Sou assim com as palavras. Porque as ofereço. Porque quero sempre fazer por merecê-las. Porque gosto de recebê-las, ainda que seja por uma mera questão de educação. Alguns dos grandes presentes da minha vida foram palavras ditas ou escritas de que guardo memória. Bem sei que as gastamos. Que abusamos delas. Que perdem, tão rápido, a validade, a legitimidade, a verdade. Ou como diria uma colega de trabalho, desconfio que quem repete incessantemente que alcançou a verdade e aprendo a respeitar quem não se cansa de a procurar, mesmo sem saber se isso é um destino útil, utópico ou mesmo salutar.
Guardo muito pouco aquilo que escrevo. O que não quer dizer que não goste de ler, passado algum tempo, coisas que escrevi, que ofereci e de que já não guardo memória. É bom sentir no momento, o que o momento me fez escrever, passado esse e outros momentos. Gosto de pensar que me guardo a mim. Que serei sempre "unsaved". E que isso me dá um prazer danado. Que não tenho back-up dos momentos felizes, porque os vivi na altura em que eles aconteceram e nada os substitui: nem as fotos (de que tanto gosto), nem a escrita, nem nenhuma outra coisa. Tenho a vida em memória e essa só pode ser sempre a melhor recordação.
Ontem recebi, de volta, o meu telemóvel que julgava perdido no acidente. De uma forma tão mas tão pura e humana, que quase chorei. Atrapalhada, expliquei que sou avessa a novas tecnologias, que aquele telemóvel (que nem sei a que geração pertence e do qual desconheço todas as funcionalidades) foi-me dado no trabalho, quando deixei de ter telemóvel. Andei tempos imemoriais com um telemóvel todo feito em fanicos, com truques especiais para o conseguir ligar e desligar. Ando, desde o acidente, com um telemóvel absolutamente básico, o mais barato que havia, aliás, apenas quis que tivesse despertador: única função que, de facto, faz para mim a diferença. Expliquei que me estou literalmente a borrifar para o aparelho porque não gosto de telemóveis, nem tão pouco valorizo tudo quanto podem oferecer. Pouco tinha, em termos de dados, nesse telemóvel que me fizesse falta, profissionalmente.
Mas ao entregarem-me aquele telemóvel, com aquele sorriso na cara, devolveram-me parte da minha vida, apesar de eu saber que se há registo escrito dessa vida no mesmo telemóvel é porque eu a vivi, e tendo-a vivido, não há lugar a devolução de coisa nenhuma, porque tudo me pertencerá eternamente.
Mas, bolas, ler o que escrevi, emociona-me. Muito. Primeiro pelo que disse na noite do acidente. Depois por tudo o que escrevi antes. E o que me escreveram. Desde 2001. Tudo o que anotei. Os pensamentos no metro. As viagens interiores. O cruzar de perna que não me escapou. A frase mágica dita acolá. Um pormenor qualquer do quotidiano a caminhar nas nuvens. Tudo o que me fez levantar de manhã. Ou o que me chamou a atenção. Eu sei lá. Coisas de que não me lembrava. Coisas que me lembrava bem demais. Coisas. Tantas. Tanto de mim.
Escreverem-me. Escreverem para mim. Fico feliz com estas insignificâncias que não lembram a ninguém e fico líquida num instante.
Percebo instintivamente quando não escrevem. Porque não se emocionam da mesma maneira. Porque se toca sem saber que se toca, sem querer tocar. Porque se escreve, às escuras e se anda assim uma vida inteira. Porque serei sempre ingenuamente estúpida para perceber que parte do que digo é que toca. Quando sei, exactamente, o que me toca nos textos dos outros.
Sei ver que há gente que traz uma multidão atrás porque é grande. E lhe reconhecem mais do que qualquer outra coisa, a humanidade. Foi isso que, instintivamente, me tocou.
Amo as pessoas porque me apaixono por esse detalhe. Gigantesco. E quando olho para trás, vejo gente verdadeiramente humana a quem me dei. E fico feliz por isso. Por olhar para trás e sorrir. Me e os.
Esta semana pensei em ir embora. Porque não sei fazer outra coisa senão ir. E não sei se saberei alguma vez sair desta pele. Demasiado humana, até. Demasiado o que eu procuro nos outros. Sou alegre porque digo viver e isso rima com prazer e isso faz-me sentir bem por dentro. Mas sou triste até ao fundo, porque nas camadas do meu sentir, a indiferença choca-me. Machuca-me. Faz-me chorar. E há dias em que fico apenas triste porque alguém me faz sentir mais uma pessoa. Mesmo sabendo que tantas outras pessoas, com igual ou maior potencial de vida, o rodeiam. E dele mesmo se bastar.
Quero uma vida para tocar. E tocar em gente. Que se sinta tocada por mim. Porque sou eu.
Todas as conversas são, para mim, privadas (abusando de uma frase que não é minha). E privado é o que sinto. E não posso transportar isso para outrém. Fingir que susbstituo. Emocionar-me como que não me emociona.
Não escrevo mensagens iguais, nem repito o que quero dizer a mais do que uma pessoa. Não há pessoas iguais, nem escritas paralelas. Sinto-me. (Sentir tudo, de todas as maneiras...) E não me sinto em pecado por sentir. Arrepio-me porque me arrepio: sem bem explicar o motivo que subjaz. E emociono-me porque verdadeiramente me tocam.
1 comentário:
Que bonita que és, anjo.
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