amanhã

não há salas que cheguem onde caiba o que me custa saber o que a vida não vale. ter a certeza que te foste num dia de improvável calor e de cheiros de rosas e malmequeres vários a encher o espaço onde eu fui tão criança. o mês todo a desejar passar de 30 de Julho para 1 de Agosto na tentativa ignóbil de esquecer esse dia. quando o dia da morte não é mais do que um dia, como os outros, em que nenhuma recordação se perde na e da minha memória. quis dormir sobre um tecido de combinação, um lenço de bolso à cabeceira ou uma travessa na mão para que houvesse algo palpável que me desse chão. fiz uma trança no cabelo. mas não a prendi, como tu fazias. quero o vento e o calor a tocar-me no cabelo e imaginar que podes ser tu.

Flor d'água

Dentro da noite há uma noite de dia. Um crepúsculo despenteado que ilumina mas pouco. No Verão, somos arquitectos de formas de biquinis sobre o corpo que se tapa e se destapa em água. Queria ser isso na escrita. Água.

A minha nuvem predilecta

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo ou um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

Ramos Rosa, o delicado escultor de sonhos
O Teu Rosto, Dezembro 2004

Caravelar

Meu espírito possante
não quer alocar
meu corpo frágil.

Na roda do levante,
peito aberto e adiante,
a mente,
mente:
presa fácil, embora ágil.

A mente posta em sossego,
na distância confortável do aconchego,
diz não saber como refrear:
a eterna saga dos românticos,
que lêem nos atlânticos:
- o coração à mão de um manivela.

Caravela, caravela,
quantos querem ir já nela:
corpo-amor a navegar.

Porque sonho com o texto amiúde

Esta noite tive uma alucinação de gente:

sonhei com Luíz Pacheco no sopé da cama,
vociferando pergaminhos alheios,
depurando as descrições cruas das palavras
que utilizamos para nos referir às coisas
que não encontram paralelo senão,
na nudez da palavra que melhor o exprime
e que vem a ser,
justamente,
a sua designação técnica.

Se me ouvisse-do alto da sua coagitação despudorada-
diria que nem a poesia foi feita para ser
tão descentrada e moralistamente desagregada
da carne, do lume e da pureza
de chamarmos as coisas pelos nomes,
com o tacto, a leveza e a elegância
a piscarem o olho, de novo
à boca da mão que assim o escreve:
porquanto posso ser íntima
na clara e límpida devassidão comunitária* do amor.

*alusão a uma das mais intensas e belas obras de Pacheco

Silêncio

Pudera eu escrever alto,
de cada vez que emudeço,
perder o norte onde pertenço,
afagar o todo em sobressalto.

fifty

quero a alquimia das vozes que me guiam dentro do dia mostrando-me que o sol e a água conjuram para habitar os sulcos feitos no meu destino-ave eternamente leve para ascender à macieza das nuvens e sobrevir à profundeza de uma ferida aberta na metade bicho