Cidade do sol no último dia

Durmo na ignorância cálida que faz de mim uma mesa de bilhar. Há sempre alguém que me percorre e que encontra o seu destino num ponto mais além, num dos cantos que deixo em aberto.

Na itinerância calma de quem se sente menos só porque lhe apresentam Alexander Calder e de repente o meu circo existe e os trapézios são lugares seguros onde se balança a vida e se vê o mundo do sótão, sonho.

Quem me dera entrar na Cooperativa no próximo Natal e perder o tino entre papéis metálicos de todas as cores insinuando uma barriga respeitável do Pai Natal de sempre e um bigode castiço de quem tem uma noite só e milhões de prendas para entregar. E nunca mais me esquecer do modo como o brilho e a cor, a surpresa e o encanto, a luz e os chocolates estão na minha memória daquele sítio em todos os sítios.

A língua é um caminho sem atalhos, dir-te-ia se me tivesses perguntado e se não tivesse tão focada no sol a bater na relva e na cor do vinho sob o efeito da luz. Como se diz da incomunicabilidade que se deseja por nos sabermos mais como uma fronteira e menos como um destino.

 As grandes surpresas da vida são feitas de coisas, pessoas e sentimentos surpreendentemente simples, alegoricamente básicos, assustadoramente quotidianos. Uma garrafa de vinho e relva. Um adorno para o peito. Uma caneta para escrever. Pão e leite.

Se tivesse uma cortina daquelas na sala, colocava a última folha do teu livro. A primeira da minha ida a Évora. As bungavílias em flor na entrada para o mar. A limpidez de tudo quanto não soube perder.


Das coisas


Dormir sobre este poema

A direcção do sangue


Quando se viaja sozinho

pelas imagens que perduram

as evocações ganham um modo tão real

A mancha ténue dos arbustos

indica o caminho para o regresso

que nunca há

o mar ficou de repente perto

sobre esta praia travámos lutas

para as quais só muito depois

encontramos um motivo

era à pedrada que nos defendíamos

do riso mais inocente

ou de um amor

Mas aquilo que nunca esquecemos

deixa de pertencer-nos e nem notamos

Estamos sós com a noite

para salvar um coração





José Tolentino de Mendonça

P de Paula

Há coisas que me acalmam. Ouvir falar espanhol baixinho. Parar em determinados momentos e imaginar que na minha alma corre o trailer de um filme que tem asas e desejo no título. Lembrar-me do dia em que caí num buraco junto à Gulbenkian com o meu pai.

Como se esquece pessoas sem esquecer o que nos faz únicos e que nos aproxima dos outros? Porque é que somos fatais até ao fundo e ligeirinhos à superfície e para esse cocktail danado é justamente aquilo que mais atrai as pessoas e mais as afasta?
Deveria haver um dispositivo qualquer para isso. Uma espécie de soul finder, uma espécie de luz na noite. Que sinalizasse os piegas corrompidos, como eu. Os melancólicos da treta, como eu. Os absurdos números primos, como eu. E já agora as pessoas que me acalmam sem falarem espanhol nem voarem sobre uma cidade. Quando estamos felizes, ficamos com calor. Quando desço ao Rossio, adquiro uma vontade louca de fazer conversa com um desconhecido que use um chapéu ousado. Quando vou aninhar-me no Tejo, nasce-me um desejo absoluto de frio porque o frio conforta e é ao menos real.

Tenho uma faca na liga psicosomática e um punhal entre dentes no cérebro e só me lembro de coisas muito estúpidas.

Vou deixar de trabalhar com uma pessoa que mudou a minha vida. Vou ouvir alguém que não oiço há 5 anos. Sou um bicho do mais patego que há e só digo tonterias porque sou forrada a sentimento por dentro e só tenho uma ou duas mudas de roupa para o meu exterior.

O mundo é mais puro, mais doido e infinitamente mais feliz contigo dentro, Paula. Vá e adoro gente de caracóis e óculos coloridos e o resto do tratado sentimental é só para ti, num gabinete perto de ti.









A (r) rifa na

Colori os olhos de verde porque adoro o castanho realçado. Abri o peito e respirei o amor que tenho pelas coisas que existem e pelas pessoas que se deixam amar todos os dias. Pousei a mão numa fotografia antiga sabendo que a noite é longa e o escuro e o claro são duas faces da mesma vontade.

As pálpebras fecham-se e o verde propaga a sua energia cósmica: visto verde para energizar, retemperar, viver a vida num dia. Verde panca, verde seco de elegância, verde escuro, verde claro, verde indefinido a saltar para outras cores.

Quanta distância há na distância de tanta gente a dois passos de nós? Quanta diferença faz sentirmos que somos queridos e não haver nada, digo nada, que nos consuma o tempo e nos roube a essência da alma?

Quanto de mim, só areia de praia e mar a chegar aos pés?

O Rui

Vim aqui para escrever em quinta, na socapa, depressa, à laia do safanão nas letras que me estão na garganta e que também me dão abraços e me sufocam, as sacanas.

Venho aqui porque, de repente, me apeteceu dizer tudo. Sem abreviaturas, metáforas, eufemismos. Dizer tudo, dizendo nada porque sempre achamos uma forma de dar a volta ao texto por um conjunto de circunstâncias a que podia dar mil nomes.

Em 2004 deixei uma cidade. Que conheci em 1999. Num acaso improvável de um dia excessivamente quente. Deixei a cidade para trás. Deixei-a e não insisti porque tenho esta coisa de achar que as coisas se resolvem por si e que não posso carregar um peso demasiado pesado (passo o pleonasmo) para a pessoa com quem tenho de conviver todos os dias- eu - e porque sou incapaz de conviver com a probabilidade de as escolhas feitas por alguém de quem gosto terem sido, de alguma forma, propiciadas por mim.Por isso deixei a cidade, deixando outras coisas dentro dela, e um retrato de mim que não voltei a encontrar novamente. Desde então, erros atrás de erros, num ridículo-espetacularmente-absurdo, um circo móvel em que um eu amestrado vai rindo e saltando, soprando fogo, jogando bolas e sendo o palhaço-triste que ninguém vê no caminho para casa.

No meio do caminho, e porque o inesperado acontece e eu tenho a sorte cósmica dos típicos descrentes e dos fanáticos inabaláveis, no meio disto tudo, conheço gente, cruzo-me com Gente que faz a rota parecer fazer todo o sentido, sem a cidade que deixei para trás me ser tão rente.

O delicious-delight do meu amigo Quinta é um desses casos. De gente. Que me faz chorar sobre alguns textos que escreve e rir de cabeça para trás com a quantidade de ideias ridículas e idiotas que é capaz de proferir numa só frase porque é um iluminado. Pelo lado de dentro. Como aqueles ursos de peluche dos putos que se apertam na barriga e dão uma luz gira por debaixo do tecido. Mas tirando a parte do urso porque a ser um animal, o Rui seria, sei lá, um milhafre, uma gaivota ou qualquer coisa de semelhante. Tenho sorte por, no erro, ir acertando. Tenho sorte por te ter e falar de ti com o orgulho que me enche a boca sempre que o faço.

O Rui teve uma ideia genial. Descobriu depois, da pior maneira, que a ideia já andava no ar pela mão, cabeça do Alvim. O Alvim não tem uma parede de uma sala escrita pelos amigos (ou teve) com as dicas mais bárbaras e patéticas. O Alvim também não tem uma caixa com dias lá dentro numa voz de beijo. O Alvim não tem pancas de passar os dedos em tecidos finos nem comichões com coisas ridículas. Foda-se o Alvim, pá! Rui, que és nosso! Deli-delight

Luz.ir*

Registo





Ao entrar, enquanto tentava prestar atenção à conversa dela e aos trejeitos da francesa do outro lado do balcão, que fala com as sobrancelhas e com as tripas de fora ao redor dos olhos, algo numa mesa em viés lhe roubava a atenção. Um rosto diferente desse que apontou num Moleskine velho e riscado com variedades mil que elencavam as dez imagens de que gostaria de se lembrar, caso a vida lhe resgatasse o tino e a temperança lhe roubasse, um dia, o ar leve e fluido- como todas as roupas de casa que usa fora de portas.



- A que saberá na pele a rotina de um dia após o outro- as palavras premontório- tu em jeito de farol, vestido dos dias que passam?



Qualquer coisa nos gestos, no jeito de contar histórias com as mãos, enquanto fala, no desalinho de um cabelo que não é vertical por convicção, uma espécie de esparguete que entra no tacho e no calor se torce e retorce, uma ondulação que ainda assim não chega para um mar revolto. Nem liso, nem encaracolado- seu, figurativo- um traço mais no conjunto sempre distinto face aos demais.



O mesmo tom de pele. O mesmo ar de nuvens. Temperamental- sem que a superfície possa dizê-lo. Um mundo dentro do mundo- e ela perdida a adivinhar o - je ne sais quoi - que conquista, inebria, excita a curiosidade e repele toda e qualquer tentativa de um raciocínio simples, quanto mais o balbuciar de um simples:



"Sim, estou bem."



"Não. Nem por sombras me aguento."



Séraphine, Saravah, Éric- como dizer que a arte nos salva? Que a música nos resgata? Que a composição- a criação- nos inflama? E como ainda acrescentar que nos apetece descansar, seguros, certos, confiantes, esperançados- no leito dos amores à deriva, dos projectos frustrados, dos planos adiados, de um dia apenas a seguir ao outro?



Como ser um sonho e voltar a entrar por uma casa dentro- e do outro lado, após quilómetros de estrada- nos receber, em casa, um sorriso?