Do que vi

Reconheço-me na austeridade, na medida do perfeccionismo e nalgum pudor perante as coisas e as acções. E guardo, o que ele escreveu: o essencial é que eu me sinto de tango. Um pouco de Portugal, outro do mundo.

O verdadeiro talento

Tenho verdadeiro talento para visitar cidades quando elas estão em festa por um qualquer motivo. Foi assim em B., assim em C., assim em B. novamente, e podia continuar o abecedário que rima com dromedário e luminário e assim continuava numa de fazer rimar palavras sem coincidência nenhuma que as salve.
Acho que durante o sono se produz qualquer mecanismo muito estranho na minha cabeça de vento e eu consigo oscilar, com uma perna às costas, entre o desalento e a pura inocência de acreditar que está tudo para chegar, qual veleiro branco num porto de brisa de mar.
Admiro as pessoas que escrevem depois de jantar ou à beirinha das 7/8/9 horas da noite. Procuro entender o que é isso de escrita-no-meio-da-vida-mundana como uma parte a mais do corpo: eu sei lá, um braço, uma perna, uma orelha ou mesmo a epiglote, lá em cima, a badalar.
Procuro vê-las, na bancada da mesa da cozinha, com a cabeça apoiada no braço esquerdo e com uma maçã verde ao lado. Recostados no sofá, sentados com as pernas dispostas como num jogo do Mikado. No chão, em cima de almofadas com o corpo destratado, engelhado, ou ao comprido, numa pose de "Aqui cheguei. Aqui me têm". Vestidas das cores dos pijamas que ainda não são bem de Verão mas que já não se compadecem com os tecidos mascavados de Inverno.
Daqui a uns dias, haverá sol à hora em que escrevem e suspeito que as virtudes de um chá fresco de menta ao fim da tarde ou um martini rosso a assobiar à noite farão as delícias das palavras no desktop.
Adoro quando, no meio de um post inacabado, alguém me telefona e eu tagarelo sem demoras. Combino o programa das festas, comento sem acertar o evento que está a ter lugar junto ao Tejo, atiro duas ou três frases des(feitas) para o ar e sigo, fina e dócil, para acabar de reescrever um Sábado de pé descalço.
Ela sabe que já soube (de)mais,
ela sabe se entreter com o que foi será
ela julga sempre saber a diferença
entre o Saab e os que lhes roubam os ais
Quando conversa, desmembrada,
sobre os amados clássicos
jura que sabe destilar todo o prazer,
de quem desliza de carris por debaixo deles,
só para descobrir o que os pára,
o que os faz assim sofrer.
Ela é assim,
gosta de mecânica,
e até entoa uma ou outra quadra satânica,
o que ela não faz para sugar uma rima aqui, outra acolá,
esgrimir homógrafas, eu sei lá
ela até diz que aprecia botânica,
ela até promete ter um quintalzinho,
para ver sambar carmim com jasmim,
finório com osório,
super-frutas com narco-birutas,
tudo, tudo, para que no fim,
há um belo final (zinho).

Noiserv ou o Encantamento

Quero ter sons de sonhos desta cor. E acordar, estremunhada, durante a noite e ter a certeza que sonho acordada, sem prazo de validade. E que sou una na fantasia e no delírio e que mais tarde amanheço como dantes.

Almost Spring in my head

Acumulo chapéus. Para dias sorumbáticos. Em que não cabem todos os dedos da mão para dizer quantas vezes repito a ignorância. Lembro-me de uma canção que diz: Sou mediático. Às vezes, problemático e o meu vício é aquático. E penso viver num outro estado de espírito ou estádio de alma. Disse estádio, não estado. De desenvolvimento. A Irlanda é verde e tem pessoas redondas e muita cidra: era o que diria se escrevesse uma composição e tivesse, de repente, menos anos do que efectivamente tenho. Há dias em que não tenho piadinha nenhuma ou como alguém diz a rir: meto-me nojo. Conheço gente bomboca. Daquelas que se abrem e se sorvem. E guess what? Já deixei de lado aquela coisa, aquele sinal indistinto de rigor e protecção, com os sinais igualmente indistintos do que me faz feliz. Escrevi tanto até chegar aqui que tenho sede. E tanta energia por ter voltado a correr outra vez.
Tenho um verde dourado. E um roxo demais. Um verde xadrez. E um branco-sujo. Um preto vilão. Para enfeitar a minha imaginação.
Shut your eyes and sing to me.*
*Snow Patrol

The things that I cannot touch because they are too near

Um frémito de chuva,
um altar feito a propósito
e ainda não sei o que fazer com o que b-a-t-e
indistinto no corpo.
S-a-u-d-a-d-e-s
dos lances de Verão
e de ficar de pé na água
à espera que me aconteça.

Sei que tenho uma ilha
no lugar do
coração
e Cummings já fez da sintaxe
um caminho para nadar de costas:
todo o céu azul na distância confortável
incomensurável
que me separa do céu.

Há letras cruas,
letras de vinho e de gin
espalhado em mesas vazias
que me seduzem
fatilíssimamente,
e o resto do quadro
sou eu a recolher,
peça por peça,
o meu corpo no chão.

Está a ser

Talvez nem tenha nome.
Anunciado só pelo frémito
da folhagem.
O riso invisível, o grito
de um pássaro, o escuro
da voz. certa doçura,
certa violência.
O espesso, volúvel
teido da noite agora a roçar
o corpo da água. E por fim
a muita lenta paixão
do fogo, sufocada.
Era o Verão.

Eugénio de Andrade, O sal da língua
(num livro emprestado e devorado)

Aranhiço

"Eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço."

António Franco Alexandre, Aracne