Às vezes acho que ninguém vive assim. Ninguém chega a casa e se embebeda com Ramos Rosa. Nem se apaixona de textos. Ninguém tem tempo para ganhar tempo com quem não se conhece bem. E, mesmo num dia em que tudo corre bem porque nos salvam com um almoço e ganhamos umas pantufas às riscas e um Winnie the Poo terno para o pequeno R., não deixo de sair do corpo e me ver da plateia. Caminho em múltiplos passos, pensando em como me entusiasmo demais com as coisas. Talvez elas não sejam para viver desta forma. Talvez haja uma medida para todas as coisas. Talvez eu veja coisas onde elas não existem. Talvez não haja assim tanto tempo e vontade de nos conhecerem por dentro. Porque, a verdade, é que vivemos em compartimentos fechados. E trocamos simpatias. Cortesias. E nada mais do que isso. Talvez fosse bom não descarrilar assim. Há dias que não tenho chão. Apesar do sorriso que me veste. E noites em que apetece pegar no carro e ir. Sou um excesso em tudo. Até no tudo. Sobre (tudo).
Hoje explicava uma das coisas que introduzi num post recente a uma amiga. Contei-lhe que, num determinado momento profissional, foi necessário pensar numa oferta a dar, numa visita a Portugal de uma pessoa suave de veludo. Nada mais, nada menos que uma rainha de um país europeu. Em jeito de curiosidade mas também porque me interessava a opinião daquela pessoa, perguntei o que seria adequado oferecer. Ela confidenciou-me que, quando a conheceu, ofereceu-lhe simples espigas de cristal. Com um pormenor magistral: obtidas através de uma técnica de sopro. E a pura descrição e todo o cenário que refiz na minha cabeça, a propósito deste episódio único, fez-me vê-la, a pessoa a quem perguntei (pensando que a conhecia) sem filtros. A delicadeza e o detalhe são tudo. Quem me dera soprar espigas pela vida e ter esta profundidade e esta claridade de pensamento e de chão. "Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar"
Excerto de poema de António Ramos Rosa, "O teu rosto", 1994
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