Caos calmo

Caos calmo. É o título de um filme que vi e a melhor definição de todos os tempos. A Rutz chamou-me a atenção para o caso e eu senti imediatamente a pulsão. Antes, tinhamos ido espreitar o Bardem e toda a poderosa e maravilhosa amplitude deste filme. Saio das salas de cinema a flutuar e pouco mais tem de ser dito quando se vem assim, certa de que o se diz tem pouca importância.
Antes do filme, andámos a vaguear por uma mercearia (estabelecimentos que fazem as minhas delícias e da minha conviva!) e deparamo-nos com ele. Com aquele jeito de entoar as palavras como se cantasse, apenas com um toque levemente artificial, no final.
Aproximei-me enquanto ele escolhia uns bombons Godiva. E, ao olhá-lo, fiquei sem chão. E ganhei o dia, todos os míseros dias da minha vida, nesse instante mudo.
Enquanto conversámos, olhei os seus olhos doces e profundos e a sua solidão na montra. Disse-me que está todos os dias nos sinais luminosos ao pé do Monumental porque se sente sozinho. E, por isso, constrói uma ponte imaginária e sorri e acena porque se sente infinitamente mais feliz assim. E eu tive de o tocar. Ao de leve, apesar de tudo, no braço. Não quis impor a minha presença ou a minha proximidade, mas não resisti a tocar-lhe, como se fosse possível com esse pequeno gesto, afagar aquele sorriso, acariciar aquele calor e repartir o sal. Como se lhe pudesse aquecer a alma.
Apeteceu-me ficar no seu sítio imaculado, ao seu lado. E depois ir ao cinema, como sei que ele gosta de fazer, aos domingos. Apeteceu-me partir com ele por dentro do céu e espreitar o algodão das nuvens. E trincar gotas de água em dias de chuva, como o de hoje. Usar uns óculos como os dele e apoiar a minha cabeça no seu ombro de rei da finitude e da beleza. Apeteceu-me falar-lhe baixinho e ser o doce dos chocolates de que tanto gosta. Apeteceu-me ser tristeza só e desvendá-lo com um olhar igualmente só. E escorregar frases patéticas e dizer trechos de filmes muito ridículos só para ver o seu sorriso no meu. E, sobretudo apeteceu dizer-me que a loucura que lhe colam à pele reveste um homem bom, suave e lúcido como poucos.
Ao virar da esquina, e ao deixar para trás os bombons Godiva e aquele sublime trejeito de riso, apeteceu-me chorar muito. Um choro compulsivo, sem medida nem sombra, mas lambi todas as lágrimas que desceram pela minha face, na certeza de que o amo e tudo aquilo que ele significa. Sai para a rua, para o calor. E oferece calor, sem garantia de lume.
João Manuel Serra. Ou Tio João, como é conhecido. Com mãos de 20 anos, como me disse a minha querida irmã torta.
E num rompante, lembrei-me dela. E de mim, junto a ela, há tantos anos atrás. Aqueles olhos azuis de navegação segura. E quão natural foi, para mim, vê-la envelhecer. Quis abraçá-la toda mas sorri apenas quando voltei a tocar naquele tecido fino que me lembra a presença dela e regozijei-me nisso.
Sou infinitamente feliz por viver com ela, em mim. E por todas as vidas que têm cruzado a minha vida nos últimos tempos. E toda a música que tenho ouvido nas palmas das mãos.
How can life be so fucking sweet and a hell of mercy too?
*Um beijo simples à minha pessoa de veludo, minha homónima, que tantas e tantas vezes, me levou a passar junto dele, para lhe dizermos adeus e mandar beijinhos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Adorava presenciar essa pequena (grande) experiência. Cada vez q passamos naquele local,àquela hora transporto-me para o mundo dele. E adoro a simplicidade do seu gesto.Ao dizer-lhe adeus dou-lhe um pouco de mundo humano (retribuindo-lhe o gesto),mas ele dá-me muito mais.É grande,muito grande. Ter a coragem de dar um sorriso a qualquer desconhecido que lhe passe a frente,só porque o faz feliz...
Devia haver mais gente com um coração assim.Continuo a sonhar,pode ser que entretanto mais gente desperte a consciência e veja como é tão simples ser feliz, mesmo que esteja sozinho.
P.S. Ainda tou à espera da foto,invejosa!!

Beijo grande
Ritz