Tenho verdadeiro talento para visitar cidades quando elas estão em festa por um qualquer motivo. Foi assim em B., assim em C., assim em B. novamente, e podia continuar o abecedário que rima com dromedário e luminário e assim continuava numa de fazer rimar palavras sem coincidência nenhuma que as salve.
Acho que durante o sono se produz qualquer mecanismo muito estranho na minha cabeça de vento e eu consigo oscilar, com uma perna às costas, entre o desalento e a pura inocência de acreditar que está tudo para chegar, qual veleiro branco num porto de brisa de mar.
Admiro as pessoas que escrevem depois de jantar ou à beirinha das 7/8/9 horas da noite. Procuro entender o que é isso de escrita-no-meio-da-vida-mundana como uma parte a mais do corpo: eu sei lá, um braço, uma perna, uma orelha ou mesmo a epiglote, lá em cima, a badalar.
Procuro vê-las, na bancada da mesa da cozinha, com a cabeça apoiada no braço esquerdo e com uma maçã verde ao lado. Recostados no sofá, sentados com as pernas dispostas como num jogo do Mikado. No chão, em cima de almofadas com o corpo destratado, engelhado, ou ao comprido, numa pose de "Aqui cheguei. Aqui me têm". Vestidas das cores dos pijamas que ainda não são bem de Verão mas que já não se compadecem com os tecidos mascavados de Inverno. Daqui a uns dias, haverá sol à hora em que escrevem e suspeito que as virtudes de um chá fresco de menta ao fim da tarde ou um martini rosso a assobiar à noite farão as delícias das palavras no desktop.
Adoro quando, no meio de um post inacabado, alguém me telefona e eu tagarelo sem demoras. Combino o programa das festas, comento sem acertar o evento que está a ter lugar junto ao Tejo, atiro duas ou três frases des(feitas) para o ar e sigo, fina e dócil, para acabar de reescrever um Sábado de pé descalço.
Ela sabe que já soube (de)mais,
ela sabe se entreter com o que foi será
ela julga sempre saber a diferença
entre o Saab e os que lhes roubam os ais
Quando conversa, desmembrada,
sobre os amados clássicos
jura que sabe destilar todo o prazer,
de quem desliza de carris por debaixo deles,
só para descobrir o que os pára,
o que os faz assim sofrer.
Ela é assim,
gosta de mecânica,
e até entoa uma ou outra quadra satânica,
o que ela não faz para sugar uma rima aqui, outra acolá,
esgrimir homógrafas, eu sei lá
ela até diz que aprecia botânica,
ela até promete ter um quintalzinho,
para ver sambar carmim com jasmim,
finório com osório,
super-frutas com narco-birutas,
tudo, tudo, para que no fim,
há um belo final (zinho).
Sem comentários:
Enviar um comentário