Ouvido do peito

Amanhã, cedo, quando fizer o meu percurso habitual hei-de me lembrar de escrever no futuro. De ver em frente. De sonhar além. De perverter o plano. No caminho habitual entre uma casa e a outra, sei que sou mais eu, porque, em trânsito. Em corrida. Caminhando. Indo. Podia fazer disso profissão e tenho a certeza de que ninguém dava conta. Passam-me a mão pelos ombros, afagam-me a cabeça e julgam-me lá. Daquele lado. Dizem coisas improváveis. Fazem gestos surpreendentes. Mas só para eles. Porque eu e eles não falamos a mesma linguagem mas isso não quer dizer que me surpreenda a frieza de apostarem a minha vida numa mesa de trabalho.Gostava de dar explicações no chão porque gostava da proximidade. E todos os objectos da casa têm outra dimensão quando vistos de baixo. O candeeiro feito globo-terrestre, os quadros com os soberanos de Portugal, a estante com todos os objectos trazidos das inúmeras viagens. Ao invés da solenidade, proximidade. Ao contrário da funcionalidade, familiaridade. Acho que tenho saudades desse tempo. Do cheiro das torradas e das casas quentes à minha espera. À minha espera. Quero meter essa sensação numa garrafa e atirá-la ao mar. Quero fotografá-la, prová-la e desfazê-la no momento seguinte para não perturbar a intensidade do momento. Procuro com os sentidos: a que sabe saber-nos queridos? A que sabe o sabor do bem-querer? Avanço com a língua, como faço para provar uma especiaria nova ou uma quantidade ínfima de ar de uma terra desconhecida. E a memória catapulta-me para terra novamente. Matinal vem de manteiga. Ficou-me essa frase no ouvido do peito e em dias mais frios, repito-a bem alto de manhã. Não sabem nem imaginam o que as coisas simples podem fazer por mim.

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