Um dizer ainda puro


imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato," Um Mover de Mão", Assírio e Alvim, 2000.

A paz de um sonho aberto

Às vezes acho que ninguém vive assim. Ninguém chega a casa e se embebeda com Ramos Rosa. Nem se apaixona de textos. Ninguém tem tempo para ganhar tempo com quem não se conhece bem. E, mesmo num dia em que tudo corre bem porque nos salvam com um almoço e ganhamos umas pantufas às riscas e um Winnie the Poo terno para o pequeno R., não deixo de sair do corpo e me ver da plateia. Caminho em múltiplos passos, pensando em como me entusiasmo demais com as coisas. Talvez elas não sejam para viver desta forma. Talvez haja uma medida para todas as coisas. Talvez eu veja coisas onde elas não existem. Talvez não haja assim tanto tempo e vontade de nos conhecerem por dentro. Porque, a verdade, é que vivemos em compartimentos fechados. E trocamos simpatias. Cortesias. E nada mais do que isso. Talvez fosse bom não descarrilar assim. Há dias que não tenho chão. Apesar do sorriso que me veste. E noites em que apetece pegar no carro e ir. Sou um excesso em tudo. Até no tudo. Sobre (tudo).
Hoje explicava uma das coisas que introduzi num post recente a uma amiga. Contei-lhe que, num determinado momento profissional, foi necessário pensar numa oferta a dar, numa visita a Portugal de uma pessoa suave de veludo. Nada mais, nada menos que uma rainha de um país europeu. Em jeito de curiosidade mas também porque me interessava a opinião daquela pessoa, perguntei o que seria adequado oferecer. Ela confidenciou-me que, quando a conheceu, ofereceu-lhe simples espigas de cristal. Com um pormenor magistral: obtidas através de uma técnica de sopro. E a pura descrição e todo o cenário que refiz na minha cabeça, a propósito deste episódio único, fez-me vê-la, a pessoa a quem perguntei (pensando que a conhecia) sem filtros. A delicadeza e o detalhe são tudo. Quem me dera soprar espigas pela vida e ter esta profundidade e esta claridade de pensamento e de chão.
"Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar"
Excerto de poema de António Ramos Rosa, "O teu rosto", 1994

Prosa petiscada

Colecciono gente. Como outros coleccionam moedas, selos, lápis de cor ou lágrimas na boca.
Colecciono gente de passadeira vermelha. Gente que não precisa de se fazer anunciar. Gente contente. Gente contundente. Gente quente.
Gente e (a)gentes infiltrados de açucar e com espessura de carácter. Gente vertical, mesmo a dormir. Gente em que me espraio num par de horas apreciando o sol e a falta dele.
Gente demente que caminha pelo meu corredor, às escuras. E gente que pressente para lá das amarguras. De espírito e de boca.
Gente nirvana que se eleva com a velocidade da tristeza. E gente inflamada e que atravessa, periclitante, o tom grave da minha voz.
Gente-frutos-do-bosque: alma de mirtilo - corpo silvestre.
Gente com Mecas amovíveis, rebatíveis, impossíveis.
Salivo ao pensar nesta gente. Seria capaz de os trincar, bago a bago, roubar-lhes a casca, tirar-lhes a pele, apurando o tempero.
Ou então soprar-lhes. Como fazem os artesãos gourmet da Marinha Grande com as espigas de cristal.
Meto-os, finalmente, no tacho e salto dentro. Porque os meus amigos são, como direi,

... um petisco!

Rodrigo, de seu nome

Estava à espera que ele nascesse para poder partilhar este pedaço de céu.


Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse
Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou
Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

Letra de SG

Cássia revisited

Um dia,
ao dizer
um segredo,
teve medo,
da poesia.

De noite,
ao ver
cinema,
teve também pena,
de não entrar em cena,
e beijar a maresia.


Empunho a espada.
Lanço-me à guerra.
Com o mais doce que tenho.
Olho o retrato
da imagem na lapela,
leio-me nas causas perdidas dela,
sem ser santa,
nem lhe vestir o manto.

Solto o cabelo.
Afloro o riso.
Com o mais terno que possuo.
Miro a viagem
e a queda inexorável
para as batalhas perdidas,
quando é que eu vou,
não querer ser vertigem,
não procurar a origem
de tudo quanto reluz,
no oposto de mim.

Soletrar

O meu rosto
não tem coração,
dentro,
chego sempre tarde
parto sempre triste,
e o mais, sou,
em riste.

O meu útero
não tem oração,
ao centro,
regresso sempre cálida,
retempero sempre lânguida,
e o menos, estou,
em lâmina.

Pus todas as as coisas do sal e do sangue da vida junto ao mar.
Enxaguei as estrelas e o mundo que cabe na palma da minha mão aberta.
Tentei, em vão, respirá-las em fogo e vê-las a arder no fundo, exangues.
Tirei um retrato ao desejo e planeei uma réplica de onda, à medida dos meus braços, para trazer para junto da cama. E vou, tenho a certeza, deitar-me nela. E fazer da sombra da memória, clarabóia do mundo tocante.
Quando não souber onde pus o sono.
O que fiz com o abandono.
Onde parou o tempo.
Como pôde um Homem ficar sedento.
Do mundo.
E atalhar caminho.
Vislumbrar o corpo em desalinho.
E dizer que valeu a pena.

1ª Classe

A chama,
o ardor,
na janela,
e as reticências
que, no vidro, tomam cor.

Esperei-te
uma tarde
inteira
de versos
e agora que me escutas,
tão pouco me perguntas,
se sei soletrar amor.

E guardei-te
uma caixa
rendilhada
de nuvens
e na fímbria delicada da voz,
procurei por nós,
até encontrar a dor.