Ser um(a) Pessoa

(...)Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente (...)

(...)Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas — absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma (...)

(...)Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro, ~
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim (...)

(...) Meu coração tribunal,
meu coração mercado,
meu coração sala da Bolsa,
meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público,
hospedaria,
estalagem,
calabouço número qualquer coisa («Aqui estuvo el Manolo en visperas de ir al patíbulo»)
Meu coração clube,
sala,
plateia,
capacho,
guichet,
portaló,
Ponte,
cancela,
excursão,
marcha,
viagem,
leilão,
feira,
arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta,
bagagem,
satisfação,
entrega,
Meu coração a margem,
o limite,
a súmula,
o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.
Não há gestos de prazer pelo mundo que valham
A alegria estupenda de quem não tem outro modo de a exprimir
Que rolar-se pelo chão entre ervas e malmequeres
E misturar-se com terra até sujar o fato e o cabelo…
Não há versos que possam dar isto (...)

(...) Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro (...)

(...) Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver (...)

(...) Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali (...)
Álvaro de Campos, Excertos de "Passagem das Horas"

A nossa vida a três

Como Penélope, gosto de desfiar novelos pela noite na minha própria música: que é como quem diz: no meu ritmo.
O meu avô materno. Vamos chamá-lo, por causalidade e coincidentemente: José. Nasceu algures no norte do país onde, pequeno, conheceu aquela que viria a ser a sua mulher: a minha avó, cujo nome dá para escrever num castelo ou para erguer um mesmo castelo, ainda que de claras. Suave, suave, como só esse nome e que também começa por A, como o meu.
Herdei o nome do meu avô e não o da minha avó, como é da praxe. Não gosto muito da ideia porque acho que devo ter tudo a que tenho direito (risos), mas compreendo que juntar o sobrenome da minha avó a todos os outros dava (muito) peso à coisa. Peso e R's.
Adiante: A minha família espalhou-se pelo Brasil e muito pela Madeira também. Acho que já ouvi o meu sobrenome até cantado. E um dia, quem sabe meto pernas à estrada.
Conta a história que o meu avô, amante da palavra prazer, perdeu toda a fortuna de uma vez só, para dar um ar romântico à coisa. Pouco romântica foi a coisa, e nada na história envolve traição ou outras pessoas, segundo ouvi dizer. Prazeres: viver com tudo dentro. A minha avô: eminente, segura, preponderante e arrediça, mantendo sempre aquele ar sagrado e solene que a caracterizou toda a vida. Mais fria e menos tolerante que o meu avô, que adorava ver-me comer com as mãos.
Aprendi a gostar dela porque me foi impossível não gostar e tenho alguma pena por não lhe ter perguntado mais sobre o meu avô. Não podia. Não quis. Não poderia.
Acho que ela começou a viver a partir do momento em que ele morreu. E a ficar mais leve e ao mesmo tempo irónica e espirituosa (esta é a parte onde entra o Vinho do Porto que dá uma valente ajuda à coisa) na nossa presença. E eu sei. Eu sei.
Tenho um pouco dos dois dentro. Loucura: como acabou por morrer o meu avô. Serenidade: como morreu, por fim, a minha avó.
E hoje tenho o melhor do melhor de tudo:estórias sobre estórias para contar. Vividas. Sem nunca as contar inteiramente a quem se abeirou de mim dado ficarem num compartimento apenas acessível pela descida de escadas em caracol e porque gosto de as ir compondo e revendo, baralhando e dando, sorteando e imaginando, como num puzzle em que sobram sempre peças.
Somos um prato cheio e lá dentro estão as minhas mãos. Como sempre gostei de fazer.

Do verbo saber

Num instantinho venho aqui dizer que uma das coisas que mais gostava na casa de Benfica: alguém tocava piano, de cauda, no andar de cima. Fiquei encantada quando o ouvi pela primeira vez enquanto falava sobre "As palavras" de Eugénio de Andrade. "Quem as recolhe assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?
Como explicar que, um dia, à noite (com todos os dias dentro cheios de penumbra rasante) puseram, para eu escutar, Cesariny, pela casa? Como dizer que coube dentro de todas as casas sem as habitar por dentro? Como mudar a cor da retina para que ela fique mais clara e mais transparente? Como morrer por dentro?

Qualquer coisa no meio

Esta semana foi comprida. Comprida a arrastar-se. Comprida em cansaço. Comprida em corrida. E eu a ver-me e desejar-me. Porque, se eu pudesse, o dia hoje não tinha noite e continuava dia até outro dia vir e assim sucessivamente. Porque cada palavra me fez assentar os pés no chão e pensar nisso da verdade das coisas.
Esta semana senti-me desconfortável a valer num sítio onde normalmente estou muito confortável porque gosto do que faço. Porque trabalho para mim. E para tudo quanto me dá gozo aprender e hoje falei disso com uma pessoa very british de hábitos e tão soft de palavreado que mora no último piso. Qualquer pessoa ganha a vida ao subir aquelas escadas e soltar umas palavras na sua direcção. E percebi que tenho de lidar melhor com isso de devassarem uma vida à minha frente e a mim apetecer-me vomitar, no imediato.
Esta semana tomei chá e fiquei a pensar nos acasos dos casos dos ocasos que fazem as pessoas esquecerem-se de nós e lembrarem-se de nós. Esta semana disse coisas muito silly-season só porque decidi que ganho a vida na descontração e na leveza e não há maior prazer do que esse.
Esta semana abusei do verde e do encarnado e pus novamente a cabeça a arejar. E esta semana (como sei ser repetitiva e como isso me deixa feliz) percebi que amei o filme pela razão certa.
Amo, esses: os incautos, sonhadores, diabólicos-demabuladores-de-nuvens, os observadores-natos-que-saem-do-seu-corpo-para-melhor-apreciar-a-vista e os oradores-dos-passos-perdidos, eternos condenados à palavra fácil de canto de boca, os que são sérios e magnânimos e leves ao mesmo tempo e os que esperam-a-eternidade-toda-para-serem-qualquer-coisa-de-mais-pungente-e-não-conseguem. Amo os desmembrados de família e de coração e os de feitio difícil pela manhã. Amo os moralistas e os imorais: os pérfidos e os samurais. Os amantes de ócio e de preguiça. Os que envergonham a filosofia barata de alcofa. Amo os surrealistas e os que abusam da pontuação, os que não se levam a sério e os que têm carácter antes e sobre qualquer coisa. Amo os que acreditam-não-haver-Deus e os que olham para cima quando dizem uma ignomínia. E nem sequer tenho umas calças bege. E nem sequer andei nos escuteiros na minha infância perdida. E quase que vejo as pessoas na infância quando elas escrevem.
Esta semana. Sinceramente. Só quero um poiso para descansar.

Do que vi

Reconheço-me na austeridade, na medida do perfeccionismo e nalgum pudor perante as coisas e as acções. E guardo, o que ele escreveu: o essencial é que eu me sinto de tango. Um pouco de Portugal, outro do mundo.

O verdadeiro talento

Tenho verdadeiro talento para visitar cidades quando elas estão em festa por um qualquer motivo. Foi assim em B., assim em C., assim em B. novamente, e podia continuar o abecedário que rima com dromedário e luminário e assim continuava numa de fazer rimar palavras sem coincidência nenhuma que as salve.
Acho que durante o sono se produz qualquer mecanismo muito estranho na minha cabeça de vento e eu consigo oscilar, com uma perna às costas, entre o desalento e a pura inocência de acreditar que está tudo para chegar, qual veleiro branco num porto de brisa de mar.
Admiro as pessoas que escrevem depois de jantar ou à beirinha das 7/8/9 horas da noite. Procuro entender o que é isso de escrita-no-meio-da-vida-mundana como uma parte a mais do corpo: eu sei lá, um braço, uma perna, uma orelha ou mesmo a epiglote, lá em cima, a badalar.
Procuro vê-las, na bancada da mesa da cozinha, com a cabeça apoiada no braço esquerdo e com uma maçã verde ao lado. Recostados no sofá, sentados com as pernas dispostas como num jogo do Mikado. No chão, em cima de almofadas com o corpo destratado, engelhado, ou ao comprido, numa pose de "Aqui cheguei. Aqui me têm". Vestidas das cores dos pijamas que ainda não são bem de Verão mas que já não se compadecem com os tecidos mascavados de Inverno.
Daqui a uns dias, haverá sol à hora em que escrevem e suspeito que as virtudes de um chá fresco de menta ao fim da tarde ou um martini rosso a assobiar à noite farão as delícias das palavras no desktop.
Adoro quando, no meio de um post inacabado, alguém me telefona e eu tagarelo sem demoras. Combino o programa das festas, comento sem acertar o evento que está a ter lugar junto ao Tejo, atiro duas ou três frases des(feitas) para o ar e sigo, fina e dócil, para acabar de reescrever um Sábado de pé descalço.
Ela sabe que já soube (de)mais,
ela sabe se entreter com o que foi será
ela julga sempre saber a diferença
entre o Saab e os que lhes roubam os ais
Quando conversa, desmembrada,
sobre os amados clássicos
jura que sabe destilar todo o prazer,
de quem desliza de carris por debaixo deles,
só para descobrir o que os pára,
o que os faz assim sofrer.
Ela é assim,
gosta de mecânica,
e até entoa uma ou outra quadra satânica,
o que ela não faz para sugar uma rima aqui, outra acolá,
esgrimir homógrafas, eu sei lá
ela até diz que aprecia botânica,
ela até promete ter um quintalzinho,
para ver sambar carmim com jasmim,
finório com osório,
super-frutas com narco-birutas,
tudo, tudo, para que no fim,
há um belo final (zinho).

Noiserv ou o Encantamento

Quero ter sons de sonhos desta cor. E acordar, estremunhada, durante a noite e ter a certeza que sonho acordada, sem prazo de validade. E que sou una na fantasia e no delírio e que mais tarde amanheço como dantes.