Trago milhões de frésias no vestido. E o vestido enrolado até ao pescoço. E uma vertigem que me pesa na cabeça feito sombra. O corpo parece quebrar. Arrastado através da areia e as ondas lá atrás esmagam os restos de verde que há pouco povoavam todo o espaço que já foi meu.
(Esta noite não quero vírgulas a separar as ideias porque preciso de espaço na cama para dormir).
Todas as coisas minhas (que não eram minhas porque nunca as possuí, apenas as provei ) fi-las seguir num envelope com um atilho em seda. Já não me lembro da cor e do que escrevi no verso. Tão pouco do que é isso de ter a cabeça vazia e o corpo em chill out.
(Sair deste corpo para fora, emigrar para outra alma e agir como um funcionário público no dever da profissão: a legislação prevê a extinção da sua cabeça de pássaro no prazo de 5 dias úteis, a contar da data da publicação da sua última heresia.)
Júdice diz, num poema, qualquer coisa como "o que é sucessivo, perde-se". Quando é que eu me perdi de mim? Nas vezes em que apanhei o autocarro no meio da noite para regressar a Lisboa antes do amanhecer? Ou em todas em que fugi para o centro da dor em busca de algum conforto que não sei se alguma vez pode suceder?
Pego na tristeza do dia de hoje que não pode ser mais triste que dia algum e no caminho que faço para a cama tento lembrar-me deste texto:
"E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que o façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos, acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz oiço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu ... para sempre. ...”
Texto de MST
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