Chiado a t(r)inta

Olhando as cidades acres,
tenros vícios, leves massacres,
em casa do saber de cor.
Leio a tua linha da vida
meio avessa, c/d olorida
no balanço de quem ama a dor.
Menino-mãe-coragem
a tua biografia é uma aragem
e o resto, beabá do ardor.
E eu, fingindo não ser assassina,
em passos de bailarina:
de cada vez que mato o amor.

* Concerto a trinta

Em letra pequena

gosto de saber que sou uma pessoa simples. para depois aceitar melhor a vocação que sei ter para complicar o inconfessável. e gosto especialmente de escrever utilizando letras não capitulares. porque não só me percebo melhor. como tudo tem uma pausa certa. a seguir a uma curva uma recta em que se avança sem pensar. gosto de gente que escreve. e de escrever letras para músicas. porque o surreal me chama sussurando. e a vida quotidiana se espraia comigo enquanto bebo uma limonada ao sol. fui a coimbra ver um concerto que só aconteceu no dia seguinte. o que não é trágico talvez cómico porque sei um infindável rol de letras de músicas de bolso para cantar no asfalto. as obscuras e as alvas. as frenéticas e as que se arrastam para lá do limite razoável do timbre da minha voz. as de letra papa-pronta-a-misturar e as desenhadas qual renda de liga que algumas mulheres gostam de envergar debaixo das saias. as que alguém levou numa cápsula de um tempo remoto e todas aquelas que não conhecem a aspereza característica do pó dos anos. não me sai da cabeça a imagem da neblina por cima da cidade vista da varanda do local do concerto. fez-me lembrar sintra e d. sebastião (hoje não escrevo capitulares) e o que eu disse um dia sobre isso de se morrer em sintra e ser perfeito. e tudo quanto espero de um dia de nevoeiro. sebastião de todos os nomes.
às vezes (também à noite) espero prolongar-me por todos os minutos em que não resta música alguma. e deixar escrito. o insondável dos pensamentos das tardes de neblina. ou por outra. quem não gosta de ser adivinhado.

Do imaginário supremo

"Let me cry for all these little men building their bridges of sand: nothing more than children, with children on their hands. Deep into their silence, stronger than their words, runs a cold, wild river to the sea of love. When the rain starts falling on their hearts, all hitlers and bonapartes hide inside my red dress like motherless pets. They produce the tears, they invent the bombs, they spread out the fears and they come home all alone. I'm the cleaning lady of the broken hearts, I'm the Virgin Mary of the psychopaths. I'm God's only witness that they fall apart when they touch the fire of the ancient stars."

Nimarói, Letra de J.P. Simões

Inquietação ou isso

Comecei por escrever este post depois de inserir uma música. Tenho este hábito tenebroso de acrescentar sempre mais coisas às coisas mais sempre ditas. Ouvi-o na ZDB, rodeada de gente até aos ossos e de alguns cartazes, em que não me detive, por estar absorta na noite. Pensei depois, no caminho para casa, que a vida é um lugar extraordinário onde tudo volta e os meandros recomeçam quando nos perdemos nos acasos dos atalhos de amargo/doce de boca. Já vi aquela ironia deliciosa, já me foi dado a conhecer aquele primor de escrita, já conheci quem fizesse aquele trejeito quando fala, porque lhe subia inadvertidamente a terra à boca. E, por hoje, sinto-me privilegiada por ter vivido tanto. E sei que gosto dele porque lhe reconheço a ele, e não a quem me faz lembrar. E sei que vivo para ouvir e ver a trágico-comédia que lhe imagino a roçar os escritos. E não me lembro agora de uma música com maior força que essa, supra-citada, cantada por ele. E se eu me pintasse, num quadro no atelier do Pomar, seria toda essa sequência cantada na letra. Com laivos de escarlate. Para abonar a vida e a paixão.

Dizer o que já foi dito, tantas vezes, por outros*

" Pena não haver um gravador automático de sonhos. Ou, pelo menos, eu não ter ainda, à noite, um gravador fácil de manejar estremunhado (...)"
Luiz Pacheco, Diário Emendado, 2005
* e que outros.

Sol

" Tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente
altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais
– também, já por cá passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive
as mulheres que assombrei
as ruas por onde passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história de sentido ainda oculto
magnífica
irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca como uma linha férrea ultrajada pelo tempo "

Vitamina C (Assírio e Alvim)

O mar A mar

O MAR

Nunca conseguiu viver longe do mar.A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meios cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.

[...]Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.


Al Berto, Anjo Mudo, Assírio & Alvim