada às pessoas, muito mais do que aos homens ou às mulheres, embora não desconhecendo que são homens e mulheres.
Lembrei-me dos amigos amigos de outros amigos que não cabem nos cinco dedos da mão. E das festas em casa dessas pessoas e das fotos que enquadram as músicas que alguém cantou. E do todo que ficou por dizer porque não era importante tirar conclusões e dizer a deixa final. As coisas mais bonitas são as que ficam por dizer.
A minha memória avivou também os amigos que conhecia há muito tempo e que me conheceram, sem tule por cima, e fora do fato gasto da profissão em que me passeio. E de um amigo, de sempre, sobre quem escrevi, noutro blog, o seguinte sobre o modo como sempre encarámos o que fomos:
"Sempre souberam que não havia catálogo, caixa, nome, comparação para tudo o que edificaram para além dos canônes tradicionais das relações e dos sentimentos."
E acho que chego ao ponto onde queria chegar. Estive todo este tempo (que parte da minha vida é que posso excluir de todo este tempo?) a caminhar e a passar, como os comboios ou os elécricos em fim de tarde ou no meio da noite. Porque não sei se tenho identidade ou se, pouco a pouco, com gente e sítios, aprendo a construir a minha própria identidade. Não sei se vou conseguir não ser do mundo e por isso só posso estar agradecida por verem em mim mais do que o meu género indica.
Quando faço amigos, vejo pessoas. Vejo humanos neles. Vejo-os, fora dos muitos contextos em que eles se integram necessariamente. E ao vê-los e con(vivê-los) olho para eles a sério. Uma pessoa é uma hipótese provável de excepção a todas as outras e é isso que me encanta e seduz. Cada pessoa, um mundo e todos os outros mundos que aquela pessoa trouxer consigo ou quiser partilhar.
E por isso, tenho de falar em ti, Jo. Ou antes, quero. E no muito que me ensinaste a olhar. Porque tu és como uma casa, ou como alguém disse um dia, como um lar. Estar contigo é estar em casa. E poder ser. Agradeço-te, neste fim de ano, também por isso, por ofereceres tranquilidade e lealdade a quem entra em ti e por veres além do género que ocupo. A amizade é isso. Poucas pessoas percebem que as relações entre os dois géneros, sendo de amizade, podem ser completas nisso. E poucas acreditam e as vivem nessa base. Porque é que a amizade não pode ser completa e porque é que não nos podemos entusiasmar com os amigos do mesmo modo como nos apaixonamos?
Tenho amigos delight e isso basta-me neles. Eles bastam-se nisso. So, what' s the point?
Viajei com homens porque eles eram meus amigos. Da mesma maneira que viajei com mulheres porque eram minhas amigas. Jantei com pessoas: homens e mulheres e saio com todos, indiscriminadamente, sem fazer género ao género. Acho demasiado redutor essa coisa dos géneros. E pouco saudável colocar o amor no topo.
Eu agradeço os amigos que tenho. E a eles, por saberem que não vejo neles, um pedaço de carne. É óbvio que somos todos humanos, mas porque não posso ter apenas amigos-homens e amigos-mulheres e isso me bastar na amizade que lhes tenho e que eles me devolvem.
Ao longo deste ano também se afastaram algumas pessoas que não perceberam isso ou que não partilhavam da mesma ideia. E isso entristeceu-me, de quando em vez, porque genuinamente somos quem somos e penso que é uma alegria termos amigos como lares. E a leveza de conhecermos mundo através deles e de todos aqueles que são trazidos por eles. Porque amizade é partilhar. Eu partilho os meus amigos velhos com os meus amigos novos.
Quanto à paixão e ao amor, capítulos de um sabor diferente, necessariamente, não vou querer falar neste fim de ano. Não porque pertençam a um capítulo sagrado, nem tão pouco porque queira contornar assuntos, só porque estou indizível e porque tantas outras coisas me fizeram saber quem sou, neste ano.

True, always












Não sei se o meu alfabeto inteiro está cumprido nas minhas palavras. Não acredito que alguém possa ser apenas a leitura do que escreve. Somos inúmeros no escuro de nós. Às vezes tenho a sensação que o que me colam à imagem é redutor em relação ao que sou ou que eu sou, na verdade, uma totalidade que não oferece virtude ou coragem. No mais, sou fuga, ainda que para a frente. Sempre achei que o comentário é, tantas e tantas vezes, um delito de opinião. Por isso gosto tanto de arte e gosto tanto de duvidar do provável e do possível. Nunca saberei fazer poesia. Nunca saberei estar dentro sem estar um bocadinho de fora para apreciar a vista e me sentir confortável. Porque quando ouvi a expressão "cidadão do mundo", compreendi, de imediato, porque é para mim tão importante ver um igual a meu lado. Só se pode amar quando se respeita a diferença e se reconhece o ser humano, tão humano demais. Só dando asas, se cumpre o firme aceitar de que quem quiser estar connosco, fá-lo-á por vontade própria e não por circuntâncias adversas ou porque os dados foram viciados. Não vale a pena viciar o jogo, porque se arrisca a verdade das coisas. Quando digo humanidade e a forma como gosto de tudo quanto representa essa característica no meu sentir, acho que não compreendem. Não se traduz para a linguagem dos não-humanos, o que é trazer a miséria nos olhos e a boca do povo cerrada nos dentes. Queria dizer, à boa maneira de ti, Rutz, nunca poderei ser infeliz estando só. E que isso não tem nada, mas mesmo nada que ver, com o facto de a minha alma ser comunitária e de gostar de tocar nas pessoas. Queria um sinónimo de calor que dissesse o bastante que a palavra transporta. Queria descobrir a fórmula química que compõe um riso verdadeiro e talvez isso me fizesse chegar à palavra verdade. Com verdade, chego à palavra lealdade e fica tudo dito quanto ao muito que me preenche ter amigos que me extrapolam no sentido vago que é ter asas. Porque a Ritz Ficz está. Está. Só isso. Tanto nisso. Quando acordo de manhã, sem jeito para decretar leis, sem disposição sobre o tratado de coisas que estão mal no mundo, quero o silêncio. Preciso de. Por isso os que me conhecem sabem que estão bem comigo quando fazem uma viagem de carro e não precisamos de dizer nada (Rutz). Por isso sabem que todo o sujeito tem o seu lado lunar e que o meu surge quando a lua, ironicamente, se põe. Adoro as manhãs solares. E todas as que nascem em neblina. Creio que noite alguma terá esse poder de me sentir fazer viva. Mas porque respeito e acredito no ritmo do que amanhece, vou devagar pela manhã até me sentir bem para falar. Como quando sabemos que respeitamos as pessoas a partir do momento em que percebemos que não escondem: são, não fingem: são, não fazem frete: são, não são sacanas, são gente que tem amigos e que sabe que amizade e família são como caminhar de olhos fechados, a guiar-nos quando tudo o mais parece desabar. Preciso do espaço que o meu pensamento ocupa, porque o meu corpo não reclama espaço quando mais dele precisa e quando toca My Funny Valentine, Chet Baker, e um copo de vinho... sei que venho à superfície. Sou torcida pelo lado de dentro. Porque conquistar o meu respeito pode levar um segundo ou mil vidas. Porque como os meus cães, como na taça enquanto metem a mão lá dentro e brincam que vão tirar metade da ração. Porque o que me é dado, com verdade, aceitarei sem duvidar. Tudo aquilo que constitui excepção a esta regra, não quero sequer pensar em aceitar. Não nascemos com mapas que indiquem a direcção do tesouro, mas talvez por isso acredite tanto que só faz sentido chegarem cá, se sentirem semelhança no trato e no caminhar. Tudo na vida requer adivinhação. E quem não gosta de ser adivinhado. Sou bera para andar atrás. Fazer o filme do admirador. Tanta gente que admiro e que não quero conhecer. Nunca me interessou desmontar os brinquedos para ver como funcionavam, a magia esteve sempre do lado de fora. Não quero saber o mistério do que me põe alegre. Mas quero passar no alegre e no triste, no contentamento e na decepção, para saber a que sabem e vir à tona sabendo quem sou. Nunca admirei ninguém que fizesse coisas no recato. Às escondidas. Vivo na claridade (E vivendo-a, faz sentido partilhá-la, com quem lhe apeteça também um pedaço de mar e poucas respostas na palma da mão).E isso é, desde sempre, uma questão de princípio e porque não ousar arriscar a dizer: raça. Que mal tem em afirmar que sou firme em gostar do que gosto e que tenho duas ou três preferências na vida feitas por escolha de coração, sem qualquer rasgo de razão. Serei dura na queda, à boa maneira de C.B.. Do meu pai herdo muito mais do que aquilo que imagino. Um jeito de ficar sem graça explicando a elegância e o decoro, um ficar a sós no meio da multidão, saindo no meio da festa, e o gostar de gostar de determinadas coisas, isto é, fazer algumas escolhas apenas tendo por base o instinto e a convicção. Comunico com o meu pai com o olhar. E com o riso. E não deixo de comunicar nos dias que, como a minha mãe diz, "estou para amar": o contrário de amar, bem entendido. Sou forte pelo lado de fora. Mas não deixo de precisar que precisem. Às vezes, só quero descansar e respirar o ar. Gosto das coisas que me fazem sentir bem e tudo o que escapa, quero que me escape. Não há nada que me garanta que não mude de cidade quanto me faltar o ar. Nem nada que justifique fugir quando ainda estou em chamas. Mas nunca, em circunstância alguma, justificar a pureza e a alegria que tenho na autenticidade do meu sentir. Sou e estou, sem notas à margem ou glossários extra.

Vuelvo al sur








Damos de nós, o que mais falta nos faz.

(Fui pôr um tango a tocar porque precisava de sentir qualquer coisa forte a velar-me os sonhos)

Vagueamos nos sítios errantes e escutamos o que, provavelmente, nunca diríamos mas juramos que fazemos a mais positiva compreensão porque tendemos para o surrealismo e para ver cores onde elas não existem.

(Hoje preciso de qualquer coisa quente a arrastar-me os olhos para um sítio não habitado)

Sós, sós, sós, na noite e dia, e no entanto, o meu sorriso é a minha varanda sobre o mundo.

(Quase que fechei a porta para não ter afagos de consolação nem olhares de compaixão, se prometo alguma coisa, ao menos que me prometa a mim)

E que o meu olhar possa ser Tango, pelo menos, por hoje.
Foto de Salvador Sabater em Olhares.com

Ligar a luz: desligar o mundo












Ontem, um colega de trabalho contava-me que o filho mais novo iria ficar contente no final do dia. Ontem, quando milhões de conversas me passaram rente ao ouvido sem eu me dar conta. Há dias que acordamos surdos. Há dias que queremos permanecer mudos. Falo tão bem com a boca fechada. E tudo parece pouco importante quando abro as sílabas para respirar. Tenho uma necessidade, muito além do físico, de respirar. E, às vezes, não consigo dizê-lo. Recebi milhões de prendas ao longo destes dias. Todos os dias tinha uma prenda em cima da secretária sem cartão algum. Guardaram-me farófias no café do outro lado da rua. Fizeram uma colectânea de músicas para mim. É impossível não pensar na mensagem sub-reptícia por detrás de tudo isto. Vinho, música, um adorno de peito e milhões de chocolates. Pareceu-me tudo um exagero. Uma fuga. Um desnorte. Um tudo ou nada fora o contexto. E pouca gente sabe que nem gosto assim tanto de chocolate. Sou bera para dizer coisas. Ao final do dia voltei à história do filho mais novo do meu colega e p'la noite deu-me uma vontade incrível de sair e de o dizer. Eu também só quero uma daquelas extensões em que se ligam um porradão de luzes. E já agora quero luzir o ano todo.

Tenho tudo (dá-se ao desbarato)

Esqueço as horas. Porque dentro dos dias, tenho planos e não pontes que liguem sextas a sábados e muito menos domingos. Decidi acabar com os dias e com os simbolismos que os mesmos carregam. Para mim há só um ritmo dançante que atravessa os dias e mata as noites e me faz embandeirar em arco e perder o tino e dizer disparates. Gosto tanto dos meus dias ridículos e dos meus amigos sábios.

Tenho dias que me assolam. De ar. Noites que me cortam a respiração. Palavras que me cortam ao meio. Hoje li palavras alheias e sonhei que me apaixonava dum trago. E amanhã ou depois vou dançar.

Acho que nunca chorei tanto. De alegria pelos amigos que tenho. Pelos dias que tenho tido. Pelas noites que não tenho dormido. Por tudo o que consumi. Tenho amigos com teorias de morrer a rir. Tenho amigos que me fazem chorar ao telefone. Soluço ao ler coisas que me tocam, de gente que não conheço, senão pelo sorriso de duas ou três vezes em que as vi. Duas. De repente, tenho mundo. De novo, emoções à flor da pele.

Visito uma galeria/cafetaria que é um hino à beleza e visto-me como nunca para a visitar. Todos estes dias, tenho vestido coisas improváveis misturando tudo quanto gosto e dando colorido à alma solar que tenho. Estou feita hino. A transbordar.

Recebo de presente, uma boina castanha e dou, de presente, um chapéu xadrez que pontifica em duas tranças lindas de mel. Rute, cada dia, um dia de festa. Rita, cada dia, um dia de putedo. Paula, cada dia, um dia para oferecer doce depois do amargo. E a lista parece não acabar.

Passeio pela cidade que me viu nascer e as minhas pernas doem-me de tanto andar. Partilho a visão de um miradouro que conheci faz pouco tempo, juntando Crew Hassan à noite, Chá de Pipoca num Cacao com sorriso luminoso e quase vejo uma coruja chegar ao sítio mais improvável do mundo. Com o sol no olhar, tomo chá de inverno de frente para o Guincho, atalhando em Cascais e refaço todo um percurso de luzes à noite que me fazem sentir tão plenamente eu.

Falo ao telefone e choro. E oiço chorar. A minha alma é fina e meu corpo cheio de outros corpos. Conheço um montão de pessoas iluminadas. Que me dão espessura de alma e que facem cócegas no mais íntimo de mim. Hoje vou sorrir a dormir. E amanhã perverter todos os planos. Só sei viver assim. Que fim-de-semana comprido. O último coração do sonho. Tenho livros para emprestar. Tenho-me a mim para me dar.

Estava capaz de escrever que me dói mais a fome que a pornografia. Mais a solidão que a humilhação. Mais o tempo que o lugar. Mais a falta de coragem que a desventura.

Escrevo e leio de soslaio poesia a sério num blog recente e fico deliciada a sorrir na noite com palavras de gente maior que eu, em palavras. Gente que abusa de aliterações e que me faz entrar num estado verdadeiramente ébrio e frenético. Sulime e melancólico. Jazzy & cool but funky and lost, melancholic and sweet, hard espesso.
Tanta gente que me tocou hoje. Tanta gente que me atravessou. Que me dividiu e que me fez andar.

Vou andar nesta roda viva até me faltarem as forças. Vou-me apelidar de qualquer coisa que me saiba bem, em movimento. Por hoje, sou plural e tenho tudo.

I wish I was

Quando nos chamam para tomar o pequeno almoço no café do outro lado da estrada e gritam o nosso nome a plenos plumões porque sabem que o detestamos ouvir assim. Quando nos deixam um post-it na mesa dizendo que as iniciais do nosso nome dão para escrever a. r. i. r. , se invertermos uma delas. Quando nos levantam os limpa pára-brisas do nosso novo carro e nos informam via sms que estar viva é poder fazer coisas tão simples como baixar os limpa pára-brisas que uma pateta qualquer se lembrou de levantar. Quando nos escrevem num postal de natal que os nossos olhos, apesar de entristecidos a subir a escada, sabem a mar. Sabem amar.

Quando esticamos a vida para lá do limite do possível e do razoável para as nossas dores de alma. Quando trincamos fruta e sugamos o sumo para que ao menos tenhamos o proveito de que a fama nos incumbe: beber a vida dum trago e não conservar ao menos um gole para o dia seguinte. Por a uso tudo quanto temos. Não usar plásticos de segurança. Nem aventais por sobre. Cada dia, um dia de festa. Cada noite, um olhar diferente de amor. Adorar filmes e adorar a vida pelo lado menos encantado, ensaiado e fantasiado de que temos memória. Ter medo de morrer sem sentir o amor mais uma vez. Soletrar América latina na noite. Escutar a voz enrouquecida que dá corpo às músicas que ouvimos de noite. Não há calor suficiente que nos resgate das chamas onde nos consumimos. Não há diminuitivos ternos quanto baste para acreditarmos que tudo o que somos nos vai servir de alguma coisa algum dia.


Conheço o suficiente as coisas que não conheço. Conheço tão bem todas aquelas coisas de que desconheço pelo lado de dentro. Conheço a sensação de sentir que sentem compaixão por mim. Que reconhecem o ser que sou e as possibilidades que tenho. E a forma tão absolutamente certa e saudável e apaixonada como vivo os dias. E que sim: que faço bem em entregar a alma em quantidades variáveis. E que sim: que quem assim vive, sem medo do que há-de vir, arriscando por ruas e caminhos errantes, vai ter, tem de ter, um futuro à medida. À medida dos sonhos. À medida da entrega. À medida da ingenuidade. À medida da verdade. À medida da autenticidade. Porque amo os amigos e os que me querem bem, vou dizendo que sim, com o sorriso. Sabendo bem demais, que não. Nada disso é verdade. Nada disso me coloca num patamar de maior verdade ou de uma hipótese mais próxima do paraíso. O mais que tenho são sonhos por cumprir e músicas a mais na cabeça. Pelo meu lado, sou incapaz de os desdizer. De os desacreditar. De os desiludir. Os amigos são as lágrimas por cumprir.


Dizer as coisas

Queria ficar a saber para sempre. Se cada dia de luz vale por todas as noites escurecidas no silêncio de nós. Se cada adormecer numa cama de um quarto que não o nosso abre um buraco para a lua ou se é uma etapa a mais para o conhecimento que devemos ter da brevidade das coisas que nos foram felizes. Se devo chorar de felicidade porque me comovo com detalhes insignificantes, tecidos gastos, ruas sem saída e pessoas prestes a partir. Ou se devo construir uma arca, forrá-la a cores, por música dentro e ver desfilar tudo quanto passou por mim para que eu saiba a que sabe a intensidade. Mas queria sabê-lo já. Para poupar tempo. Para poupar espaço nas dores pelo corpo. Para arrumar a vida por temas. E para saber se sou miseravelmente pobre ou estupidamente dorida. É porque tenho de ter uma teoria. Uma religião. Um mapa. Uma luz qualquer que se enterneça pelo meu desnorte habitual. Pela minha falta de talento para dizer as coisas.

Ouvido do peito

Amanhã, cedo, quando fizer o meu percurso habitual hei-de me lembrar de escrever no futuro. De ver em frente. De sonhar além. De perverter o plano. No caminho habitual entre uma casa e a outra, sei que sou mais eu, porque, em trânsito. Em corrida. Caminhando. Indo. Podia fazer disso profissão e tenho a certeza de que ninguém dava conta. Passam-me a mão pelos ombros, afagam-me a cabeça e julgam-me lá. Daquele lado. Dizem coisas improváveis. Fazem gestos surpreendentes. Mas só para eles. Porque eu e eles não falamos a mesma linguagem mas isso não quer dizer que me surpreenda a frieza de apostarem a minha vida numa mesa de trabalho.Gostava de dar explicações no chão porque gostava da proximidade. E todos os objectos da casa têm outra dimensão quando vistos de baixo. O candeeiro feito globo-terrestre, os quadros com os soberanos de Portugal, a estante com todos os objectos trazidos das inúmeras viagens. Ao invés da solenidade, proximidade. Ao contrário da funcionalidade, familiaridade. Acho que tenho saudades desse tempo. Do cheiro das torradas e das casas quentes à minha espera. À minha espera. Quero meter essa sensação numa garrafa e atirá-la ao mar. Quero fotografá-la, prová-la e desfazê-la no momento seguinte para não perturbar a intensidade do momento. Procuro com os sentidos: a que sabe saber-nos queridos? A que sabe o sabor do bem-querer? Avanço com a língua, como faço para provar uma especiaria nova ou uma quantidade ínfima de ar de uma terra desconhecida. E a memória catapulta-me para terra novamente. Matinal vem de manteiga. Ficou-me essa frase no ouvido do peito e em dias mais frios, repito-a bem alto de manhã. Não sabem nem imaginam o que as coisas simples podem fazer por mim.

One day I'll get myself out in the sunshine... Then l'll get rid of the blues*

I'm gonna loop duplicate my heart into a million songs.*

* El perro del mar lyrics