Prosa petiscada

Colecciono gente. Como outros coleccionam moedas, selos, lápis de cor ou lágrimas na boca.
Colecciono gente de passadeira vermelha. Gente que não precisa de se fazer anunciar. Gente contente. Gente contundente. Gente quente.
Gente e (a)gentes infiltrados de açucar e com espessura de carácter. Gente vertical, mesmo a dormir. Gente em que me espraio num par de horas apreciando o sol e a falta dele.
Gente demente que caminha pelo meu corredor, às escuras. E gente que pressente para lá das amarguras. De espírito e de boca.
Gente nirvana que se eleva com a velocidade da tristeza. E gente inflamada e que atravessa, periclitante, o tom grave da minha voz.
Gente-frutos-do-bosque: alma de mirtilo - corpo silvestre.
Gente com Mecas amovíveis, rebatíveis, impossíveis.
Salivo ao pensar nesta gente. Seria capaz de os trincar, bago a bago, roubar-lhes a casca, tirar-lhes a pele, apurando o tempero.
Ou então soprar-lhes. Como fazem os artesãos gourmet da Marinha Grande com as espigas de cristal.
Meto-os, finalmente, no tacho e salto dentro. Porque os meus amigos são, como direi,

... um petisco!

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