Sol

" Tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente
altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais
– também, já por cá passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive
as mulheres que assombrei
as ruas por onde passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história de sentido ainda oculto
magnífica
irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca como uma linha férrea ultrajada pelo tempo "

Vitamina C (Assírio e Alvim)

O mar A mar

O MAR

Nunca conseguiu viver longe do mar.A sua adolescência ficara cheia de dunas e de camarinhas, de falésias e águias, de tempestades, de nomes de barcos e de peixes; de aves e de luz coalhada à roda duma ilha.Conhecera a ansiedade daqueles que, ao entardecer, olham meios cegos a vastidão incendiada do oceano - e ninguém sabe se esperam alguma coisa, alguma revelação, ou se estão ali sentados, apenas, para morrer.Aprendera, também, que o mar, aquele mar - tarde ou cedo - só existiria dentro de si: como uma dor afiada, como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo.Depois, partiu para longe. E durante anos recordou, em sonhos, o mar avistado pela última vez ao fundo das ruas. Procurou-o sempre por onde andou, obsessivamente - mas nunca chegou a encontrá-lo.

[...]Ainda hoje permanece sentado, no mesmo lugar - esperando o instante em que os dois mares se dissiparão um no outro, para sempre.Está cansado da guerra com as palavras e do veneno dos homens, tem os olhos queimados pelo sal. Os dedos adquiriram a rugosidade da areia e dos rochedos; da sua boca solta-se um marulhar surdo, muito antigo, que os dias e a solidão arrastam devagar para a luminosa euforia das águas.


Al Berto, Anjo Mudo, Assírio & Alvim

Cocktails e carrinhas

O amor ama-me. E eu amo o amor. De verdade.
Descubro essa evidência (todo o óbvio é, para mim, um caminho para fazer às cegas) normalmente ao final do dia, quando o meu organismo principia a render-se à evidência suprema: acordar e render.
Bem vistas as coisas, rendo-me mais de noite do que de dia: o que é uma chatice porque: adoro as manhãs solares e todas as que se vestem de neblina. Sem saber se se vestem ou se se despem.
Hoje lembro-me de alguém cantar num tom metálico a valer. Como se aquela alma tivesse engolido um balde de metal, um pedaço qualquer de alumínio que lhe soprasse na voz inadvertidamente. Do metal, soou Billie H., sendo que, nos agudos, quase que me foi possível sentir um afiar de facas ou o ruído de um talher, a arrastar-se, no prato. A letra, impertubável e majestática, aos desvarios do não-jogging da voz, no ensaio.
E no final, uma canção dedicada, à sombra dos desamparados do lado esquerdo do peito. Na certa. Por certo.
Adoro as histórias por detrás da feitura das letras. Aquela coisa de construir frases, à esquadria, a partir de não-imagens do imaginário. E delicio-me com as desconstruções que me são reveladas: só porque adormeço a pensar em mil imagens e durante o sono entram, amiúde, todos os quadradinhos dos azulejos das antigas estações de metro e eu tenho a petulância de afirmar a minha infância como a melhor do mundo.
Vem-me à memória igualmente estar sentada com duas pessoas de nome tão forte. Tão singular. Nomes primeiros que certamente são acompanhados de um segundo nome mas que deles não necessitam. Mais ou menos como o sumo que bebi hoje: maçã com hortelã e canela. Para quê complicar justamente agora que me ofertaram um manual de cocktails?

Em pele nocturna

Acredita em passagens que são o destino certo da sua pele aberta. Olha e relê trechos demasiadamente nocturnos para serem confessados sob uns lençóis brancos a que sempre chega depois da vida. Olha e exaspera-se vendo escorrer a delicadeza dos frutos que já levou à boca e que estão maduros quanto baste para fazer sumo de calmaria e sonhar com o dia em que vai deixar de ser excessivamente excessiva. Sabe que faz, tão instintiva como desenfreadamente, combinações de números primos com os números das portas a que já bateu para saber se a morada é errante ou se é ela que não quer chegar a casa depois de palmilhar a cidade com as solas da alma gastas. Sente a solidão num vértice sabendo de antemão que águas passadas não movem moinhos. Ou isso ou qualquer outro ditado que aluda a uma lição qualquer que ecoa noite dentro mas que ela fez por não aprender.
(E se ela se alistar na primeira coluna de vento a seguir à muralha que protege a cidade, que música se escutará, na despedida?)
Gosta de escrever ar. E ser fogo. Como os signos auguram e os ascendentes procuram explicar. O Universo todo deve ter uma configuração bestial, mas a única coisa que lhe brilha interiormente é aquele ponto, aquele rascunho de circuito de pontos luminosos a apontar para o seu sono humano até aos ossos. De vez em quando, resgata pedaços de circunstância que a fazem sorrir pela pele que desconhece tão perto. Alguém que lhe falou de um nome de um gato de um amigo seu: Gatafunho e da forma como nasce um sorriso naquele rosto. Alguém tem uma sequência de fotos no seu desktop e só agora eu percebi todo o mundo dentro daquela pessoa. Entre as duas, um piso a dividir. Eu, no meu piso, à deriva da substância de luminosidade das duas, durante quase quatro anos. Feliz de quem as tem para consigo beber água do mar ocasionalmente vertida por aqueles olhos.
(Quanto tempo até dourar a pele de um lado e poder voltar as costas?)
E pouco há mais a dizer sobre a finitude dos que lhe chegam abandonados à sua face exposta. Pouco mais a acrescentar à existência sempre presente de encontros eternamente adiados. Há corpos vários sobre a mesa para jantar e desflorar. E uma manta púrpura na chaise long a anunciar preguiça de névoa e gente-flor caminha, cambaleando, entre retratos seus no chão, alternando a idade menor com a maior. Uma eterna feira de saldos, cinco palavras majestáticas que são o curricula abonado, maltratado e falsificado da sua vida. E os tornozelos feridos de sangue seu até doer.
(Quantas noites rosa-velho deixará inacabadas?)

Olfacto-me

Faço jogging com os lilases atrás da orelha
seguindo os passos sempre demorados e longos da imaginação.
Quando os meus olhos se fecham
juro que vejo conchas
naquelas cascatas que já foram de água para dar de beber à bicharada.
Sonho que estou de mãos abertas, pescoço nú
a adivinhar recortes de gente com roupa a mais
debruçadas num qualquer varandim daquelas casas de traça colonial
a aspirar o ar dócil e inebriante
da explosão de cor daquelas árvores
cujas flores nos roubam a respiração
e nos fazem cócegas no nariz erguido
- porque o olfacto nos leva vezes demais a territórios de paixão.

Joga-a-vida-para-depois













Num postal autografado,
pus a vida para rolar,
entre dentes, entre espadas,
trinquei a língua a valer,
no final, já cansada,
contorci o corpo e vi-me rir,
e desfeito, o efeito contraditório:
com tanto frio no ar
e eu a respingar de calor,
fazem-me falta,
põem-me em alta,
tentações, proibições,
impossíveis, intransponíveis:
- meia dose das minhas inibições!

Cesariny

Hoje percebi porque gosto de Cesariny
(se razões, precisas, fossem)
numa palavra:
verticalidade,
em duas:
espinha.