Se pudesse escolher uma estrutura. Uma forma. Um modo líquido de ser. Escolhia, talvez, ser espuma. Espuma dos dias: espuma do galão que bebo para aquecer as mãos em dias não, espuma dos sais de banho que se dissolvem à espera de um corpo mais, espuma da maré arrastada até ao meus pés nos dias em que procuro a lua no espelho que a devolve ao mar. Espuma porque facilmente se dissolve e passa a outro estado, sem pedir licença, apenas pelo jeito natural de ser.
Sempre achei piada ao verbo dissolver. Talvez por isso me entusiasmasse fazer experiências com matérias dissolventes, açucar incluído. O tempo que leva o tempo a dissolver as coisas é um enigma tramado. Mais ou menos o mesmo tempo que imagino quando deito uma daquelas bolas de cristal ao contrário, para ver as bolas (na maior parte das vezes, neve) a reassumirem um espaço próprio.
A imagem da reconstrução depois da construção é qualquer coisa de sublime. Pegar nos cacos e reconstruir a vida. Pegar nos remendos e costurar os afectos. Secar as lágrimas e semear esperança.
Quantas vezes já tentei restaurar o rosto na tentativa de restaurar também o sentir original?
Há uma certa dignidade em acreditar, creio. No que fui. No que sou. No que poderei ser. Ou (me) dissolver.
Amor, amor.
Sem comentários:
Enviar um comentário