Ligar a luz: desligar o mundo












Ontem, um colega de trabalho contava-me que o filho mais novo iria ficar contente no final do dia. Ontem, quando milhões de conversas me passaram rente ao ouvido sem eu me dar conta. Há dias que acordamos surdos. Há dias que queremos permanecer mudos. Falo tão bem com a boca fechada. E tudo parece pouco importante quando abro as sílabas para respirar. Tenho uma necessidade, muito além do físico, de respirar. E, às vezes, não consigo dizê-lo. Recebi milhões de prendas ao longo destes dias. Todos os dias tinha uma prenda em cima da secretária sem cartão algum. Guardaram-me farófias no café do outro lado da rua. Fizeram uma colectânea de músicas para mim. É impossível não pensar na mensagem sub-reptícia por detrás de tudo isto. Vinho, música, um adorno de peito e milhões de chocolates. Pareceu-me tudo um exagero. Uma fuga. Um desnorte. Um tudo ou nada fora o contexto. E pouca gente sabe que nem gosto assim tanto de chocolate. Sou bera para dizer coisas. Ao final do dia voltei à história do filho mais novo do meu colega e p'la noite deu-me uma vontade incrível de sair e de o dizer. Eu também só quero uma daquelas extensões em que se ligam um porradão de luzes. E já agora quero luzir o ano todo.

Tenho tudo (dá-se ao desbarato)

Esqueço as horas. Porque dentro dos dias, tenho planos e não pontes que liguem sextas a sábados e muito menos domingos. Decidi acabar com os dias e com os simbolismos que os mesmos carregam. Para mim há só um ritmo dançante que atravessa os dias e mata as noites e me faz embandeirar em arco e perder o tino e dizer disparates. Gosto tanto dos meus dias ridículos e dos meus amigos sábios.

Tenho dias que me assolam. De ar. Noites que me cortam a respiração. Palavras que me cortam ao meio. Hoje li palavras alheias e sonhei que me apaixonava dum trago. E amanhã ou depois vou dançar.

Acho que nunca chorei tanto. De alegria pelos amigos que tenho. Pelos dias que tenho tido. Pelas noites que não tenho dormido. Por tudo o que consumi. Tenho amigos com teorias de morrer a rir. Tenho amigos que me fazem chorar ao telefone. Soluço ao ler coisas que me tocam, de gente que não conheço, senão pelo sorriso de duas ou três vezes em que as vi. Duas. De repente, tenho mundo. De novo, emoções à flor da pele.

Visito uma galeria/cafetaria que é um hino à beleza e visto-me como nunca para a visitar. Todos estes dias, tenho vestido coisas improváveis misturando tudo quanto gosto e dando colorido à alma solar que tenho. Estou feita hino. A transbordar.

Recebo de presente, uma boina castanha e dou, de presente, um chapéu xadrez que pontifica em duas tranças lindas de mel. Rute, cada dia, um dia de festa. Rita, cada dia, um dia de putedo. Paula, cada dia, um dia para oferecer doce depois do amargo. E a lista parece não acabar.

Passeio pela cidade que me viu nascer e as minhas pernas doem-me de tanto andar. Partilho a visão de um miradouro que conheci faz pouco tempo, juntando Crew Hassan à noite, Chá de Pipoca num Cacao com sorriso luminoso e quase vejo uma coruja chegar ao sítio mais improvável do mundo. Com o sol no olhar, tomo chá de inverno de frente para o Guincho, atalhando em Cascais e refaço todo um percurso de luzes à noite que me fazem sentir tão plenamente eu.

Falo ao telefone e choro. E oiço chorar. A minha alma é fina e meu corpo cheio de outros corpos. Conheço um montão de pessoas iluminadas. Que me dão espessura de alma e que facem cócegas no mais íntimo de mim. Hoje vou sorrir a dormir. E amanhã perverter todos os planos. Só sei viver assim. Que fim-de-semana comprido. O último coração do sonho. Tenho livros para emprestar. Tenho-me a mim para me dar.

Estava capaz de escrever que me dói mais a fome que a pornografia. Mais a solidão que a humilhação. Mais o tempo que o lugar. Mais a falta de coragem que a desventura.

Escrevo e leio de soslaio poesia a sério num blog recente e fico deliciada a sorrir na noite com palavras de gente maior que eu, em palavras. Gente que abusa de aliterações e que me faz entrar num estado verdadeiramente ébrio e frenético. Sulime e melancólico. Jazzy & cool but funky and lost, melancholic and sweet, hard espesso.
Tanta gente que me tocou hoje. Tanta gente que me atravessou. Que me dividiu e que me fez andar.

Vou andar nesta roda viva até me faltarem as forças. Vou-me apelidar de qualquer coisa que me saiba bem, em movimento. Por hoje, sou plural e tenho tudo.

I wish I was

Quando nos chamam para tomar o pequeno almoço no café do outro lado da estrada e gritam o nosso nome a plenos plumões porque sabem que o detestamos ouvir assim. Quando nos deixam um post-it na mesa dizendo que as iniciais do nosso nome dão para escrever a. r. i. r. , se invertermos uma delas. Quando nos levantam os limpa pára-brisas do nosso novo carro e nos informam via sms que estar viva é poder fazer coisas tão simples como baixar os limpa pára-brisas que uma pateta qualquer se lembrou de levantar. Quando nos escrevem num postal de natal que os nossos olhos, apesar de entristecidos a subir a escada, sabem a mar. Sabem amar.

Quando esticamos a vida para lá do limite do possível e do razoável para as nossas dores de alma. Quando trincamos fruta e sugamos o sumo para que ao menos tenhamos o proveito de que a fama nos incumbe: beber a vida dum trago e não conservar ao menos um gole para o dia seguinte. Por a uso tudo quanto temos. Não usar plásticos de segurança. Nem aventais por sobre. Cada dia, um dia de festa. Cada noite, um olhar diferente de amor. Adorar filmes e adorar a vida pelo lado menos encantado, ensaiado e fantasiado de que temos memória. Ter medo de morrer sem sentir o amor mais uma vez. Soletrar América latina na noite. Escutar a voz enrouquecida que dá corpo às músicas que ouvimos de noite. Não há calor suficiente que nos resgate das chamas onde nos consumimos. Não há diminuitivos ternos quanto baste para acreditarmos que tudo o que somos nos vai servir de alguma coisa algum dia.


Conheço o suficiente as coisas que não conheço. Conheço tão bem todas aquelas coisas de que desconheço pelo lado de dentro. Conheço a sensação de sentir que sentem compaixão por mim. Que reconhecem o ser que sou e as possibilidades que tenho. E a forma tão absolutamente certa e saudável e apaixonada como vivo os dias. E que sim: que faço bem em entregar a alma em quantidades variáveis. E que sim: que quem assim vive, sem medo do que há-de vir, arriscando por ruas e caminhos errantes, vai ter, tem de ter, um futuro à medida. À medida dos sonhos. À medida da entrega. À medida da ingenuidade. À medida da verdade. À medida da autenticidade. Porque amo os amigos e os que me querem bem, vou dizendo que sim, com o sorriso. Sabendo bem demais, que não. Nada disso é verdade. Nada disso me coloca num patamar de maior verdade ou de uma hipótese mais próxima do paraíso. O mais que tenho são sonhos por cumprir e músicas a mais na cabeça. Pelo meu lado, sou incapaz de os desdizer. De os desacreditar. De os desiludir. Os amigos são as lágrimas por cumprir.


Dizer as coisas

Queria ficar a saber para sempre. Se cada dia de luz vale por todas as noites escurecidas no silêncio de nós. Se cada adormecer numa cama de um quarto que não o nosso abre um buraco para a lua ou se é uma etapa a mais para o conhecimento que devemos ter da brevidade das coisas que nos foram felizes. Se devo chorar de felicidade porque me comovo com detalhes insignificantes, tecidos gastos, ruas sem saída e pessoas prestes a partir. Ou se devo construir uma arca, forrá-la a cores, por música dentro e ver desfilar tudo quanto passou por mim para que eu saiba a que sabe a intensidade. Mas queria sabê-lo já. Para poupar tempo. Para poupar espaço nas dores pelo corpo. Para arrumar a vida por temas. E para saber se sou miseravelmente pobre ou estupidamente dorida. É porque tenho de ter uma teoria. Uma religião. Um mapa. Uma luz qualquer que se enterneça pelo meu desnorte habitual. Pela minha falta de talento para dizer as coisas.

Ouvido do peito

Amanhã, cedo, quando fizer o meu percurso habitual hei-de me lembrar de escrever no futuro. De ver em frente. De sonhar além. De perverter o plano. No caminho habitual entre uma casa e a outra, sei que sou mais eu, porque, em trânsito. Em corrida. Caminhando. Indo. Podia fazer disso profissão e tenho a certeza de que ninguém dava conta. Passam-me a mão pelos ombros, afagam-me a cabeça e julgam-me lá. Daquele lado. Dizem coisas improváveis. Fazem gestos surpreendentes. Mas só para eles. Porque eu e eles não falamos a mesma linguagem mas isso não quer dizer que me surpreenda a frieza de apostarem a minha vida numa mesa de trabalho.Gostava de dar explicações no chão porque gostava da proximidade. E todos os objectos da casa têm outra dimensão quando vistos de baixo. O candeeiro feito globo-terrestre, os quadros com os soberanos de Portugal, a estante com todos os objectos trazidos das inúmeras viagens. Ao invés da solenidade, proximidade. Ao contrário da funcionalidade, familiaridade. Acho que tenho saudades desse tempo. Do cheiro das torradas e das casas quentes à minha espera. À minha espera. Quero meter essa sensação numa garrafa e atirá-la ao mar. Quero fotografá-la, prová-la e desfazê-la no momento seguinte para não perturbar a intensidade do momento. Procuro com os sentidos: a que sabe saber-nos queridos? A que sabe o sabor do bem-querer? Avanço com a língua, como faço para provar uma especiaria nova ou uma quantidade ínfima de ar de uma terra desconhecida. E a memória catapulta-me para terra novamente. Matinal vem de manteiga. Ficou-me essa frase no ouvido do peito e em dias mais frios, repito-a bem alto de manhã. Não sabem nem imaginam o que as coisas simples podem fazer por mim.

One day I'll get myself out in the sunshine... Then l'll get rid of the blues*

I'm gonna loop duplicate my heart into a million songs.*

* El perro del mar lyrics