Colori os olhos de verde porque adoro o castanho realçado. Abri o peito e respirei o amor que tenho pelas coisas que existem e pelas pessoas que se deixam amar todos os dias. Pousei a mão numa fotografia antiga sabendo que a noite é longa e o escuro e o claro são duas faces da mesma vontade.
As pálpebras fecham-se e o verde propaga a sua energia cósmica: visto verde para energizar, retemperar, viver a vida num dia. Verde panca, verde seco de elegância, verde escuro, verde claro, verde indefinido a saltar para outras cores.
Quanta distância há na distância de tanta gente a dois passos de nós? Quanta diferença faz sentirmos que somos queridos e não haver nada, digo nada, que nos consuma o tempo e nos roube a essência da alma?
Quanto de mim, só areia de praia e mar a chegar aos pés?
O Rui
Vim aqui para escrever em quinta, na socapa, depressa, à laia do safanão nas letras que me estão na garganta e que também me dão abraços e me sufocam, as sacanas.
Venho aqui porque, de repente, me apeteceu dizer tudo. Sem abreviaturas, metáforas, eufemismos. Dizer tudo, dizendo nada porque sempre achamos uma forma de dar a volta ao texto por um conjunto de circunstâncias a que podia dar mil nomes.
Em 2004 deixei uma cidade. Que conheci em 1999. Num acaso improvável de um dia excessivamente quente. Deixei a cidade para trás. Deixei-a e não insisti porque tenho esta coisa de achar que as coisas se resolvem por si e que não posso carregar um peso demasiado pesado (passo o pleonasmo) para a pessoa com quem tenho de conviver todos os dias- eu - e porque sou incapaz de conviver com a probabilidade de as escolhas feitas por alguém de quem gosto terem sido, de alguma forma, propiciadas por mim.Por isso deixei a cidade, deixando outras coisas dentro dela, e um retrato de mim que não voltei a encontrar novamente. Desde então, erros atrás de erros, num ridículo-espetacularmente-absurdo, um circo móvel em que um eu amestrado vai rindo e saltando, soprando fogo, jogando bolas e sendo o palhaço-triste que ninguém vê no caminho para casa.
No meio do caminho, e porque o inesperado acontece e eu tenho a sorte cósmica dos típicos descrentes e dos fanáticos inabaláveis, no meio disto tudo, conheço gente, cruzo-me com Gente que faz a rota parecer fazer todo o sentido, sem a cidade que deixei para trás me ser tão rente.
O delicious-delight do meu amigo Quinta é um desses casos. De gente. Que me faz chorar sobre alguns textos que escreve e rir de cabeça para trás com a quantidade de ideias ridículas e idiotas que é capaz de proferir numa só frase porque é um iluminado. Pelo lado de dentro. Como aqueles ursos de peluche dos putos que se apertam na barriga e dão uma luz gira por debaixo do tecido. Mas tirando a parte do urso porque a ser um animal, o Rui seria, sei lá, um milhafre, uma gaivota ou qualquer coisa de semelhante. Tenho sorte por, no erro, ir acertando. Tenho sorte por te ter e falar de ti com o orgulho que me enche a boca sempre que o faço.
O Rui teve uma ideia genial. Descobriu depois, da pior maneira, que a ideia já andava no ar pela mão, cabeça do Alvim. O Alvim não tem uma parede de uma sala escrita pelos amigos (ou teve) com as dicas mais bárbaras e patéticas. O Alvim também não tem uma caixa com dias lá dentro numa voz de beijo. O Alvim não tem pancas de passar os dedos em tecidos finos nem comichões com coisas ridículas. Foda-se o Alvim, pá! Rui, que és nosso! Deli-delight
Venho aqui porque, de repente, me apeteceu dizer tudo. Sem abreviaturas, metáforas, eufemismos. Dizer tudo, dizendo nada porque sempre achamos uma forma de dar a volta ao texto por um conjunto de circunstâncias a que podia dar mil nomes.
Em 2004 deixei uma cidade. Que conheci em 1999. Num acaso improvável de um dia excessivamente quente. Deixei a cidade para trás. Deixei-a e não insisti porque tenho esta coisa de achar que as coisas se resolvem por si e que não posso carregar um peso demasiado pesado (passo o pleonasmo) para a pessoa com quem tenho de conviver todos os dias- eu - e porque sou incapaz de conviver com a probabilidade de as escolhas feitas por alguém de quem gosto terem sido, de alguma forma, propiciadas por mim.Por isso deixei a cidade, deixando outras coisas dentro dela, e um retrato de mim que não voltei a encontrar novamente. Desde então, erros atrás de erros, num ridículo-espetacularmente-absurdo, um circo móvel em que um eu amestrado vai rindo e saltando, soprando fogo, jogando bolas e sendo o palhaço-triste que ninguém vê no caminho para casa.
No meio do caminho, e porque o inesperado acontece e eu tenho a sorte cósmica dos típicos descrentes e dos fanáticos inabaláveis, no meio disto tudo, conheço gente, cruzo-me com Gente que faz a rota parecer fazer todo o sentido, sem a cidade que deixei para trás me ser tão rente.
O delicious-delight do meu amigo Quinta é um desses casos. De gente. Que me faz chorar sobre alguns textos que escreve e rir de cabeça para trás com a quantidade de ideias ridículas e idiotas que é capaz de proferir numa só frase porque é um iluminado. Pelo lado de dentro. Como aqueles ursos de peluche dos putos que se apertam na barriga e dão uma luz gira por debaixo do tecido. Mas tirando a parte do urso porque a ser um animal, o Rui seria, sei lá, um milhafre, uma gaivota ou qualquer coisa de semelhante. Tenho sorte por, no erro, ir acertando. Tenho sorte por te ter e falar de ti com o orgulho que me enche a boca sempre que o faço.
O Rui teve uma ideia genial. Descobriu depois, da pior maneira, que a ideia já andava no ar pela mão, cabeça do Alvim. O Alvim não tem uma parede de uma sala escrita pelos amigos (ou teve) com as dicas mais bárbaras e patéticas. O Alvim também não tem uma caixa com dias lá dentro numa voz de beijo. O Alvim não tem pancas de passar os dedos em tecidos finos nem comichões com coisas ridículas. Foda-se o Alvim, pá! Rui, que és nosso! Deli-delight
Luz.ir*
Registo
Ao entrar, enquanto tentava prestar atenção à conversa dela e aos trejeitos da francesa do outro lado do balcão, que fala com as sobrancelhas e com as tripas de fora ao redor dos olhos, algo numa mesa em viés lhe roubava a atenção. Um rosto diferente desse que apontou num Moleskine velho e riscado com variedades mil que elencavam as dez imagens de que gostaria de se lembrar, caso a vida lhe resgatasse o tino e a temperança lhe roubasse, um dia, o ar leve e fluido- como todas as roupas de casa que usa fora de portas.
- A que saberá na pele a rotina de um dia após o outro- as palavras premontório- tu em jeito de farol, vestido dos dias que passam?
Qualquer coisa nos gestos, no jeito de contar histórias com as mãos, enquanto fala, no desalinho de um cabelo que não é vertical por convicção, uma espécie de esparguete que entra no tacho e no calor se torce e retorce, uma ondulação que ainda assim não chega para um mar revolto. Nem liso, nem encaracolado- seu, figurativo- um traço mais no conjunto sempre distinto face aos demais.
O mesmo tom de pele. O mesmo ar de nuvens. Temperamental- sem que a superfície possa dizê-lo. Um mundo dentro do mundo- e ela perdida a adivinhar o - je ne sais quoi - que conquista, inebria, excita a curiosidade e repele toda e qualquer tentativa de um raciocínio simples, quanto mais o balbuciar de um simples:
"Sim, estou bem."
"Não. Nem por sombras me aguento."
Séraphine, Saravah, Éric- como dizer que a arte nos salva? Que a música nos resgata? Que a composição- a criação- nos inflama? E como ainda acrescentar que nos apetece descansar, seguros, certos, confiantes, esperançados- no leito dos amores à deriva, dos projectos frustrados, dos planos adiados, de um dia apenas a seguir ao outro?
Como ser um sonho e voltar a entrar por uma casa dentro- e do outro lado, após quilómetros de estrada- nos receber, em casa, um sorriso?
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