Ligar a luz: desligar o mundo












Ontem, um colega de trabalho contava-me que o filho mais novo iria ficar contente no final do dia. Ontem, quando milhões de conversas me passaram rente ao ouvido sem eu me dar conta. Há dias que acordamos surdos. Há dias que queremos permanecer mudos. Falo tão bem com a boca fechada. E tudo parece pouco importante quando abro as sílabas para respirar. Tenho uma necessidade, muito além do físico, de respirar. E, às vezes, não consigo dizê-lo. Recebi milhões de prendas ao longo destes dias. Todos os dias tinha uma prenda em cima da secretária sem cartão algum. Guardaram-me farófias no café do outro lado da rua. Fizeram uma colectânea de músicas para mim. É impossível não pensar na mensagem sub-reptícia por detrás de tudo isto. Vinho, música, um adorno de peito e milhões de chocolates. Pareceu-me tudo um exagero. Uma fuga. Um desnorte. Um tudo ou nada fora o contexto. E pouca gente sabe que nem gosto assim tanto de chocolate. Sou bera para dizer coisas. Ao final do dia voltei à história do filho mais novo do meu colega e p'la noite deu-me uma vontade incrível de sair e de o dizer. Eu também só quero uma daquelas extensões em que se ligam um porradão de luzes. E já agora quero luzir o ano todo.

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