Eu, em branco

De vez em quando, alguém diz algo verdadeiramente básico ou banal e eu escuto. De quando em vez, os meus ouvidos escutam algo simples que se tende a repetir, vezes sem conta, na minha cabeça até adormecer. Costumo dizer que tenho amigos que têm teorias. Amigos que tiram da cartola do nada, coisas tão assustadoramente banais que me deixam de boca no chão.
De repente, uma frase meio sussurada, como se de inútil se tratasse que resolve o meu mundo de dúvidas e inquietações mil. Gosto de ouvir os meus amigos. E de olhar para eles quando eles misturam o quotidiano com o surpreendente e nem se apercebem. Acho que, muitas vezes, não fazem ideia do tanto que dizem. Do quanto me tingem. Do muito que me sopram ao ouvido.
Gosto de entrecortar o trivial com o frágil. O quotidiano com o filosófico. A certeza com o pueril. A basófia e a trivialidade com a humanidade e a verdade. E é sempre nos intervalos entre estes mosaicos que se dá o óbvio: no meio da mais acesa discussão sobre quanto o F.C. Porto polui o imaginário do futebol português enquanto exemplo máximo da corrupção e da influência, surge uma tirada genial sobre a vida a dois ou o sentido da própria vida. E tudo isto dito, como a coisa mais ligeira e fluida de sempre, como se se tratasse de encomendar ameijôas na loja da esquina.
E eu assisto, divertida e chocada, ao imaginário feliz dos que me acompanham. Como, no domingo (em todos os domingos sem data), Ritz...
Gosto de mandar postais. Com o veludo dos amigos. E parece que não sei dizer outra, nestes últimos tempos, senão: amigos. Mas recebo um telefonema como o de segunda-feira e sei que, embora descontando a correcção e a educação, fui-me feliz. Por ser eu. E por acreditar repetir, no mais íntimo de mim: "possuo para sempre tudo o que perdi. recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: apaga as estrelas...", à boa maneira de A..
Tenho um vinho floral. Ou será, frutado? Furtado? (risos)
E toda a incerteza que me sabe bem nos lábios.
Os relógios desligados até mais não-ver.
As palavras desacertadas porque o melhor, de mim, vem em silêncio.
O coração novo, a cabeça leve e as pernas a andar...
Amanhã vai amanhecer exactamente igual.

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