chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor"
*Ruy Belo
Entrar nas estações só para sentir o cheiro da dia e do improvável regresso. Sentir o bulício das vozes que se atrapalham e se enlaçam numa manhã quase profissional. Chamar-te no meio dos sonhos silvestres, com nomes de pacotilha e de bolso, ciente de quem te conhece há tantas vidas para lá da linha e sabe também do que te alimentas enquanto dormes. Sorver-te numa frase ou outra, daquelas que dizes, distraído de ti, como se a língua fosse um território flamejante pronto a ser devorado pelo lado do riso. Pelo lado das sombras. Na perspectiva clara e inequívoca da terra que te viu nascer. Caminhar, às cegas, no espaço que me resta até chegar a poente e, por fim, avistar o que me faz dormente e demente em terra de gente que se leva demasiado a sério. Inopinadamente, soltar o cabelo e jogá-lo ao vento numa tentativa sempre condenada ao fracasso, de iludir a identidade que faz de mim, Sansão no feminino. Agregar desventuras consoante a parte do pé que fica à mostra: quando nos descalçamos para ver: porque é que a areia tem esse efeito esfoliante das memórias desavindas. E errar, como se não houvesse forma mais lúcida e dolorida de contiuar a acreditar, como se a solidão não fosse já, um acto a duas mãos menos uma, como se não soubéssemos onde pára a nossa alegria de viver naqueles dias em que tudo seria mais perfeito se não fosse.
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