A minha nuvem predilecta

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo ou um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

Ramos Rosa, o delicado escultor de sonhos
O Teu Rosto, Dezembro 2004

Caravelar

Meu espírito possante
não quer alocar
meu corpo frágil.

Na roda do levante,
peito aberto e adiante,
a mente,
mente:
presa fácil, embora ágil.

A mente posta em sossego,
na distância confortável do aconchego,
diz não saber como refrear:
a eterna saga dos românticos,
que lêem nos atlânticos:
- o coração à mão de um manivela.

Caravela, caravela,
quantos querem ir já nela:
corpo-amor a navegar.

Porque sonho com o texto amiúde

Esta noite tive uma alucinação de gente:

sonhei com Luíz Pacheco no sopé da cama,
vociferando pergaminhos alheios,
depurando as descrições cruas das palavras
que utilizamos para nos referir às coisas
que não encontram paralelo senão,
na nudez da palavra que melhor o exprime
e que vem a ser,
justamente,
a sua designação técnica.

Se me ouvisse-do alto da sua coagitação despudorada-
diria que nem a poesia foi feita para ser
tão descentrada e moralistamente desagregada
da carne, do lume e da pureza
de chamarmos as coisas pelos nomes,
com o tacto, a leveza e a elegância
a piscarem o olho, de novo
à boca da mão que assim o escreve:
porquanto posso ser íntima
na clara e límpida devassidão comunitária* do amor.

*alusão a uma das mais intensas e belas obras de Pacheco

Silêncio

Pudera eu escrever alto,
de cada vez que emudeço,
perder o norte onde pertenço,
afagar o todo em sobressalto.

fifty

quero a alquimia das vozes que me guiam dentro do dia mostrando-me que o sol e a água conjuram para habitar os sulcos feitos no meu destino-ave eternamente leve para ascender à macieza das nuvens e sobrevir à profundeza de uma ferida aberta na metade bicho

forte

cigarros que não fumei. buganvílias que não contrastaram com a cor do meu cabelo. a cor da areia num dia de praia estafado, areia essa que não trouxe para casa, com medo que se esgotasse também o fundo do mar e, com ele, o chão onde mergulhas e voltas à tona para me puxar para o fundo, lá de onde os meus olhos saem salgados sem chorar e os meus lábios roxos sem os pintar artificialmente. os tons vivos das histórias que seriam de comer porque há tantos e tão bonitos molhos de saladas e pastas para empratar qualquer coisa que se faz para alguém almoçar, jantar, cear- no intervalo de nós. papel gasto e corroído que nunca chegou a sê-lo porque, de verdade, na verdade, verdadeiramente, gostamos de quem gostamos e isso é um dado de sorte ou azar. e o jogo nunca foi o meu forte.

discricionário

O disco a tocar e o rastilho para a metade dele, sombra. Subindo as escadas, um fantasma do passado-quase-perfeito produz um flash no seu estômago. A partir desse momento, lembra-se de olhar em frente e perder os sentidos. Too sensitive for mirrors. They produce a rare contradition between light and darkness, hell and heaven, to be or to fake. It always will be so perfect connected with all that he knew, right from the beggining.
(O português é um território discricionário onde vezes demais caímos a pique)
Por isso alfabetizar noutra língua, perder consoantes entre o palato e o nariz, para treinar dizer saudade daquela noite em que me perdi a caminho de ti, num dialecto perfeitamente disparato e irreconhecível. O que dói, na dor, é o facto de ela ser tão pouco cheia de si, tão assustadoramente insegura, tão chocantemente volátil. Feita cabra, atravessa territórios conflituantes, permeáveis, gelatinosos e tende a querer tornar-se outra coisa que não essa rigorosa, precisa, amarga dor entre o estômago e o ventre.
(Ter um milhão de coisas para dizer a dançar e logo cair a pique)
Pensa nas putas tristes de Marquez, no gin tónico em cima da mesa e no tanto que há de vir no devir de uma decadente noite de entrega sem paixão.
(To the whore who took my poems- e assim começa um poema de Bukowski).