A-B-B-A


Ponto a ponto. Taco a taco. Passo a passo.
1-2-3-4
E uma história começa assim. Milhões de histórias que podem começar assim.
Registo:
A de alvenaria, das paredes que revestem o interior do meu deserto sentimental que é todo e tanto e pouco e farto. B de bélico, tendo em conta as vezes em que não parti para a guerra por cultivar a paz em território inimigo. C de conta - perdê-la, ao fim e ao cabo, das vezes em se viu passar fora do corpo junto ao Estuário desse rio de quatro letras, de flamingos altaneiros e barquinhos a fazer riscos no espelho da água. D de dança, pelas vezes em que elevarmo-nos do chão equivale a uma fina e delicada porção do que nos mantém em carne por dentro e vestidos pelas convenções, por fora, num bailado místico, próprio de quem se arrisca a ouvir, em final de noite: o abecedário é, nada mais nada menos, que um colar de cores- dores- sabores apertado e delicado justamente como esse colar que trazes ao peito.

question and answer*

He sat naked and drunk in a room of summer
night, running the blade of the knife
under his fingernails, smiling, thinking
of all the letters he had received
telling him that
the way he lived and wrote about
that--
it had kept them going when
all seemed
truly
hopeless.
putting the blade on the table, he
flicked it with a finger
and it whirled
in a flashing circle
under the light.
who the hell is going to save
me? he
thought.
as the knife stopped spinning
the answer came:
you're going to have to
save yourself.
still smiling,
a: he lit a
cigarette
b: he poured
another
drink
c: gave the blade
another
spin.

*The Last Night of the Earth Poems, Bukowski

Nomeei-te no meio dos meus sonhos *

"Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor"

*Ruy Belo

Entrar nas estações só para sentir o cheiro da dia e do improvável regresso. Sentir o bulício das vozes que se atrapalham e se enlaçam numa manhã quase profissional. Chamar-te no meio dos sonhos silvestres, com nomes de pacotilha e de bolso, ciente de quem te conhece há tantas vidas para lá da linha e sabe também do que te alimentas enquanto dormes. Sorver-te numa frase ou outra, daquelas que dizes, distraído de ti, como se a língua fosse um território flamejante pronto a ser devorado pelo lado do riso. Pelo lado das sombras. Na perspectiva clara e inequívoca da terra que te viu nascer. Caminhar, às cegas, no espaço que me resta até chegar a poente e, por fim, avistar o que me faz dormente e demente em terra de gente que se leva demasiado a sério. Inopinadamente, soltar o cabelo e jogá-lo ao vento numa tentativa sempre condenada ao fracasso, de iludir a identidade que faz de mim, Sansão no feminino. Agregar desventuras consoante a parte do pé que fica à mostra: quando nos descalçamos para ver: porque é que a areia tem esse efeito esfoliante das memórias desavindas. E errar, como se não houvesse forma mais lúcida e dolorida de contiuar a acreditar, como se a solidão não fosse já, um acto a duas mãos menos uma, como se não soubéssemos onde pára a nossa alegria de viver naqueles dias em que tudo seria mais perfeito se não fosse.

Entendida no assunto de desentender

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

C.Lispector

História cândida

Ela acordava de noite e jogava pétalas e arroz pelo ar porque a mãe lhe deixava quantidades inomináveis de arroz que dariam para alimentar dois terços da população do continente africano. Assim como assim, sempre dava para sonhar com arroz doce num fim-de-semana comprido em que lhe apetecesse tirar da manga: fruta ou doce? Num tratado intratável de subtilezas, um vizinho decide dar o repto para o ano novo que há-de vir daqui a alguns (muitos) hão-de vir. Quer isto dizer: lá mais para o Inverno, já que o mês de Maio ainda estava ao pino. Posto isto, e depois de afastar as hipóteses mais seguras, tinha um fogo de artíficio no quintal porque:
- Ó vizinha, para quem, como eu, não tem um terraço é muito difícil deixar de fumar, e logo, em casa!*
*Veridicamente falando

sem título 1

Entrou na luz solar de um calor espesso de Verão.
É plena noite como a noite sabe ser dentro do dia.
As vozes arrastam-se como se estivessem
incompreensivelmente à margem de qualquer coisa
que não se decifra nem depois de muito se olhar.
Como se fosse lúcida demais a sua sombra propagada.
Os olhos suspendem de quando em vez a aurora.
E em carne viva à espera de quem os tome
num vício danado, num gesto indolente,
- uma vida toda à espera
que as palavras sejam ruído apenas
na harmonia clara
da vontade que temos.

de Amesterdam

Registo:
Caminharei em volta dos meus passos em volta (como no livro) ouvindo o escurecer alvo de tudo quanto deixei para o futuro por ser matéria demasiado presente para ser vivida ao fresco. Ana de Amesterdam como na canção do Chico. Errando e desaprendendo todos os atalhos que nos fazem habituais nos hábitos e rotineiros nas rotinas e abusarmos dos pleonasmos como se não soubéssemos do que estamos a falar. E soltarei a voz para dizer versos em sépia, enlaçados na cintura, para reluzirem em quente. E depois pedirei a quem se cruzar comigo na rua para me ler, na brandura de um dia de semana, todos os equívocos e os erros que me fizeram rainha em terra de ninguém. E aí, sim, descansar desse mundo em que nos cruzamos com ninguém na espessa fumaça de um cigarro quase ardido.