num corridinho de texto dizer que amo os amigos. já disse isto cem vezes no mínimo mas não m'importa. todos os que vêm p'la mão deles e me fazem animar por dentro. nos dias em que faço esquadrias a parte da família para ver se não os sinto tão tangentes ao corpo. q'isto de sentir tudo de todas as maneiras não é para todos. e certamente é para mim- gémeos de signo. mais aquela conversa linda das pessoas todas na alma e eu na lama.
os amigos. esses doidos que não duvidam. que me fazem acreditar que estou de férias quando até nem estou. que convidam para o óbvio e para o surpreendente. mais a gente que se descobre que nos conhece sem nunca termos dito nada e sem ser preciso explicar. essa raça de gente que dá p'lo nome de gente com que se conta, que sabe contar ainda por cima, sendo o por cima o que nos salva, porque num dia tudo muda e tanta gente faz (ou não) a diferença.
sms, texto d' lágrimas. sms, texto de riso. sms, um cigarro que se oferece. sms, a chegada de um amigo.
tenho a alma em brasa dos amigos.
amanhã
não há salas que cheguem onde caiba o que me custa saber o que a vida não vale. ter a certeza que te foste num dia de improvável calor e de cheiros de rosas e malmequeres vários a encher o espaço onde eu fui tão criança. o mês todo a desejar passar de 30 de Julho para 1 de Agosto na tentativa ignóbil de esquecer esse dia. quando o dia da morte não é mais do que um dia, como os outros, em que nenhuma recordação se perde na e da minha memória. quis dormir sobre um tecido de combinação, um lenço de bolso à cabeceira ou uma travessa na mão para que houvesse algo palpável que me desse chão. fiz uma trança no cabelo. mas não a prendi, como tu fazias. quero o vento e o calor a tocar-me no cabelo e imaginar que podes ser tu.
Flor d'água
Dentro da noite há uma noite de dia. Um crepúsculo despenteado que ilumina mas pouco. No Verão, somos arquitectos de formas de biquinis sobre o corpo que se tapa e se destapa em água. Queria ser isso na escrita. Água.
A minha nuvem predilecta
Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo ou um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto
Ramos Rosa, o delicado escultor de sonhos
O Teu Rosto, Dezembro 2004
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo ou um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto
Ramos Rosa, o delicado escultor de sonhos
O Teu Rosto, Dezembro 2004
Caravelar
Meu espírito possante
não quer alocar
meu corpo frágil.
Na roda do levante,
peito aberto e adiante,
a mente,
mente:
presa fácil, embora ágil.
A mente posta em sossego,
na distância confortável do aconchego,
diz não saber como refrear:
a eterna saga dos românticos,
que lêem nos atlânticos:
- o coração à mão de um manivela.
Caravela, caravela,
quantos querem ir já nela:
corpo-amor a navegar.
não quer alocar
meu corpo frágil.
Na roda do levante,
peito aberto e adiante,
a mente,
mente:
presa fácil, embora ágil.
A mente posta em sossego,
na distância confortável do aconchego,
diz não saber como refrear:
a eterna saga dos românticos,
que lêem nos atlânticos:
- o coração à mão de um manivela.
Caravela, caravela,
quantos querem ir já nela:
corpo-amor a navegar.
Porque sonho com o texto amiúde
Esta noite tive uma alucinação de gente:
sonhei com Luíz Pacheco no sopé da cama,
vociferando pergaminhos alheios,
depurando as descrições cruas das palavras
que utilizamos para nos referir às coisas
que não encontram paralelo senão,
na nudez da palavra que melhor o exprime
e que vem a ser,
justamente,
a sua designação técnica.
Se me ouvisse-do alto da sua coagitação despudorada-
diria que nem a poesia foi feita para ser
tão descentrada e moralistamente desagregada
da carne, do lume e da pureza
de chamarmos as coisas pelos nomes,
com o tacto, a leveza e a elegância
a piscarem o olho, de novo
à boca da mão que assim o escreve:
porquanto posso ser íntima
na clara e límpida devassidão comunitária* do amor.
*alusão a uma das mais intensas e belas obras de Pacheco
sonhei com Luíz Pacheco no sopé da cama,
vociferando pergaminhos alheios,
depurando as descrições cruas das palavras
que utilizamos para nos referir às coisas
que não encontram paralelo senão,
na nudez da palavra que melhor o exprime
e que vem a ser,
justamente,
a sua designação técnica.
Se me ouvisse-do alto da sua coagitação despudorada-
diria que nem a poesia foi feita para ser
tão descentrada e moralistamente desagregada
da carne, do lume e da pureza
de chamarmos as coisas pelos nomes,
com o tacto, a leveza e a elegância
a piscarem o olho, de novo
à boca da mão que assim o escreve:
porquanto posso ser íntima
na clara e límpida devassidão comunitária* do amor.
*alusão a uma das mais intensas e belas obras de Pacheco
Silêncio
Pudera eu escrever alto,
de cada vez que emudeço,
perder o norte onde pertenço,
afagar o todo em sobressalto.
de cada vez que emudeço,
perder o norte onde pertenço,
afagar o todo em sobressalto.
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