Estava à espera que ele nascesse para poder partilhar este pedaço de céu.
Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse
Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou
Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
Letra de SG
Cássia revisited
Um dia,
ao dizer
um segredo,
teve medo,
da poesia.
De noite,
ao ver
cinema,
teve também pena,
de não entrar em cena,
e beijar a maresia.
Empunho a espada.
Lanço-me à guerra.
Com o mais doce que tenho.
Olho o retrato
da imagem na lapela,
leio-me nas causas perdidas dela,
sem ser santa,
nem lhe vestir o manto.
Solto o cabelo.
Afloro o riso.
Com o mais terno que possuo.
Miro a viagem
e a queda inexorável
para as batalhas perdidas,
quando é que eu vou,
não querer ser vertigem,
não procurar a origem
de tudo quanto reluz,
no oposto de mim.
ao dizer
um segredo,
teve medo,
da poesia.
De noite,
ao ver
cinema,
teve também pena,
de não entrar em cena,
e beijar a maresia.
Empunho a espada.
Lanço-me à guerra.
Com o mais doce que tenho.
Olho o retrato
da imagem na lapela,
leio-me nas causas perdidas dela,
sem ser santa,
nem lhe vestir o manto.
Solto o cabelo.
Afloro o riso.
Com o mais terno que possuo.
Miro a viagem
e a queda inexorável
para as batalhas perdidas,
quando é que eu vou,
não querer ser vertigem,
não procurar a origem
de tudo quanto reluz,
no oposto de mim.
Soletrar
O meu rosto
não tem coração,
dentro,
chego sempre tarde
parto sempre triste,
e o mais, sou,
em riste.
O meu útero
não tem oração,
ao centro,
regresso sempre cálida,
retempero sempre lânguida,
e o menos, estou,
em lâmina.
não tem coração,
dentro,
chego sempre tarde
parto sempre triste,
e o mais, sou,
em riste.
O meu útero
não tem oração,
ao centro,
regresso sempre cálida,
retempero sempre lânguida,
e o menos, estou,
em lâmina.
Pus todas as as coisas do sal e do sangue da vida junto ao mar.
Enxaguei as estrelas e o mundo que cabe na palma da minha mão aberta.
Tentei, em vão, respirá-las em fogo e vê-las a arder no fundo, exangues.
Tirei um retrato ao desejo e planeei uma réplica de onda, à medida dos meus braços, para trazer para junto da cama. E vou, tenho a certeza, deitar-me nela. E fazer da sombra da memória, clarabóia do mundo tocante.
Quando não souber onde pus o sono.
O que fiz com o abandono.
Onde parou o tempo.
Como pôde um Homem ficar sedento.
Do mundo.
E atalhar caminho.
Vislumbrar o corpo em desalinho.
E dizer que valeu a pena.
1ª Classe
A chama,
o ardor,
na janela,
e as reticências
que, no vidro, tomam cor.
Esperei-te
uma tarde
inteira
de versos
e agora que me escutas,
tão pouco me perguntas,
se sei soletrar amor.
E guardei-te
uma caixa
rendilhada
de nuvens
e na fímbria delicada da voz,
procurei por nós,
até encontrar a dor.
o ardor,
na janela,
e as reticências
que, no vidro, tomam cor.
Esperei-te
uma tarde
inteira
de versos
e agora que me escutas,
tão pouco me perguntas,
se sei soletrar amor.
E guardei-te
uma caixa
rendilhada
de nuvens
e na fímbria delicada da voz,
procurei por nós,
até encontrar a dor.
Silabar
Ao norte,
desnorte,
eu também já quis velejar.
Sem sorte,
E na morte,
passei, ao menos, sem ficar.
De noite,
a vida feita açoite,
porque eu quero marejar.
desnorte,
eu também já quis velejar.
Sem sorte,
E na morte,
passei, ao menos, sem ficar.
De noite,
a vida feita açoite,
porque eu quero marejar.
Right from the beggining.

Pego. Nas nuvens que pintam o céu de cores de inverno. No ar rarefeito que me deixa a pele menos quente do que quando aqui cheguei. E penso. Estou de passagem. Na aragem. Do mundo. Colecciono estrada. Não armazeno piada. Sou da gente, a mais amada. Num dilúvio de palavras, afundo o Verão inteiro no silêncio e o riso ecoa, ecoa, ecoa. Sou só. Só. Só. Só. Só a andar por aí. No ruído ensurdecedor de remendos feitos à pressa em passados pouco dados à adivinhação. Vou, vou, vou. Vou-me sempre embora porque nunca chego bem a chegar. Nunca me chego bem. Nunca sou a suficiência para a solidão toda. Estou numa casa de vidro onde avisto a paisagem em todos os graus e pessoas emendadas dos erros que foram. Na minha memória descritiva, vou pôr a cor púrpura. E depois apagar a memória descritiva e começar de novo. Começar de novo.
* Imagem de FGC
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