Esqueço as horas. Porque dentro dos dias, tenho planos e não pontes que liguem sextas a sábados e muito menos domingos. Decidi acabar com os dias e com os simbolismos que os mesmos carregam. Para mim há só um ritmo dançante que atravessa os dias e mata as noites e me faz embandeirar em arco e perder o tino e dizer disparates. Gosto tanto dos meus dias ridículos e dos meus amigos sábios.
Tenho dias que me assolam. De ar. Noites que me cortam a respiração. Palavras que me cortam ao meio. Hoje li palavras alheias e sonhei que me apaixonava dum trago. E amanhã ou depois vou dançar.
Acho que nunca chorei tanto. De alegria pelos amigos que tenho. Pelos dias que tenho tido. Pelas noites que não tenho dormido. Por tudo o que consumi. Tenho amigos com teorias de morrer a rir. Tenho amigos que me fazem chorar ao telefone. Soluço ao ler coisas que me tocam, de gente que não conheço, senão pelo sorriso de duas ou três vezes em que as vi. Duas. De repente, tenho mundo. De novo, emoções à flor da pele.
Visito uma galeria/cafetaria que é um hino à beleza e visto-me como nunca para a visitar. Todos estes dias, tenho vestido coisas improváveis misturando tudo quanto gosto e dando colorido à alma solar que tenho. Estou feita hino. A transbordar.
Recebo de presente, uma boina castanha e dou, de presente, um chapéu xadrez que pontifica em duas tranças lindas de mel. Rute, cada dia, um dia de festa. Rita, cada dia, um dia de putedo. Paula, cada dia, um dia para oferecer doce depois do amargo. E a lista parece não acabar.
Passeio pela cidade que me viu nascer e as minhas pernas doem-me de tanto andar. Partilho a visão de um miradouro que conheci faz pouco tempo, juntando Crew Hassan à noite, Chá de Pipoca num Cacao com sorriso luminoso e quase vejo uma coruja chegar ao sítio mais improvável do mundo. Com o sol no olhar, tomo chá de inverno de frente para o Guincho, atalhando em Cascais e refaço todo um percurso de luzes à noite que me fazem sentir tão plenamente eu.
Falo ao telefone e choro. E oiço chorar. A minha alma é fina e meu corpo cheio de outros corpos. Conheço um montão de pessoas iluminadas. Que me dão espessura de alma e que facem cócegas no mais íntimo de mim. Hoje vou sorrir a dormir. E amanhã perverter todos os planos. Só sei viver assim. Que fim-de-semana comprido. O último coração do sonho. Tenho livros para emprestar. Tenho-me a mim para me dar.
Estava capaz de escrever que me dói mais a fome que a pornografia. Mais a solidão que a humilhação. Mais o tempo que o lugar. Mais a falta de coragem que a desventura.
Escrevo e leio de soslaio poesia a sério num blog recente e fico deliciada a sorrir na noite com palavras de gente maior que eu, em palavras. Gente que abusa de aliterações e que me faz entrar num estado verdadeiramente ébrio e frenético. Sulime e melancólico. Jazzy & cool but funky and lost, melancholic and sweet, hard espesso.
Tanta gente que me tocou hoje. Tanta gente que me atravessou. Que me dividiu e que me fez andar.
Vou andar nesta roda viva até me faltarem as forças. Vou-me apelidar de qualquer coisa que me saiba bem, em movimento. Por hoje, sou plural e tenho tudo.