Em letra pequena

gosto de saber que sou uma pessoa simples. para depois aceitar melhor a vocação que sei ter para complicar o inconfessável. e gosto especialmente de escrever utilizando letras não capitulares. porque não só me percebo melhor. como tudo tem uma pausa certa. a seguir a uma curva uma recta em que se avança sem pensar. gosto de gente que escreve. e de escrever letras para músicas. porque o surreal me chama sussurando. e a vida quotidiana se espraia comigo enquanto bebo uma limonada ao sol. fui a coimbra ver um concerto que só aconteceu no dia seguinte. o que não é trágico talvez cómico porque sei um infindável rol de letras de músicas de bolso para cantar no asfalto. as obscuras e as alvas. as frenéticas e as que se arrastam para lá do limite razoável do timbre da minha voz. as de letra papa-pronta-a-misturar e as desenhadas qual renda de liga que algumas mulheres gostam de envergar debaixo das saias. as que alguém levou numa cápsula de um tempo remoto e todas aquelas que não conhecem a aspereza característica do pó dos anos. não me sai da cabeça a imagem da neblina por cima da cidade vista da varanda do local do concerto. fez-me lembrar sintra e d. sebastião (hoje não escrevo capitulares) e o que eu disse um dia sobre isso de se morrer em sintra e ser perfeito. e tudo quanto espero de um dia de nevoeiro. sebastião de todos os nomes.
às vezes (também à noite) espero prolongar-me por todos os minutos em que não resta música alguma. e deixar escrito. o insondável dos pensamentos das tardes de neblina. ou por outra. quem não gosta de ser adivinhado.

1 comentário:

Anónimo disse...

mas só às vezes!
AVAN