Porque sonho com o texto amiúde

Esta noite tive uma alucinação de gente:

sonhei com Luíz Pacheco no sopé da cama,
vociferando pergaminhos alheios,
depurando as descrições cruas das palavras
que utilizamos para nos referir às coisas
que não encontram paralelo senão,
na nudez da palavra que melhor o exprime
e que vem a ser,
justamente,
a sua designação técnica.

Se me ouvisse-do alto da sua coagitação despudorada-
diria que nem a poesia foi feita para ser
tão descentrada e moralistamente desagregada
da carne, do lume e da pureza
de chamarmos as coisas pelos nomes,
com o tacto, a leveza e a elegância
a piscarem o olho, de novo
à boca da mão que assim o escreve:
porquanto posso ser íntima
na clara e límpida devassidão comunitária* do amor.

*alusão a uma das mais intensas e belas obras de Pacheco

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