Ontem passei por lá, para mostrar uma coisa que escrevi a propósito dos The National. Revíamos o concerto no SBSR e a minha aparição no iutubi e tudo quanto nasceu, em conversas, e-mails, mensagens, expressões de rosto, mãos como faces escondidas mas com tudo à mostra, pequenas cerejas de que se perdeu a conta, como naturalmente acontece a quem muito tem para dizer.
Muito tinha a dizer-te. Mas os dias são claros e as noites mais claras ainda. E nem sempre estou com a claridade na língua e a língua e os olhos se coordenam de modo a produzirem um discurso intelegível e suficientemente perto de toda a verdade e força que as palavras deveriam carregar.
Estou fluorescente até ao osso. É isso.
Burning people
"The only people for me are the the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploiding like spiders across the stars."
Jack Kerouac
Jack Kerouac
Do caos e da claridade
Há dias de plena revolução na nossa superfície. Dias de informação a entrar p'la nossa cabeça num corredor de fogo e de repente já não ouvimos as vozes e tudo é uma ventania. Não gosto muito de vento porque me aturde os pensamentos, me ofusca os sons, me impede de abrir os olhos na medida de que gosto, me faz brotar lágrimas de passagem.
Trabalhar gostando é gigantesco. Infinito. Poderoso. Ganhamos dias em noites não pagas. Perdemos anos de vida em horários certos no pólo oposto. E não se trata de ser demasiado passional. Por motivos demasiado próximos, não me apetece falar claro. Antes dar piruetas com as palavras, atirar bolas ao ar e lançar setas na brancura da tranquilidade a que desço se fechar as portas, desligar o mundo e trazer-me por casa, junto das polaroids da casa de Arroios, da intensidade de um livro que se chama "Vigílias", da preciosidade que é conhecerem-nos bem e deixarem-nos a sós quando nos olham de relance e. E. E.
Vou mudar-me, fazer outra coisa profissionalmente falando, pisar nuvens ao desbarato. A força de um torpedo alavanca-me para sentir arrepios com determinadas sequências de palavras. A claridade dos sonhos eleva-me para a tranquilidade-mor que faz de mim uma terra onde às vezes corre vento.
Trabalhar gostando é gigantesco. Infinito. Poderoso. Ganhamos dias em noites não pagas. Perdemos anos de vida em horários certos no pólo oposto. E não se trata de ser demasiado passional. Por motivos demasiado próximos, não me apetece falar claro. Antes dar piruetas com as palavras, atirar bolas ao ar e lançar setas na brancura da tranquilidade a que desço se fechar as portas, desligar o mundo e trazer-me por casa, junto das polaroids da casa de Arroios, da intensidade de um livro que se chama "Vigílias", da preciosidade que é conhecerem-nos bem e deixarem-nos a sós quando nos olham de relance e. E. E.
Vou mudar-me, fazer outra coisa profissionalmente falando, pisar nuvens ao desbarato. A força de um torpedo alavanca-me para sentir arrepios com determinadas sequências de palavras. A claridade dos sonhos eleva-me para a tranquilidade-mor que faz de mim uma terra onde às vezes corre vento.
Cidade do sol no último dia
Durmo na ignorância cálida que faz de mim uma mesa de bilhar. Há sempre alguém que me percorre e que encontra o seu destino num ponto mais além, num dos cantos que deixo em aberto.
Na itinerância calma de quem se sente menos só porque lhe apresentam Alexander Calder e de repente o meu circo existe e os trapézios são lugares seguros onde se balança a vida e se vê o mundo do sótão, sonho.
Quem me dera entrar na Cooperativa no próximo Natal e perder o tino entre papéis metálicos de todas as cores insinuando uma barriga respeitável do Pai Natal de sempre e um bigode castiço de quem tem uma noite só e milhões de prendas para entregar. E nunca mais me esquecer do modo como o brilho e a cor, a surpresa e o encanto, a luz e os chocolates estão na minha memória daquele sítio em todos os sítios.
A língua é um caminho sem atalhos, dir-te-ia se me tivesses perguntado e se não tivesse tão focada no sol a bater na relva e na cor do vinho sob o efeito da luz. Como se diz da incomunicabilidade que se deseja por nos sabermos mais como uma fronteira e menos como um destino.
As grandes surpresas da vida são feitas de coisas, pessoas e sentimentos surpreendentemente simples, alegoricamente básicos, assustadoramente quotidianos. Uma garrafa de vinho e relva. Um adorno para o peito. Uma caneta para escrever. Pão e leite.
Se tivesse uma cortina daquelas na sala, colocava a última folha do teu livro. A primeira da minha ida a Évora. As bungavílias em flor na entrada para o mar. A limpidez de tudo quanto não soube perder.
Dormir sobre este poema
A direcção do sangue
Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração
José Tolentino de Mendonça
Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração
José Tolentino de Mendonça
P de Paula
Há coisas que me acalmam. Ouvir falar espanhol baixinho. Parar em determinados momentos e imaginar que na minha alma corre o trailer de um filme que tem asas e desejo no título. Lembrar-me do dia em que caí num buraco junto à Gulbenkian com o meu pai.
Como se esquece pessoas sem esquecer o que nos faz únicos e que nos aproxima dos outros? Porque é que somos fatais até ao fundo e ligeirinhos à superfície e para esse cocktail danado é justamente aquilo que mais atrai as pessoas e mais as afasta?
Deveria haver um dispositivo qualquer para isso. Uma espécie de soul finder, uma espécie de luz na noite. Que sinalizasse os piegas corrompidos, como eu. Os melancólicos da treta, como eu. Os absurdos números primos, como eu. E já agora as pessoas que me acalmam sem falarem espanhol nem voarem sobre uma cidade. Quando estamos felizes, ficamos com calor. Quando desço ao Rossio, adquiro uma vontade louca de fazer conversa com um desconhecido que use um chapéu ousado. Quando vou aninhar-me no Tejo, nasce-me um desejo absoluto de frio porque o frio conforta e é ao menos real.
Tenho uma faca na liga psicosomática e um punhal entre dentes no cérebro e só me lembro de coisas muito estúpidas.
Vou deixar de trabalhar com uma pessoa que mudou a minha vida. Vou ouvir alguém que não oiço há 5 anos. Sou um bicho do mais patego que há e só digo tonterias porque sou forrada a sentimento por dentro e só tenho uma ou duas mudas de roupa para o meu exterior.
A (r) rifa na
Colori os olhos de verde porque adoro o castanho realçado. Abri o peito e respirei o amor que tenho pelas coisas que existem e pelas pessoas que se deixam amar todos os dias. Pousei a mão numa fotografia antiga sabendo que a noite é longa e o escuro e o claro são duas faces da mesma vontade.
As pálpebras fecham-se e o verde propaga a sua energia cósmica: visto verde para energizar, retemperar, viver a vida num dia. Verde panca, verde seco de elegância, verde escuro, verde claro, verde indefinido a saltar para outras cores.
Quanta distância há na distância de tanta gente a dois passos de nós? Quanta diferença faz sentirmos que somos queridos e não haver nada, digo nada, que nos consuma o tempo e nos roube a essência da alma?
Quanto de mim, só areia de praia e mar a chegar aos pés?
As pálpebras fecham-se e o verde propaga a sua energia cósmica: visto verde para energizar, retemperar, viver a vida num dia. Verde panca, verde seco de elegância, verde escuro, verde claro, verde indefinido a saltar para outras cores.
Quanta distância há na distância de tanta gente a dois passos de nós? Quanta diferença faz sentirmos que somos queridos e não haver nada, digo nada, que nos consuma o tempo e nos roube a essência da alma?
Quanto de mim, só areia de praia e mar a chegar aos pés?
O Rui
Vim aqui para escrever em quinta, na socapa, depressa, à laia do safanão nas letras que me estão na garganta e que também me dão abraços e me sufocam, as sacanas.
Venho aqui porque, de repente, me apeteceu dizer tudo. Sem abreviaturas, metáforas, eufemismos. Dizer tudo, dizendo nada porque sempre achamos uma forma de dar a volta ao texto por um conjunto de circunstâncias a que podia dar mil nomes.
Em 2004 deixei uma cidade. Que conheci em 1999. Num acaso improvável de um dia excessivamente quente. Deixei a cidade para trás. Deixei-a e não insisti porque tenho esta coisa de achar que as coisas se resolvem por si e que não posso carregar um peso demasiado pesado (passo o pleonasmo) para a pessoa com quem tenho de conviver todos os dias- eu - e porque sou incapaz de conviver com a probabilidade de as escolhas feitas por alguém de quem gosto terem sido, de alguma forma, propiciadas por mim.Por isso deixei a cidade, deixando outras coisas dentro dela, e um retrato de mim que não voltei a encontrar novamente. Desde então, erros atrás de erros, num ridículo-espetacularmente-absurdo, um circo móvel em que um eu amestrado vai rindo e saltando, soprando fogo, jogando bolas e sendo o palhaço-triste que ninguém vê no caminho para casa.
No meio do caminho, e porque o inesperado acontece e eu tenho a sorte cósmica dos típicos descrentes e dos fanáticos inabaláveis, no meio disto tudo, conheço gente, cruzo-me com Gente que faz a rota parecer fazer todo o sentido, sem a cidade que deixei para trás me ser tão rente.
O delicious-delight do meu amigo Quinta é um desses casos. De gente. Que me faz chorar sobre alguns textos que escreve e rir de cabeça para trás com a quantidade de ideias ridículas e idiotas que é capaz de proferir numa só frase porque é um iluminado. Pelo lado de dentro. Como aqueles ursos de peluche dos putos que se apertam na barriga e dão uma luz gira por debaixo do tecido. Mas tirando a parte do urso porque a ser um animal, o Rui seria, sei lá, um milhafre, uma gaivota ou qualquer coisa de semelhante. Tenho sorte por, no erro, ir acertando. Tenho sorte por te ter e falar de ti com o orgulho que me enche a boca sempre que o faço.
O Rui teve uma ideia genial. Descobriu depois, da pior maneira, que a ideia já andava no ar pela mão, cabeça do Alvim. O Alvim não tem uma parede de uma sala escrita pelos amigos (ou teve) com as dicas mais bárbaras e patéticas. O Alvim também não tem uma caixa com dias lá dentro numa voz de beijo. O Alvim não tem pancas de passar os dedos em tecidos finos nem comichões com coisas ridículas. Foda-se o Alvim, pá! Rui, que és nosso! Deli-delight
Venho aqui porque, de repente, me apeteceu dizer tudo. Sem abreviaturas, metáforas, eufemismos. Dizer tudo, dizendo nada porque sempre achamos uma forma de dar a volta ao texto por um conjunto de circunstâncias a que podia dar mil nomes.
Em 2004 deixei uma cidade. Que conheci em 1999. Num acaso improvável de um dia excessivamente quente. Deixei a cidade para trás. Deixei-a e não insisti porque tenho esta coisa de achar que as coisas se resolvem por si e que não posso carregar um peso demasiado pesado (passo o pleonasmo) para a pessoa com quem tenho de conviver todos os dias- eu - e porque sou incapaz de conviver com a probabilidade de as escolhas feitas por alguém de quem gosto terem sido, de alguma forma, propiciadas por mim.Por isso deixei a cidade, deixando outras coisas dentro dela, e um retrato de mim que não voltei a encontrar novamente. Desde então, erros atrás de erros, num ridículo-espetacularmente-absurdo, um circo móvel em que um eu amestrado vai rindo e saltando, soprando fogo, jogando bolas e sendo o palhaço-triste que ninguém vê no caminho para casa.
No meio do caminho, e porque o inesperado acontece e eu tenho a sorte cósmica dos típicos descrentes e dos fanáticos inabaláveis, no meio disto tudo, conheço gente, cruzo-me com Gente que faz a rota parecer fazer todo o sentido, sem a cidade que deixei para trás me ser tão rente.
O delicious-delight do meu amigo Quinta é um desses casos. De gente. Que me faz chorar sobre alguns textos que escreve e rir de cabeça para trás com a quantidade de ideias ridículas e idiotas que é capaz de proferir numa só frase porque é um iluminado. Pelo lado de dentro. Como aqueles ursos de peluche dos putos que se apertam na barriga e dão uma luz gira por debaixo do tecido. Mas tirando a parte do urso porque a ser um animal, o Rui seria, sei lá, um milhafre, uma gaivota ou qualquer coisa de semelhante. Tenho sorte por, no erro, ir acertando. Tenho sorte por te ter e falar de ti com o orgulho que me enche a boca sempre que o faço.
O Rui teve uma ideia genial. Descobriu depois, da pior maneira, que a ideia já andava no ar pela mão, cabeça do Alvim. O Alvim não tem uma parede de uma sala escrita pelos amigos (ou teve) com as dicas mais bárbaras e patéticas. O Alvim também não tem uma caixa com dias lá dentro numa voz de beijo. O Alvim não tem pancas de passar os dedos em tecidos finos nem comichões com coisas ridículas. Foda-se o Alvim, pá! Rui, que és nosso! Deli-delight
Luz.ir*
Registo
Ao entrar, enquanto tentava prestar atenção à conversa dela e aos trejeitos da francesa do outro lado do balcão, que fala com as sobrancelhas e com as tripas de fora ao redor dos olhos, algo numa mesa em viés lhe roubava a atenção. Um rosto diferente desse que apontou num Moleskine velho e riscado com variedades mil que elencavam as dez imagens de que gostaria de se lembrar, caso a vida lhe resgatasse o tino e a temperança lhe roubasse, um dia, o ar leve e fluido- como todas as roupas de casa que usa fora de portas.
- A que saberá na pele a rotina de um dia após o outro- as palavras premontório- tu em jeito de farol, vestido dos dias que passam?
Qualquer coisa nos gestos, no jeito de contar histórias com as mãos, enquanto fala, no desalinho de um cabelo que não é vertical por convicção, uma espécie de esparguete que entra no tacho e no calor se torce e retorce, uma ondulação que ainda assim não chega para um mar revolto. Nem liso, nem encaracolado- seu, figurativo- um traço mais no conjunto sempre distinto face aos demais.
O mesmo tom de pele. O mesmo ar de nuvens. Temperamental- sem que a superfície possa dizê-lo. Um mundo dentro do mundo- e ela perdida a adivinhar o - je ne sais quoi - que conquista, inebria, excita a curiosidade e repele toda e qualquer tentativa de um raciocínio simples, quanto mais o balbuciar de um simples:
"Sim, estou bem."
"Não. Nem por sombras me aguento."
Séraphine, Saravah, Éric- como dizer que a arte nos salva? Que a música nos resgata? Que a composição- a criação- nos inflama? E como ainda acrescentar que nos apetece descansar, seguros, certos, confiantes, esperançados- no leito dos amores à deriva, dos projectos frustrados, dos planos adiados, de um dia apenas a seguir ao outro?
Como ser um sonho e voltar a entrar por uma casa dentro- e do outro lado, após quilómetros de estrada- nos receber, em casa, um sorriso?
Caminhar
"Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quanto a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia em seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar."
Albert Camus
Albert Camus
Tudo o que quis dizer hoje
Tenho a cabeça a rebentar, o corpo numa temperatura que já passou definitivamente do razoável e as ideias como girinos, a vaguear à solta, mas sem fio condutor- o que há-de dar, espero, numa coisa ainda mais bonita.
Escrevo sem ponta nenhuma a ligar, o que é francamente libertador, e sem muita vontade de explicar. Coisas que se arrastam nos dias, entram nas noites, aclaram e escurecem o que se sente sendo que fico cada vez mais esclarecida de que menos esclarecida estou. A ignorância e o olhar para a paisagem e sentir melhor é um remédio santo para tantos males de alma, mais ou menos na correspondência de um gin para um fim-de-semana que começa.
O Verão está a acabar (apesar da temperatura do meu corpo a esta hora precisa indiciar o contrário) e portanto prefiro acreditar no que me faz feliz, no caminho que me leva a becos esconsos, circuitos de corrida, praias bem amadas e nas pessoas tatuagem.
Houve quem nascesse neste dia. E quem quissesse escrever neste dia, por todos os dias em que não tem escrito, pelas linhas paralelas e pelo unir dos pontos que liga cidades, pessoas, bocas que sorriem, peitos que se contorcem, gente que deriva porque é isso tudo e muito mais: ilha, porto, nenufar, farol, casa de conveniência, loja de província à beira da estrada, cruzamento de estrada que liga o interior ao litoral num dia infinito.
Escrevo sem ponta nenhuma a ligar, o que é francamente libertador, e sem muita vontade de explicar. Coisas que se arrastam nos dias, entram nas noites, aclaram e escurecem o que se sente sendo que fico cada vez mais esclarecida de que menos esclarecida estou. A ignorância e o olhar para a paisagem e sentir melhor é um remédio santo para tantos males de alma, mais ou menos na correspondência de um gin para um fim-de-semana que começa.
O Verão está a acabar (apesar da temperatura do meu corpo a esta hora precisa indiciar o contrário) e portanto prefiro acreditar no que me faz feliz, no caminho que me leva a becos esconsos, circuitos de corrida, praias bem amadas e nas pessoas tatuagem.
Houve quem nascesse neste dia. E quem quissesse escrever neste dia, por todos os dias em que não tem escrito, pelas linhas paralelas e pelo unir dos pontos que liga cidades, pessoas, bocas que sorriem, peitos que se contorcem, gente que deriva porque é isso tudo e muito mais: ilha, porto, nenufar, farol, casa de conveniência, loja de província à beira da estrada, cruzamento de estrada que liga o interior ao litoral num dia infinito.
tenho
Tenho tudo em casa, não tendo nada nela. Tenho um pedaço de texto, não tenho nada concluído. Tenho um plano louco e vontade de partir sexta e voltar domingo e a minha conta bancária é uma parábola financeira. Tenho o sentir todo, sabendo que cada vez mais procuro intensidade e verdade e fico a contas para saber que circuito intímo é este, por onde ninguém passa - e - nem por sombras sou uma pessoa pouco feliz.
Às voltas no chão, fazendo colagens de bocas e recortando frases que fazem colibris no meu cérebro- a vida é um caminho às escuras, de luzes brilhantes e doces e acres paisagens, que nos salivam a alma e nos rompem o corpo.
Stay Golden.
Às voltas no chão, fazendo colagens de bocas e recortando frases que fazem colibris no meu cérebro- a vida é um caminho às escuras, de luzes brilhantes e doces e acres paisagens, que nos salivam a alma e nos rompem o corpo.
Stay Golden.
brasa
num corridinho de texto dizer que amo os amigos. já disse isto cem vezes no mínimo mas não m'importa. todos os que vêm p'la mão deles e me fazem animar por dentro. nos dias em que faço esquadrias a parte da família para ver se não os sinto tão tangentes ao corpo. q'isto de sentir tudo de todas as maneiras não é para todos. e certamente é para mim- gémeos de signo. mais aquela conversa linda das pessoas todas na alma e eu na lama.
os amigos. esses doidos que não duvidam. que me fazem acreditar que estou de férias quando até nem estou. que convidam para o óbvio e para o surpreendente. mais a gente que se descobre que nos conhece sem nunca termos dito nada e sem ser preciso explicar. essa raça de gente que dá p'lo nome de gente com que se conta, que sabe contar ainda por cima, sendo o por cima o que nos salva, porque num dia tudo muda e tanta gente faz (ou não) a diferença.
sms, texto d' lágrimas. sms, texto de riso. sms, um cigarro que se oferece. sms, a chegada de um amigo.
tenho a alma em brasa dos amigos.
os amigos. esses doidos que não duvidam. que me fazem acreditar que estou de férias quando até nem estou. que convidam para o óbvio e para o surpreendente. mais a gente que se descobre que nos conhece sem nunca termos dito nada e sem ser preciso explicar. essa raça de gente que dá p'lo nome de gente com que se conta, que sabe contar ainda por cima, sendo o por cima o que nos salva, porque num dia tudo muda e tanta gente faz (ou não) a diferença.
sms, texto d' lágrimas. sms, texto de riso. sms, um cigarro que se oferece. sms, a chegada de um amigo.
tenho a alma em brasa dos amigos.
amanhã
não há salas que cheguem onde caiba o que me custa saber o que a vida não vale. ter a certeza que te foste num dia de improvável calor e de cheiros de rosas e malmequeres vários a encher o espaço onde eu fui tão criança. o mês todo a desejar passar de 30 de Julho para 1 de Agosto na tentativa ignóbil de esquecer esse dia. quando o dia da morte não é mais do que um dia, como os outros, em que nenhuma recordação se perde na e da minha memória. quis dormir sobre um tecido de combinação, um lenço de bolso à cabeceira ou uma travessa na mão para que houvesse algo palpável que me desse chão. fiz uma trança no cabelo. mas não a prendi, como tu fazias. quero o vento e o calor a tocar-me no cabelo e imaginar que podes ser tu.
Flor d'água
Dentro da noite há uma noite de dia. Um crepúsculo despenteado que ilumina mas pouco. No Verão, somos arquitectos de formas de biquinis sobre o corpo que se tapa e se destapa em água. Queria ser isso na escrita. Água.
A minha nuvem predilecta
Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo ou um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto
Ramos Rosa, o delicado escultor de sonhos
O Teu Rosto, Dezembro 2004
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo ou um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto
Ramos Rosa, o delicado escultor de sonhos
O Teu Rosto, Dezembro 2004
Caravelar
Meu espírito possante
não quer alocar
meu corpo frágil.
Na roda do levante,
peito aberto e adiante,
a mente,
mente:
presa fácil, embora ágil.
A mente posta em sossego,
na distância confortável do aconchego,
diz não saber como refrear:
a eterna saga dos românticos,
que lêem nos atlânticos:
- o coração à mão de um manivela.
Caravela, caravela,
quantos querem ir já nela:
corpo-amor a navegar.
não quer alocar
meu corpo frágil.
Na roda do levante,
peito aberto e adiante,
a mente,
mente:
presa fácil, embora ágil.
A mente posta em sossego,
na distância confortável do aconchego,
diz não saber como refrear:
a eterna saga dos românticos,
que lêem nos atlânticos:
- o coração à mão de um manivela.
Caravela, caravela,
quantos querem ir já nela:
corpo-amor a navegar.
Porque sonho com o texto amiúde
Esta noite tive uma alucinação de gente:
sonhei com Luíz Pacheco no sopé da cama,
vociferando pergaminhos alheios,
depurando as descrições cruas das palavras
que utilizamos para nos referir às coisas
que não encontram paralelo senão,
na nudez da palavra que melhor o exprime
e que vem a ser,
justamente,
a sua designação técnica.
Se me ouvisse-do alto da sua coagitação despudorada-
diria que nem a poesia foi feita para ser
tão descentrada e moralistamente desagregada
da carne, do lume e da pureza
de chamarmos as coisas pelos nomes,
com o tacto, a leveza e a elegância
a piscarem o olho, de novo
à boca da mão que assim o escreve:
porquanto posso ser íntima
na clara e límpida devassidão comunitária* do amor.
*alusão a uma das mais intensas e belas obras de Pacheco
sonhei com Luíz Pacheco no sopé da cama,
vociferando pergaminhos alheios,
depurando as descrições cruas das palavras
que utilizamos para nos referir às coisas
que não encontram paralelo senão,
na nudez da palavra que melhor o exprime
e que vem a ser,
justamente,
a sua designação técnica.
Se me ouvisse-do alto da sua coagitação despudorada-
diria que nem a poesia foi feita para ser
tão descentrada e moralistamente desagregada
da carne, do lume e da pureza
de chamarmos as coisas pelos nomes,
com o tacto, a leveza e a elegância
a piscarem o olho, de novo
à boca da mão que assim o escreve:
porquanto posso ser íntima
na clara e límpida devassidão comunitária* do amor.
*alusão a uma das mais intensas e belas obras de Pacheco
Silêncio
Pudera eu escrever alto,
de cada vez que emudeço,
perder o norte onde pertenço,
afagar o todo em sobressalto.
de cada vez que emudeço,
perder o norte onde pertenço,
afagar o todo em sobressalto.
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