Homenagem solar pessoal, feita pessoalmente

" Enquanto o sol desce em direcção ao ocaso, o reflexo branco e incandescente vai-se tingindo de ouro e de cobre. E, para onde quer que o senhor Palomar se desloque, é sempe ele o vértice daquele triângulo douado; a espada segue-o, apontando-o como um ponteiro do relógio que tem por centro o sol.
É uma homenagem pessoal que o sol me faz a mim pessoalmente, sente-se tentado a pensar o senhor Palomar, ou antes, o eu egocêntrico e megalómano que nele habita. Mas o eu depressivo, ou masoquista, que coexiste com o outro no mesm invólucro, objecta: Todos aqules que têm olhos podem ver este reflexo que os segue; a ilusão dos sentidos e da mente mantém-nos sempre a todos prisioneiros. Intervém então um terceiro inquilino, um eu mais imparcial: De qualquer modo, quer dizer que eu pertenço ao grupo dos sujeitos sensíveis e pensantes, capazes de estabelecerem uma relação com os raios solares e de interpretarem e avaliarem as percepções e as ilusões."

De : Italo Calvino, Palomar.

Sem comentários: