Dois parágrafos

Nos meus dias alegres tristes, um riso lágrima incandesce a minha alma corpo. Quando desço, decidida, a rua para ver passar pessoas e com elas imaginárias outras, em suas cabeças, um turbilhão de emoções me assaltam. Porque me espanto e emudeço ruidosamente. E escureço na claridade própria de quem vem à tona quando lê alguma coisa que lhe dói instintivamente e a faz sorrir pelo prazer de ler em linhas alheias. Porque o prazer e a dor são, tantas vezes, alguma coisa de muito indistinto.

Quando penso em episódios demasiado pessoais para serem escritos, oiço música e espero-me no papel. Vejo os meus dedos vogarem no espaço nu, soprando formas, articulando sombras e explorando o território de caça das nostalgias- música mais profundas. Na raíz de tudo quanto transporto através da pele há-de estar qualquer coisa que ainda e sempre se surpreende em arrepio. Quando suspendo as palavras por achar que são desnecessárias e olho a paisagem, faço pause no mundo e floreio os pensamentos menos óbvios. Tenho kilómetros de caminho dentro dos meus braços e símbolos vários para significar tudo quanto cabe neste coração de bicho.

Se este mundo fosse feito para (eu) ser doce

Corpo. Corpo. Corpo. Corpo. Corpo. Corpo. Corpo. Corpo. E com estas vá lá vão 20 e estamos definitivamente acordados quanto ao facto de dizer corpo vezes sem fim.
Teach me. Teach me. Teach me. Como viver sem perder a bestialidade. De dizer coisas feias a um ouvido bonito porque mesmo zangada posso ainda ser. Posso ainda dizer. Coisas que para ti façam sentido.
Demasiado ruído à volta da minha cintura. Porque demasiadas pessoas esperando por mim numa esquina impossível no meu percurso de vida. Como posso ser outra? Como posso desvendar-me sem mostrar a ínfima parte de que sou feita e que quase se traduz na frase: let's go outside. Hoje, num bar de bairro li uns olhos profundos em pleno mar. E é só isso.
E num remix de Caeiro e de Simões, este podia ser um poema só:
"Dança comigo a primeira valsa da Primavera: dança sem sonhos, esquece as promessas, ninguém nos espera. Eu nunca guardei rebanhos. Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor. Conhece o vento e o sol. E anda pela mão das Estações. A seguir e a olhar. Já enchi os dias de lutas vazias: estou gasto, cansado, dormente. Toda a paz da Natureza sem gente. Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr de sol. Para a nossa imaginação. Quando esfria no fundo da planície. E se sente a noite entrada. Como uma borboleta pela janela. Fala comigo na palavra falsa da fantasia: chovem amigos na festa da praça do meio dia. É certo que as flores parecem maiores que toda a virtude do mundo: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda me sinto profundo. Com um ruído de chocalhos. Para além da curva da estrada. Os meus pensamentos são contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes. Porque, se o não soubesse. Em vez de serem contentes e tristes. Seriam alegres e contentes. Se este mundo fosse feito para ser doce eu seria doce fosse eu quem fosse. Foge comigo na última volta da maratona, nada comigo num lago indeciso de metadona. Já deixei as asas na cave da casa e as chaves no fundo do mar: com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar. Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho. E se desejo às vezes. Por imaginar, ser cordeirinho (Ou ser o rebanho todo. Para andar espalhado por toda a encosta. A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo). É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol. Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz. E corre um silêncio pela erva toda."

Repeat after me

Sinceramente não sei o que gosto nas citações. O facto de pouco me rever nelas ou colarem-se-me à pele e eu parecer, de repente, um embrulho todo aperaltado. E num dia escrevo coisas de bradar aos céus e penso quem terá entrado, furtivamente, no meu computador e terá escrito tudo isto?
Hoje, fazendo o percurso Campo de Ourique- Rato, bem cedo pela manhã, não me lembrei das previsões. Nem sequer de tudo quanto escrevi para aquela pessoa, num jeito até bem despropositado, tendo em conta que as aliterações e a música formada pelas palavras que escreve são íntimas e pessoais e talvez eu leia mais do que viva. Ou ao contrário, como gostava de nos dizer o Zinko. Gosto de por o "o" a seguir ao nome, para ficar tudo certo com aquele estilo de personagem de banda desenhada.
E depois, leio coisas que me assaltam e que me remetem para uma dezena de pessoas que não se cruzaram, não se conhecem, mas que me surgem na vista da memória, como quando tenho gripe por andar com o pescoço descoberto.
Atravessando o Jardim da Estrela, lembrei-me do Nique, também ele personagem de banda desenhada, que nunca soube bem porque é que eu lia Flaubert na altura em que nos conhecemos e que sempre gostou dos meus textos mais pirosos. E pirosos para não dizer piolhosos, como diz alguém de quem gosto. E da palavra leve.
Já no metro, lembrei-me da elegância da não resposta. Tenho esta coisa de admirar quem está por bem. E é-me difícil não perdoar o silêncio. E, por outro lado, sei que existe um mundo todo para o acolher e isso descansa-me.
Hoje li dois textos muito bons. E ainda choro com eles. E não me chamo Madalena. Ou Ema, nome de que o meu pai muito gosta porque nas palavras cruzadas, ele não falha. E Ema, indubitavelmente, é uma ave corredora.
Quando ele falha sistematicamente, eu ponho-me a fazer palavras cruzadas. E não sei o que procuro do outro lado. Nem ele.
Não sei porque me soube bem ouvir o refrão da música que pus no post anterior. Porto seguro? Ou a periclitante sensação de andar no arame?
Hoje, depois de algum tempo a não andar de transportes públicos, respirei. E a talha do detalhe do pormenor daquele jeito particular de cada coisa no seu sítio e o modo próprio de ter tempo para olhar e perdê-lo (ao olhar) em todos os pontos de luz... deu-me corpo.
Acho que digo corpo vezes demais.
E acho que acho que acho que sou um instante repetido.

Peregrino

"Sou peregrino
querendo encontrar
porto seguro
caminho, carinho
nas águas do mar"
De uma cantata cool num braço prateado

Eu

"Eu adoro todas as coisas. E o meu coração é um albergue aberto toda a noite."


De um heterónimo, homónimo de alguém

Caos calmo

Caos calmo. É o título de um filme que vi e a melhor definição de todos os tempos. A Rutz chamou-me a atenção para o caso e eu senti imediatamente a pulsão. Antes, tinhamos ido espreitar o Bardem e toda a poderosa e maravilhosa amplitude deste filme. Saio das salas de cinema a flutuar e pouco mais tem de ser dito quando se vem assim, certa de que o se diz tem pouca importância.
Antes do filme, andámos a vaguear por uma mercearia (estabelecimentos que fazem as minhas delícias e da minha conviva!) e deparamo-nos com ele. Com aquele jeito de entoar as palavras como se cantasse, apenas com um toque levemente artificial, no final.
Aproximei-me enquanto ele escolhia uns bombons Godiva. E, ao olhá-lo, fiquei sem chão. E ganhei o dia, todos os míseros dias da minha vida, nesse instante mudo.
Enquanto conversámos, olhei os seus olhos doces e profundos e a sua solidão na montra. Disse-me que está todos os dias nos sinais luminosos ao pé do Monumental porque se sente sozinho. E, por isso, constrói uma ponte imaginária e sorri e acena porque se sente infinitamente mais feliz assim. E eu tive de o tocar. Ao de leve, apesar de tudo, no braço. Não quis impor a minha presença ou a minha proximidade, mas não resisti a tocar-lhe, como se fosse possível com esse pequeno gesto, afagar aquele sorriso, acariciar aquele calor e repartir o sal. Como se lhe pudesse aquecer a alma.
Apeteceu-me ficar no seu sítio imaculado, ao seu lado. E depois ir ao cinema, como sei que ele gosta de fazer, aos domingos. Apeteceu-me partir com ele por dentro do céu e espreitar o algodão das nuvens. E trincar gotas de água em dias de chuva, como o de hoje. Usar uns óculos como os dele e apoiar a minha cabeça no seu ombro de rei da finitude e da beleza. Apeteceu-me falar-lhe baixinho e ser o doce dos chocolates de que tanto gosta. Apeteceu-me ser tristeza só e desvendá-lo com um olhar igualmente só. E escorregar frases patéticas e dizer trechos de filmes muito ridículos só para ver o seu sorriso no meu. E, sobretudo apeteceu dizer-me que a loucura que lhe colam à pele reveste um homem bom, suave e lúcido como poucos.
Ao virar da esquina, e ao deixar para trás os bombons Godiva e aquele sublime trejeito de riso, apeteceu-me chorar muito. Um choro compulsivo, sem medida nem sombra, mas lambi todas as lágrimas que desceram pela minha face, na certeza de que o amo e tudo aquilo que ele significa. Sai para a rua, para o calor. E oferece calor, sem garantia de lume.
João Manuel Serra. Ou Tio João, como é conhecido. Com mãos de 20 anos, como me disse a minha querida irmã torta.
E num rompante, lembrei-me dela. E de mim, junto a ela, há tantos anos atrás. Aqueles olhos azuis de navegação segura. E quão natural foi, para mim, vê-la envelhecer. Quis abraçá-la toda mas sorri apenas quando voltei a tocar naquele tecido fino que me lembra a presença dela e regozijei-me nisso.
Sou infinitamente feliz por viver com ela, em mim. E por todas as vidas que têm cruzado a minha vida nos últimos tempos. E toda a música que tenho ouvido nas palmas das mãos.
How can life be so fucking sweet and a hell of mercy too?
*Um beijo simples à minha pessoa de veludo, minha homónima, que tantas e tantas vezes, me levou a passar junto dele, para lhe dizermos adeus e mandar beijinhos.

B