
Não sei se o meu alfabeto inteiro está cumprido nas minhas palavras. Não acredito que alguém possa ser apenas a leitura do que escreve. Somos inúmeros no escuro de nós. Às vezes tenho a sensação que o que me colam à imagem é redutor em relação ao que sou ou que eu sou, na verdade, uma totalidade que não oferece virtude ou coragem. No mais, sou fuga, ainda que para a frente. Sempre achei que o comentário é, tantas e tantas vezes, um delito de opinião. Por isso gosto tanto de arte e gosto tanto de duvidar do provável e do possível. Nunca saberei fazer poesia. Nunca saberei estar dentro sem estar um bocadinho de fora para apreciar a vista e me sentir confortável. Porque quando ouvi a expressão "cidadão do mundo", compreendi, de imediato, porque é para mim tão importante ver um igual a meu lado. Só se pode amar quando se respeita a diferença e se reconhece o ser humano, tão humano demais. Só dando asas, se cumpre o firme aceitar de que quem quiser estar connosco, fá-lo-á por vontade própria e não por circuntâncias adversas ou porque os dados foram viciados. Não vale a pena viciar o jogo, porque se arrisca a verdade das coisas. Quando digo humanidade e a forma como gosto de tudo quanto representa essa característica no meu sentir, acho que não compreendem. Não se traduz para a linguagem dos não-humanos, o que é trazer a miséria nos olhos e a boca do povo cerrada nos dentes. Queria dizer, à boa maneira de ti, Rutz, nunca poderei ser infeliz estando só. E que isso não tem nada, mas mesmo nada que ver, com o facto de a minha alma ser comunitária e de gostar de tocar nas pessoas. Queria um sinónimo de calor que dissesse o bastante que a palavra transporta. Queria descobrir a fórmula química que compõe um riso verdadeiro e talvez isso me fizesse chegar à palavra verdade. Com verdade, chego à palavra lealdade e fica tudo dito quanto ao muito que me preenche ter amigos que me extrapolam no sentido vago que é ter asas. Porque a Ritz Ficz está. Está. Só isso. Tanto nisso. Quando acordo de manhã, sem jeito para decretar leis, sem disposição sobre o tratado de coisas que estão mal no mundo, quero o silêncio. Preciso de. Por isso os que me conhecem sabem que estão bem comigo quando fazem uma viagem de carro e não precisamos de dizer nada (Rutz). Por isso sabem que todo o sujeito tem o seu lado lunar e que o meu surge quando a lua, ironicamente, se põe. Adoro as manhãs solares. E todas as que nascem em neblina. Creio que noite alguma terá esse poder de me sentir fazer viva. Mas porque respeito e acredito no ritmo do que amanhece, vou devagar pela manhã até me sentir bem para falar. Como quando sabemos que respeitamos as pessoas a partir do momento em que percebemos que não escondem: são, não fingem: são, não fazem frete: são, não são sacanas, são gente que tem amigos e que sabe que amizade e família são como caminhar de olhos fechados, a guiar-nos quando tudo o mais parece desabar. Preciso do espaço que o meu pensamento ocupa, porque o meu corpo não reclama espaço quando mais dele precisa e quando toca My Funny Valentine, Chet Baker, e um copo de vinho... sei que venho à superfície. Sou torcida pelo lado de dentro. Porque conquistar o meu respeito pode levar um segundo ou mil vidas. Porque como os meus cães, como na taça enquanto metem a mão lá dentro e brincam que vão tirar metade da ração. Porque o que me é dado, com verdade, aceitarei sem duvidar. Tudo aquilo que constitui excepção a esta regra, não quero sequer pensar em aceitar. Não nascemos com mapas que indiquem a direcção do tesouro, mas talvez por isso acredite tanto que só faz sentido chegarem cá, se sentirem semelhança no trato e no caminhar. Tudo na vida requer adivinhação. E quem não gosta de ser adivinhado. Sou bera para andar atrás. Fazer o filme do admirador. Tanta gente que admiro e que não quero conhecer. Nunca me interessou desmontar os brinquedos para ver como funcionavam, a magia esteve sempre do lado de fora. Não quero saber o mistério do que me põe alegre. Mas quero passar no alegre e no triste, no contentamento e na decepção, para saber a que sabem e vir à tona sabendo quem sou. Nunca admirei ninguém que fizesse coisas no recato. Às escondidas. Vivo na claridade (E vivendo-a, faz sentido partilhá-la, com quem lhe apeteça também um pedaço de mar e poucas respostas na palma da mão).E isso é, desde sempre, uma questão de princípio e porque não ousar arriscar a dizer: raça. Que mal tem em afirmar que sou firme em gostar do que gosto e que tenho duas ou três preferências na vida feitas por escolha de coração, sem qualquer rasgo de razão. Serei dura na queda, à boa maneira de C.B.. Do meu pai herdo muito mais do que aquilo que imagino. Um jeito de ficar sem graça explicando a elegância e o decoro, um ficar a sós no meio da multidão, saindo no meio da festa, e o gostar de gostar de determinadas coisas, isto é, fazer algumas escolhas apenas tendo por base o instinto e a convicção. Comunico com o meu pai com o olhar. E com o riso. E não deixo de comunicar nos dias que, como a minha mãe diz, "estou para amar": o contrário de amar, bem entendido. Sou forte pelo lado de fora. Mas não deixo de precisar que precisem. Às vezes, só quero descansar e respirar o ar. Gosto das coisas que me fazem sentir bem e tudo o que escapa, quero que me escape. Não há nada que me garanta que não mude de cidade quanto me faltar o ar. Nem nada que justifique fugir quando ainda estou em chamas. Mas nunca, em circunstância alguma, justificar a pureza e a alegria que tenho na autenticidade do meu sentir. Sou e estou, sem notas à margem ou glossários extra.
1 comentário:
Às vezes penso que não és real...ou imagino que tens tudo o que dizes ou fazes, devidamente planeado e estruturado, e sabes porquê? Porque é difícil encontrar pessoas que nos ofuscam com a sua luminosidade, que nos lavam a alma.
Nunca pensei que uma miúda da tua idade pudesse ser tão crescida...isto há com cada coisa!
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