Há coisas que me acalmam. Ouvir falar espanhol baixinho. Parar em determinados momentos e imaginar que na minha alma corre o trailer de um filme que tem asas e desejo no título. Lembrar-me do dia em que caí num buraco junto à Gulbenkian com o meu pai.
Como se esquece pessoas sem esquecer o que nos faz únicos e que nos aproxima dos outros? Porque é que somos fatais até ao fundo e ligeirinhos à superfície e para esse cocktail danado é justamente aquilo que mais atrai as pessoas e mais as afasta?
Deveria haver um dispositivo qualquer para isso. Uma espécie de soul finder, uma espécie de luz na noite. Que sinalizasse os piegas corrompidos, como eu. Os melancólicos da treta, como eu. Os absurdos números primos, como eu. E já agora as pessoas que me acalmam sem falarem espanhol nem voarem sobre uma cidade. Quando estamos felizes, ficamos com calor. Quando desço ao Rossio, adquiro uma vontade louca de fazer conversa com um desconhecido que use um chapéu ousado. Quando vou aninhar-me no Tejo, nasce-me um desejo absoluto de frio porque o frio conforta e é ao menos real.
Tenho uma faca na liga psicosomática e um punhal entre dentes no cérebro e só me lembro de coisas muito estúpidas.
Vou deixar de trabalhar com uma pessoa que mudou a minha vida. Vou ouvir alguém que não oiço há 5 anos. Sou um bicho do mais patego que há e só digo tonterias porque sou forrada a sentimento por dentro e só tenho uma ou duas mudas de roupa para o meu exterior.
