Como Penélope, gosto de desfiar novelos pela noite na minha própria música: que é como quem diz: no meu ritmo.
O meu avô materno. Vamos chamá-lo, por causalidade e coincidentemente: José. Nasceu algures no norte do país onde, pequeno, conheceu aquela que viria a ser a sua mulher: a minha avó, cujo nome dá para escrever num castelo ou para erguer um mesmo castelo, ainda que de claras. Suave, suave, como só esse nome e que também começa por A, como o meu.
Herdei o nome do meu avô e não o da minha avó, como é da praxe. Não gosto muito da ideia porque acho que devo ter tudo a que tenho direito (risos), mas compreendo que juntar o sobrenome da minha avó a todos os outros dava (muito) peso à coisa. Peso e R's.
Adiante: A minha família espalhou-se pelo Brasil e muito pela Madeira também. Acho que já ouvi o meu sobrenome até cantado. E um dia, quem sabe meto pernas à estrada.
Conta a história que o meu avô, amante da palavra prazer, perdeu toda a fortuna de uma vez só, para dar um ar romântico à coisa. Pouco romântica foi a coisa, e nada na história envolve traição ou outras pessoas, segundo ouvi dizer. Prazeres: viver com tudo dentro. A minha avô: eminente, segura, preponderante e arrediça, mantendo sempre aquele ar sagrado e solene que a caracterizou toda a vida. Mais fria e menos tolerante que o meu avô, que adorava ver-me comer com as mãos.
Aprendi a gostar dela porque me foi impossível não gostar e tenho alguma pena por não lhe ter perguntado mais sobre o meu avô. Não podia. Não quis. Não poderia.
Acho que ela começou a viver a partir do momento em que ele morreu. E a ficar mais leve e ao mesmo tempo irónica e espirituosa (esta é a parte onde entra o Vinho do Porto que dá uma valente ajuda à coisa) na nossa presença. E eu sei. Eu sei.
Tenho um pouco dos dois dentro. Loucura: como acabou por morrer o meu avô. Serenidade: como morreu, por fim, a minha avó.
E hoje tenho o melhor do melhor de tudo:estórias sobre estórias para contar. Vividas. Sem nunca as contar inteiramente a quem se abeirou de mim dado ficarem num compartimento apenas acessível pela descida de escadas em caracol e porque gosto de as ir compondo e revendo, baralhando e dando, sorteando e imaginando, como num puzzle em que sobram sempre peças.
Somos um prato cheio e lá dentro estão as minhas mãos. Como sempre gostei de fazer.
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