Dormir sobre este poema

A direcção do sangue


Quando se viaja sozinho

pelas imagens que perduram

as evocações ganham um modo tão real

A mancha ténue dos arbustos

indica o caminho para o regresso

que nunca há

o mar ficou de repente perto

sobre esta praia travámos lutas

para as quais só muito depois

encontramos um motivo

era à pedrada que nos defendíamos

do riso mais inocente

ou de um amor

Mas aquilo que nunca esquecemos

deixa de pertencer-nos e nem notamos

Estamos sós com a noite

para salvar um coração





José Tolentino de Mendonça

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