(...)Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente (...)
(...)Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas — absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma (...)
(...)Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro, ~
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim (...)
(...) Meu coração tribunal,
meu coração mercado,
meu coração sala da Bolsa,
meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público,
hospedaria,
estalagem,
calabouço número qualquer coisa («Aqui estuvo el Manolo en visperas de ir al patíbulo»)
Meu coração clube,
sala,
plateia,
capacho,
guichet,
portaló,
Ponte,
cancela,
excursão,
marcha,
viagem,
leilão,
feira,
arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta,
bagagem,
satisfação,
entrega,
Meu coração a margem,
o limite,
a súmula,
o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.
Não há gestos de prazer pelo mundo que valham
A alegria estupenda de quem não tem outro modo de a exprimir
Que rolar-se pelo chão entre ervas e malmequeres
E misturar-se com terra até sujar o fato e o cabelo…
Não há versos que possam dar isto (...)
(...) Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro (...)
(...) Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver (...)
(...) Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali (...) Álvaro de Campos, Excertos de "Passagem das Horas"
