Há dias de plena revolução na nossa superfície. Dias de informação a entrar p'la nossa cabeça num corredor de fogo e de repente já não ouvimos as vozes e tudo é uma ventania. Não gosto muito de vento porque me aturde os pensamentos, me ofusca os sons, me impede de abrir os olhos na medida de que gosto, me faz brotar lágrimas de passagem.
Trabalhar gostando é gigantesco. Infinito. Poderoso. Ganhamos dias em noites não pagas. Perdemos anos de vida em horários certos no pólo oposto. E não se trata de ser demasiado passional. Por motivos demasiado próximos, não me apetece falar claro. Antes dar piruetas com as palavras, atirar bolas ao ar e lançar setas na brancura da tranquilidade a que desço se fechar as portas, desligar o mundo e trazer-me por casa, junto das polaroids da casa de Arroios, da intensidade de um livro que se chama "Vigílias", da preciosidade que é conhecerem-nos bem e deixarem-nos a sós quando nos olham de relance e. E. E.
Vou mudar-me, fazer outra coisa profissionalmente falando, pisar nuvens ao desbarato. A força de um torpedo alavanca-me para sentir arrepios com determinadas sequências de palavras. A claridade dos sonhos eleva-me para a tranquilidade-mor que faz de mim uma terra onde às vezes corre vento.
Cidade do sol no último dia
Durmo na ignorância cálida que faz de mim uma mesa de bilhar. Há sempre alguém que me percorre e que encontra o seu destino num ponto mais além, num dos cantos que deixo em aberto.
Na itinerância calma de quem se sente menos só porque lhe apresentam Alexander Calder e de repente o meu circo existe e os trapézios são lugares seguros onde se balança a vida e se vê o mundo do sótão, sonho.
Quem me dera entrar na Cooperativa no próximo Natal e perder o tino entre papéis metálicos de todas as cores insinuando uma barriga respeitável do Pai Natal de sempre e um bigode castiço de quem tem uma noite só e milhões de prendas para entregar. E nunca mais me esquecer do modo como o brilho e a cor, a surpresa e o encanto, a luz e os chocolates estão na minha memória daquele sítio em todos os sítios.
A língua é um caminho sem atalhos, dir-te-ia se me tivesses perguntado e se não tivesse tão focada no sol a bater na relva e na cor do vinho sob o efeito da luz. Como se diz da incomunicabilidade que se deseja por nos sabermos mais como uma fronteira e menos como um destino.
As grandes surpresas da vida são feitas de coisas, pessoas e sentimentos surpreendentemente simples, alegoricamente básicos, assustadoramente quotidianos. Uma garrafa de vinho e relva. Um adorno para o peito. Uma caneta para escrever. Pão e leite.
Se tivesse uma cortina daquelas na sala, colocava a última folha do teu livro. A primeira da minha ida a Évora. As bungavílias em flor na entrada para o mar. A limpidez de tudo quanto não soube perder.
Dormir sobre este poema
A direcção do sangue
Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração
José Tolentino de Mendonça
Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real
A mancha ténue dos arbustos
indica o caminho para o regresso
que nunca há
o mar ficou de repente perto
sobre esta praia travámos lutas
para as quais só muito depois
encontramos um motivo
era à pedrada que nos defendíamos
do riso mais inocente
ou de um amor
Mas aquilo que nunca esquecemos
deixa de pertencer-nos e nem notamos
Estamos sós com a noite
para salvar um coração
José Tolentino de Mendonça
P de Paula
Há coisas que me acalmam. Ouvir falar espanhol baixinho. Parar em determinados momentos e imaginar que na minha alma corre o trailer de um filme que tem asas e desejo no título. Lembrar-me do dia em que caí num buraco junto à Gulbenkian com o meu pai.
Como se esquece pessoas sem esquecer o que nos faz únicos e que nos aproxima dos outros? Porque é que somos fatais até ao fundo e ligeirinhos à superfície e para esse cocktail danado é justamente aquilo que mais atrai as pessoas e mais as afasta?
Deveria haver um dispositivo qualquer para isso. Uma espécie de soul finder, uma espécie de luz na noite. Que sinalizasse os piegas corrompidos, como eu. Os melancólicos da treta, como eu. Os absurdos números primos, como eu. E já agora as pessoas que me acalmam sem falarem espanhol nem voarem sobre uma cidade. Quando estamos felizes, ficamos com calor. Quando desço ao Rossio, adquiro uma vontade louca de fazer conversa com um desconhecido que use um chapéu ousado. Quando vou aninhar-me no Tejo, nasce-me um desejo absoluto de frio porque o frio conforta e é ao menos real.
Tenho uma faca na liga psicosomática e um punhal entre dentes no cérebro e só me lembro de coisas muito estúpidas.
Vou deixar de trabalhar com uma pessoa que mudou a minha vida. Vou ouvir alguém que não oiço há 5 anos. Sou um bicho do mais patego que há e só digo tonterias porque sou forrada a sentimento por dentro e só tenho uma ou duas mudas de roupa para o meu exterior.
A (r) rifa na
Colori os olhos de verde porque adoro o castanho realçado. Abri o peito e respirei o amor que tenho pelas coisas que existem e pelas pessoas que se deixam amar todos os dias. Pousei a mão numa fotografia antiga sabendo que a noite é longa e o escuro e o claro são duas faces da mesma vontade.
As pálpebras fecham-se e o verde propaga a sua energia cósmica: visto verde para energizar, retemperar, viver a vida num dia. Verde panca, verde seco de elegância, verde escuro, verde claro, verde indefinido a saltar para outras cores.
Quanta distância há na distância de tanta gente a dois passos de nós? Quanta diferença faz sentirmos que somos queridos e não haver nada, digo nada, que nos consuma o tempo e nos roube a essência da alma?
Quanto de mim, só areia de praia e mar a chegar aos pés?
As pálpebras fecham-se e o verde propaga a sua energia cósmica: visto verde para energizar, retemperar, viver a vida num dia. Verde panca, verde seco de elegância, verde escuro, verde claro, verde indefinido a saltar para outras cores.
Quanta distância há na distância de tanta gente a dois passos de nós? Quanta diferença faz sentirmos que somos queridos e não haver nada, digo nada, que nos consuma o tempo e nos roube a essência da alma?
Quanto de mim, só areia de praia e mar a chegar aos pés?
O Rui
Vim aqui para escrever em quinta, na socapa, depressa, à laia do safanão nas letras que me estão na garganta e que também me dão abraços e me sufocam, as sacanas.
Venho aqui porque, de repente, me apeteceu dizer tudo. Sem abreviaturas, metáforas, eufemismos. Dizer tudo, dizendo nada porque sempre achamos uma forma de dar a volta ao texto por um conjunto de circunstâncias a que podia dar mil nomes.
Em 2004 deixei uma cidade. Que conheci em 1999. Num acaso improvável de um dia excessivamente quente. Deixei a cidade para trás. Deixei-a e não insisti porque tenho esta coisa de achar que as coisas se resolvem por si e que não posso carregar um peso demasiado pesado (passo o pleonasmo) para a pessoa com quem tenho de conviver todos os dias- eu - e porque sou incapaz de conviver com a probabilidade de as escolhas feitas por alguém de quem gosto terem sido, de alguma forma, propiciadas por mim.Por isso deixei a cidade, deixando outras coisas dentro dela, e um retrato de mim que não voltei a encontrar novamente. Desde então, erros atrás de erros, num ridículo-espetacularmente-absurdo, um circo móvel em que um eu amestrado vai rindo e saltando, soprando fogo, jogando bolas e sendo o palhaço-triste que ninguém vê no caminho para casa.
No meio do caminho, e porque o inesperado acontece e eu tenho a sorte cósmica dos típicos descrentes e dos fanáticos inabaláveis, no meio disto tudo, conheço gente, cruzo-me com Gente que faz a rota parecer fazer todo o sentido, sem a cidade que deixei para trás me ser tão rente.
O delicious-delight do meu amigo Quinta é um desses casos. De gente. Que me faz chorar sobre alguns textos que escreve e rir de cabeça para trás com a quantidade de ideias ridículas e idiotas que é capaz de proferir numa só frase porque é um iluminado. Pelo lado de dentro. Como aqueles ursos de peluche dos putos que se apertam na barriga e dão uma luz gira por debaixo do tecido. Mas tirando a parte do urso porque a ser um animal, o Rui seria, sei lá, um milhafre, uma gaivota ou qualquer coisa de semelhante. Tenho sorte por, no erro, ir acertando. Tenho sorte por te ter e falar de ti com o orgulho que me enche a boca sempre que o faço.
O Rui teve uma ideia genial. Descobriu depois, da pior maneira, que a ideia já andava no ar pela mão, cabeça do Alvim. O Alvim não tem uma parede de uma sala escrita pelos amigos (ou teve) com as dicas mais bárbaras e patéticas. O Alvim também não tem uma caixa com dias lá dentro numa voz de beijo. O Alvim não tem pancas de passar os dedos em tecidos finos nem comichões com coisas ridículas. Foda-se o Alvim, pá! Rui, que és nosso! Deli-delight
Venho aqui porque, de repente, me apeteceu dizer tudo. Sem abreviaturas, metáforas, eufemismos. Dizer tudo, dizendo nada porque sempre achamos uma forma de dar a volta ao texto por um conjunto de circunstâncias a que podia dar mil nomes.
Em 2004 deixei uma cidade. Que conheci em 1999. Num acaso improvável de um dia excessivamente quente. Deixei a cidade para trás. Deixei-a e não insisti porque tenho esta coisa de achar que as coisas se resolvem por si e que não posso carregar um peso demasiado pesado (passo o pleonasmo) para a pessoa com quem tenho de conviver todos os dias- eu - e porque sou incapaz de conviver com a probabilidade de as escolhas feitas por alguém de quem gosto terem sido, de alguma forma, propiciadas por mim.Por isso deixei a cidade, deixando outras coisas dentro dela, e um retrato de mim que não voltei a encontrar novamente. Desde então, erros atrás de erros, num ridículo-espetacularmente-absurdo, um circo móvel em que um eu amestrado vai rindo e saltando, soprando fogo, jogando bolas e sendo o palhaço-triste que ninguém vê no caminho para casa.
No meio do caminho, e porque o inesperado acontece e eu tenho a sorte cósmica dos típicos descrentes e dos fanáticos inabaláveis, no meio disto tudo, conheço gente, cruzo-me com Gente que faz a rota parecer fazer todo o sentido, sem a cidade que deixei para trás me ser tão rente.
O delicious-delight do meu amigo Quinta é um desses casos. De gente. Que me faz chorar sobre alguns textos que escreve e rir de cabeça para trás com a quantidade de ideias ridículas e idiotas que é capaz de proferir numa só frase porque é um iluminado. Pelo lado de dentro. Como aqueles ursos de peluche dos putos que se apertam na barriga e dão uma luz gira por debaixo do tecido. Mas tirando a parte do urso porque a ser um animal, o Rui seria, sei lá, um milhafre, uma gaivota ou qualquer coisa de semelhante. Tenho sorte por, no erro, ir acertando. Tenho sorte por te ter e falar de ti com o orgulho que me enche a boca sempre que o faço.
O Rui teve uma ideia genial. Descobriu depois, da pior maneira, que a ideia já andava no ar pela mão, cabeça do Alvim. O Alvim não tem uma parede de uma sala escrita pelos amigos (ou teve) com as dicas mais bárbaras e patéticas. O Alvim também não tem uma caixa com dias lá dentro numa voz de beijo. O Alvim não tem pancas de passar os dedos em tecidos finos nem comichões com coisas ridículas. Foda-se o Alvim, pá! Rui, que és nosso! Deli-delight
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