A vida toca-me.





... Quando saí de casa, sozinha pelas mãos, não me dei conta. Da noite menos fria que o habitual. Da primeira vez que conduzi sozinha, à noite, para ver as luzes das inúmeras figuras que se arrastam à frente da minha vista. Quando abandonei o quente da cama de onde não me apetecia sair para lugar algum, lembrei-me do sabor da frescura na cara. Quantas vezes me deixei ficar em quente e desperdicei o fresco? Quantas vezes procurei o consolo agreste que o frio me dá? Tudo isto sem saber que ia acontecer a vida.

Acontece-me a vida e fico de rastos. Acontece-me a vida e inebrio-me de felicidade.

(Qual o doce sabor do equilíbrio?)

Como pode um filme ter tudo? Como pode um filme lavar-nos a alma de uma ponta à outra? Como posso estar lá, no acidente, na viagem de táxi final, na dança da cama, na dança da sala, no olhar sobre as quatro crianças que dormem, no barco pelo oceano, na relação entre irmãos, na linguagem simples da gente simples e na intelectualidade e no sonho de quem não quer ser normal? Como pode um filme ter tudo? Como pude ser tão líquida em tantos instantes repetidos? Porque é que sou tão frágil como a vida?

(Se eu chorar, confia que vivo)
Quero fazer uma viagem de táxi daquelas, pelo menos, uma vez por dia. Para não desaprender a vida. Vi-me lá em todas as cenas. Não é inocente o facto dele sofrer do coração, acho. Não sofremos todos? E quando ele diz que gosta de olhar as pessoas, nas suas vidas e reinventar enredos, teias de relações que se aproximam e cruzam, e a si mesma se espelham... como passar ao lado?

Durante todo este tempo, inúmeras pessoas me disseram aérea, sem consciência da situação traumática por que passei. Referiram-se ao tema, aliás, como efeito normal do mesmo trauma: os primeiros dias são sempre assim: caminhar nas nuvens: só depois a realidade se instala. Não percebi na altura e não percebo hoje. Hoje, hoje, hoje, hoje, hoje ... Meu Deus ... bebo cada segundo de vida com um sorriso nos lábios. Se me lembro, Meu Deus, se me lembro: amo a vida.

(Amo-a. )
A vida toca-me,
violenta-me,
chora-me
e faz-me chorar,
faz-me rir e soltar os lábios.

A vida promete-me e eu sinto-me prometida. A vida faz-me sentir perdida. A vida faz-me olhar para o céu pelo limite de uma janela de táxi. A vida faz-me amar. A vida faz-me bem e melhor a cada instante.

Não queria morrer. Como hoje não quero. Só se tem consciência do que vale um minuto de felicidade quando a vemos escapar sem saber como. E hoje, depois de todos os dias que se seguiram, fiquei a admirar a vida comigo lá dentro. E não tenho lágrimas suficientes para a canção triste deste filme: que é a minha e daí a dificuldade. Porque somos sempre mais pequenos do que imaginamos no nosso vogar de ave. E eu e a minha alma estamos, de repente, de frente, sentadas, uma para a outra, a contemplar o vazio da imagem reflectida.

Estou nua, sinto-me nua, porque a minha alma passou no cinema e a exposição tem demasiada luz para uma escuridão que quero negra. Faz-me lembrar aquele trecho da canção que diz assim: " e quando à minha casa fores dar, vem devagar e apaga-me a luz, que a luz dessa outra ribalta, às vezes não me seduz, às vezes não me faz falta, às vezes não me seduz..."

Quero a vida assim. Para doer menos. Ainda que me doa mais.

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