Ao norte,
desnorte,
eu também já quis velejar.
Sem sorte,
E na morte,
passei, ao menos, sem ficar.
De noite,
a vida feita açoite,
porque eu quero marejar.
Right from the beggining.

Pego. Nas nuvens que pintam o céu de cores de inverno. No ar rarefeito que me deixa a pele menos quente do que quando aqui cheguei. E penso. Estou de passagem. Na aragem. Do mundo. Colecciono estrada. Não armazeno piada. Sou da gente, a mais amada. Num dilúvio de palavras, afundo o Verão inteiro no silêncio e o riso ecoa, ecoa, ecoa. Sou só. Só. Só. Só. Só a andar por aí. No ruído ensurdecedor de remendos feitos à pressa em passados pouco dados à adivinhação. Vou, vou, vou. Vou-me sempre embora porque nunca chego bem a chegar. Nunca me chego bem. Nunca sou a suficiência para a solidão toda. Estou numa casa de vidro onde avisto a paisagem em todos os graus e pessoas emendadas dos erros que foram. Na minha memória descritiva, vou pôr a cor púrpura. E depois apagar a memória descritiva e começar de novo. Começar de novo.
* Imagem de FGC
Eu, em branco
De vez em quando, alguém diz algo verdadeiramente básico ou banal e eu escuto. De quando em vez, os meus ouvidos escutam algo simples que se tende a repetir, vezes sem conta, na minha cabeça até adormecer. Costumo dizer que tenho amigos que têm teorias. Amigos que tiram da cartola do nada, coisas tão assustadoramente banais que me deixam de boca no chão.
De repente, uma frase meio sussurada, como se de inútil se tratasse que resolve o meu mundo de dúvidas e inquietações mil. Gosto de ouvir os meus amigos. E de olhar para eles quando eles misturam o quotidiano com o surpreendente e nem se apercebem. Acho que, muitas vezes, não fazem ideia do tanto que dizem. Do quanto me tingem. Do muito que me sopram ao ouvido.
Gosto de entrecortar o trivial com o frágil. O quotidiano com o filosófico. A certeza com o pueril. A basófia e a trivialidade com a humanidade e a verdade. E é sempre nos intervalos entre estes mosaicos que se dá o óbvio: no meio da mais acesa discussão sobre quanto o F.C. Porto polui o imaginário do futebol português enquanto exemplo máximo da corrupção e da influência, surge uma tirada genial sobre a vida a dois ou o sentido da própria vida. E tudo isto dito, como a coisa mais ligeira e fluida de sempre, como se se tratasse de encomendar ameijôas na loja da esquina. E eu assisto, divertida e chocada, ao imaginário feliz dos que me acompanham. Como, no domingo (em todos os domingos sem data), Ritz... Gosto de mandar postais. Com o veludo dos amigos. E parece que não sei dizer outra, nestes últimos tempos, senão: amigos. Mas recebo um telefonema como o de segunda-feira e sei que, embora descontando a correcção e a educação, fui-me feliz. Por ser eu. E por acreditar repetir, no mais íntimo de mim: "possuo para sempre tudo o que perdi. recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: apaga as estrelas...", à boa maneira de A.. Tenho um vinho floral. Ou será, frutado? Furtado? (risos)
E toda a incerteza que me sabe bem nos lábios.
Os relógios desligados até mais não-ver.
As palavras desacertadas porque o melhor, de mim, vem em silêncio.
O coração novo, a cabeça leve e as pernas a andar...
Amanhã vai amanhecer exactamente igual.
2007+1
Não gosto nada de balanços. Embora possa perceber que eles sejam importantes para construir o futuro e para desembainhar o passado. Mas, seja como for, lembrei-me deste ano e de muitas das coisas que se sucederam ao longo dos dias e das noites de 2007 +1 e apeteceu-me escrever sobre isso.
Não posso não pensar no embate e no espectáculo imagético de faíscas por cima da minha cabeça. A minha alma é imagética. Tudo se faz de e por imagens. Aliás, quando não tenho talento ou disposição para falar, valem-me as imagens e os sons e muitas vezes as cores. Explico pessoas por cores porque me dá mais jeito ao peito e tenho um punhado de pessoas cor de pôr-do-sol na Ericeira. E ai de quem me diga que há um pôr de sol mais mágico que o da Ericeira. Vou já avisando!!!
Lembrei-me de pessoas com quem viajei e nem sequer neste ano. Lembrei-me da minha querida Shiva, com quem fiz o caminho do aeroporto num país adocicado na língua e nos gestos, várias vezes, refazendo a rota da coca e arriscando tudo quanto tinhamos em nós. Decidimos ir na semana anterior à partida, ela partiu um ano depois. Fizemos a viagem porque ela queria viver, VIVER à séria, embora tivesse um prognóstico de doença reservado. E sei que a viagem valeu-lhe pela vida. Ela também me valeu a vida.
Lembrei-me do Tiago, companheiro de viagem para Barcelona e das muitas Ritas que conheci e desse sentimento que nos atravessa quando entramos num outro território e somos bafejados com o ar que ali se respira. Estou indelevelmente ligada às pessoas com quem viajei porque elas me deram os dias e eu sorri-lhes com as noites. Estou ligada às pessoas, muito mais do que aos homens ou às mulheres, embora não desconhecendo que são homens e mulheres.
Lembrei-me dos amigos amigos de outros amigos que não cabem nos cinco dedos da mão. E das festas em casa dessas pessoas e das fotos que enquadram as músicas que alguém cantou. E do todo que ficou por dizer porque não era importante tirar conclusões e dizer a deixa final. As coisas mais bonitas são as que ficam por dizer.
A minha memória avivou também os amigos que conhecia há muito tempo e que me conheceram, sem tule por cima, e fora do fato gasto da profissão em que me passeio. E de um amigo, de sempre, sobre quem escrevi, noutro blog, o seguinte sobre o modo como sempre encarámos o que fomos:
"Sempre souberam que não havia catálogo, caixa, nome, comparação para tudo o que edificaram para além dos canônes tradicionais das relações e dos sentimentos."
E acho que chego ao ponto onde queria chegar. Estive todo este tempo (que parte da minha vida é que posso excluir de todo este tempo?) a caminhar e a passar, como os comboios ou os elécricos em fim de tarde ou no meio da noite. Porque não sei se tenho identidade ou se, pouco a pouco, com gente e sítios, aprendo a construir a minha própria identidade. Não sei se vou conseguir não ser do mundo e por isso só posso estar agradecida por verem em mim mais do que o meu género indica.
Quando faço amigos, vejo pessoas. Vejo humanos neles. Vejo-os, fora dos muitos contextos em que eles se integram necessariamente. E ao vê-los e con(vivê-los) olho para eles a sério. Uma pessoa é uma hipótese provável de excepção a todas as outras e é isso que me encanta e seduz. Cada pessoa, um mundo e todos os outros mundos que aquela pessoa trouxer consigo ou quiser partilhar.
E por isso, tenho de falar em ti, Jo. Ou antes, quero. E no muito que me ensinaste a olhar. Porque tu és como uma casa, ou como alguém disse um dia, como um lar. Estar contigo é estar em casa. E poder ser. Agradeço-te, neste fim de ano, também por isso, por ofereceres tranquilidade e lealdade a quem entra em ti e por veres além do género que ocupo. A amizade é isso. Poucas pessoas percebem que as relações entre os dois géneros, sendo de amizade, podem ser completas nisso. E poucas acreditam e as vivem nessa base. Porque é que a amizade não pode ser completa e porque é que não nos podemos entusiasmar com os amigos do mesmo modo como nos apaixonamos?
Tenho amigos delight e isso basta-me neles. Eles bastam-se nisso. So, what' s the point?
Viajei com homens porque eles eram meus amigos. Da mesma maneira que viajei com mulheres porque eram minhas amigas. Jantei com pessoas: homens e mulheres e saio com todos, indiscriminadamente, sem fazer género ao género. Acho demasiado redutor essa coisa dos géneros. E pouco saudável colocar o amor no topo.
Eu agradeço os amigos que tenho. E a eles, por saberem que não vejo neles, um pedaço de carne. É óbvio que somos todos humanos, mas porque não posso ter apenas amigos-homens e amigos-mulheres e isso me bastar na amizade que lhes tenho e que eles me devolvem.
Ao longo deste ano também se afastaram algumas pessoas que não perceberam isso ou que não partilhavam da mesma ideia. E isso entristeceu-me, de quando em vez, porque genuinamente somos quem somos e penso que é uma alegria termos amigos como lares. E a leveza de conhecermos mundo através deles e de todos aqueles que são trazidos por eles. Porque amizade é partilhar. Eu partilho os meus amigos velhos com os meus amigos novos.
Quanto à paixão e ao amor, capítulos de um sabor diferente, necessariamente, não vou querer falar neste fim de ano. Não porque pertençam a um capítulo sagrado, nem tão pouco porque queira contornar assuntos, só porque estou indizível e porque tantas outras coisas me fizeram saber quem sou, neste ano.
True, always

Não sei se o meu alfabeto inteiro está cumprido nas minhas palavras. Não acredito que alguém possa ser apenas a leitura do que escreve. Somos inúmeros no escuro de nós. Às vezes tenho a sensação que o que me colam à imagem é redutor em relação ao que sou ou que eu sou, na verdade, uma totalidade que não oferece virtude ou coragem. No mais, sou fuga, ainda que para a frente. Sempre achei que o comentário é, tantas e tantas vezes, um delito de opinião. Por isso gosto tanto de arte e gosto tanto de duvidar do provável e do possível. Nunca saberei fazer poesia. Nunca saberei estar dentro sem estar um bocadinho de fora para apreciar a vista e me sentir confortável. Porque quando ouvi a expressão "cidadão do mundo", compreendi, de imediato, porque é para mim tão importante ver um igual a meu lado. Só se pode amar quando se respeita a diferença e se reconhece o ser humano, tão humano demais. Só dando asas, se cumpre o firme aceitar de que quem quiser estar connosco, fá-lo-á por vontade própria e não por circuntâncias adversas ou porque os dados foram viciados. Não vale a pena viciar o jogo, porque se arrisca a verdade das coisas. Quando digo humanidade e a forma como gosto de tudo quanto representa essa característica no meu sentir, acho que não compreendem. Não se traduz para a linguagem dos não-humanos, o que é trazer a miséria nos olhos e a boca do povo cerrada nos dentes. Queria dizer, à boa maneira de ti, Rutz, nunca poderei ser infeliz estando só. E que isso não tem nada, mas mesmo nada que ver, com o facto de a minha alma ser comunitária e de gostar de tocar nas pessoas. Queria um sinónimo de calor que dissesse o bastante que a palavra transporta. Queria descobrir a fórmula química que compõe um riso verdadeiro e talvez isso me fizesse chegar à palavra verdade. Com verdade, chego à palavra lealdade e fica tudo dito quanto ao muito que me preenche ter amigos que me extrapolam no sentido vago que é ter asas. Porque a Ritz Ficz está. Está. Só isso. Tanto nisso. Quando acordo de manhã, sem jeito para decretar leis, sem disposição sobre o tratado de coisas que estão mal no mundo, quero o silêncio. Preciso de. Por isso os que me conhecem sabem que estão bem comigo quando fazem uma viagem de carro e não precisamos de dizer nada (Rutz). Por isso sabem que todo o sujeito tem o seu lado lunar e que o meu surge quando a lua, ironicamente, se põe. Adoro as manhãs solares. E todas as que nascem em neblina. Creio que noite alguma terá esse poder de me sentir fazer viva. Mas porque respeito e acredito no ritmo do que amanhece, vou devagar pela manhã até me sentir bem para falar. Como quando sabemos que respeitamos as pessoas a partir do momento em que percebemos que não escondem: são, não fingem: são, não fazem frete: são, não são sacanas, são gente que tem amigos e que sabe que amizade e família são como caminhar de olhos fechados, a guiar-nos quando tudo o mais parece desabar. Preciso do espaço que o meu pensamento ocupa, porque o meu corpo não reclama espaço quando mais dele precisa e quando toca My Funny Valentine, Chet Baker, e um copo de vinho... sei que venho à superfície. Sou torcida pelo lado de dentro. Porque conquistar o meu respeito pode levar um segundo ou mil vidas. Porque como os meus cães, como na taça enquanto metem a mão lá dentro e brincam que vão tirar metade da ração. Porque o que me é dado, com verdade, aceitarei sem duvidar. Tudo aquilo que constitui excepção a esta regra, não quero sequer pensar em aceitar. Não nascemos com mapas que indiquem a direcção do tesouro, mas talvez por isso acredite tanto que só faz sentido chegarem cá, se sentirem semelhança no trato e no caminhar. Tudo na vida requer adivinhação. E quem não gosta de ser adivinhado. Sou bera para andar atrás. Fazer o filme do admirador. Tanta gente que admiro e que não quero conhecer. Nunca me interessou desmontar os brinquedos para ver como funcionavam, a magia esteve sempre do lado de fora. Não quero saber o mistério do que me põe alegre. Mas quero passar no alegre e no triste, no contentamento e na decepção, para saber a que sabem e vir à tona sabendo quem sou. Nunca admirei ninguém que fizesse coisas no recato. Às escondidas. Vivo na claridade (E vivendo-a, faz sentido partilhá-la, com quem lhe apeteça também um pedaço de mar e poucas respostas na palma da mão).E isso é, desde sempre, uma questão de princípio e porque não ousar arriscar a dizer: raça. Que mal tem em afirmar que sou firme em gostar do que gosto e que tenho duas ou três preferências na vida feitas por escolha de coração, sem qualquer rasgo de razão. Serei dura na queda, à boa maneira de C.B.. Do meu pai herdo muito mais do que aquilo que imagino. Um jeito de ficar sem graça explicando a elegância e o decoro, um ficar a sós no meio da multidão, saindo no meio da festa, e o gostar de gostar de determinadas coisas, isto é, fazer algumas escolhas apenas tendo por base o instinto e a convicção. Comunico com o meu pai com o olhar. E com o riso. E não deixo de comunicar nos dias que, como a minha mãe diz, "estou para amar": o contrário de amar, bem entendido. Sou forte pelo lado de fora. Mas não deixo de precisar que precisem. Às vezes, só quero descansar e respirar o ar. Gosto das coisas que me fazem sentir bem e tudo o que escapa, quero que me escape. Não há nada que me garanta que não mude de cidade quanto me faltar o ar. Nem nada que justifique fugir quando ainda estou em chamas. Mas nunca, em circunstância alguma, justificar a pureza e a alegria que tenho na autenticidade do meu sentir. Sou e estou, sem notas à margem ou glossários extra.
Vuelvo al sur

Damos de nós, o que mais falta nos faz.
(Fui pôr um tango a tocar porque precisava de sentir qualquer coisa forte a velar-me os sonhos)
Vagueamos nos sítios errantes e escutamos o que, provavelmente, nunca diríamos mas juramos que fazemos a mais positiva compreensão porque tendemos para o surrealismo e para ver cores onde elas não existem.
(Hoje preciso de qualquer coisa quente a arrastar-me os olhos para um sítio não habitado)
Sós, sós, sós, na noite e dia, e no entanto, o meu sorriso é a minha varanda sobre o mundo.
(Quase que fechei a porta para não ter afagos de consolação nem olhares de compaixão, se prometo alguma coisa, ao menos que me prometa a mim)
E que o meu olhar possa ser Tango, pelo menos, por hoje.
(Fui pôr um tango a tocar porque precisava de sentir qualquer coisa forte a velar-me os sonhos)
Vagueamos nos sítios errantes e escutamos o que, provavelmente, nunca diríamos mas juramos que fazemos a mais positiva compreensão porque tendemos para o surrealismo e para ver cores onde elas não existem.
(Hoje preciso de qualquer coisa quente a arrastar-me os olhos para um sítio não habitado)
Sós, sós, sós, na noite e dia, e no entanto, o meu sorriso é a minha varanda sobre o mundo.
(Quase que fechei a porta para não ter afagos de consolação nem olhares de compaixão, se prometo alguma coisa, ao menos que me prometa a mim)
E que o meu olhar possa ser Tango, pelo menos, por hoje.
Foto de Salvador Sabater em Olhares.com
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Arquivo do blogue
- julho 2010 (1)
- dezembro 2009 (1)
- novembro 2009 (5)
- outubro 2009 (3)
- setembro 2009 (3)
- agosto 2009 (1)
- julho 2009 (2)
- junho 2009 (9)
- maio 2009 (7)
- abril 2009 (12)
- março 2009 (18)
- fevereiro 2009 (15)
- janeiro 2009 (27)
- dezembro 2008 (11)
- novembro 2008 (27)
