Faço jogging com os lilases atrás da orelha
seguindo os passos sempre demorados e longos da imaginação.
Quando os meus olhos se fecham
juro que vejo conchas
naquelas cascatas que já foram de água para dar de beber à bicharada.
Sonho que estou de mãos abertas, pescoço nú
a adivinhar recortes de gente com roupa a mais
debruçadas num qualquer varandim daquelas casas de traça colonial
a aspirar o ar dócil e inebriante
da explosão de cor daquelas árvores
cujas flores nos roubam a respiração
e nos fazem cócegas no nariz erguido
- porque o olfacto nos leva vezes demais a territórios de paixão.
Joga-a-vida-para-depois
Num postal autografado,
pus a vida para rolar,
entre dentes, entre espadas,
trinquei a língua a valer,
no final, já cansada,
contorci o corpo e vi-me rir,
e desfeito, o efeito contraditório:
com tanto frio no ar
e eu a respingar de calor,
fazem-me falta,
põem-me em alta,
tentações, proibições,
impossíveis, intransponíveis:
- meia dose das minhas inibições!
Cesariny
Hoje percebi porque gosto de Cesariny
(se razões, precisas, fossem)
numa palavra:
verticalidade,
em duas:
espinha.
(se razões, precisas, fossem)
numa palavra:
verticalidade,
em duas:
espinha.
Ser um(a) Pessoa
(...)Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente (...)
(...)Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas — absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma (...)
(...)Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro, ~
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim (...)
(...) Meu coração tribunal,
meu coração mercado,
meu coração sala da Bolsa,
meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público,
hospedaria,
estalagem,
calabouço número qualquer coisa («Aqui estuvo el Manolo en visperas de ir al patíbulo»)
Meu coração clube,
sala,
plateia,
capacho,
guichet,
portaló,
Ponte,
cancela,
excursão,
marcha,
viagem,
leilão,
feira,
arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta,
bagagem,
satisfação,
entrega,
Meu coração a margem,
o limite,
a súmula,
o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.
Não há gestos de prazer pelo mundo que valham
A alegria estupenda de quem não tem outro modo de a exprimir
Que rolar-se pelo chão entre ervas e malmequeres
E misturar-se com terra até sujar o fato e o cabelo…
Não há versos que possam dar isto (...)
(...) Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro (...)
(...) Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver (...)
(...) Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali (...) Álvaro de Campos, Excertos de "Passagem das Horas"
A nossa vida a três
Como Penélope, gosto de desfiar novelos pela noite na minha própria música: que é como quem diz: no meu ritmo.
O meu avô materno. Vamos chamá-lo, por causalidade e coincidentemente: José. Nasceu algures no norte do país onde, pequeno, conheceu aquela que viria a ser a sua mulher: a minha avó, cujo nome dá para escrever num castelo ou para erguer um mesmo castelo, ainda que de claras. Suave, suave, como só esse nome e que também começa por A, como o meu.
Herdei o nome do meu avô e não o da minha avó, como é da praxe. Não gosto muito da ideia porque acho que devo ter tudo a que tenho direito (risos), mas compreendo que juntar o sobrenome da minha avó a todos os outros dava (muito) peso à coisa. Peso e R's.
Adiante: A minha família espalhou-se pelo Brasil e muito pela Madeira também. Acho que já ouvi o meu sobrenome até cantado. E um dia, quem sabe meto pernas à estrada.
Conta a história que o meu avô, amante da palavra prazer, perdeu toda a fortuna de uma vez só, para dar um ar romântico à coisa. Pouco romântica foi a coisa, e nada na história envolve traição ou outras pessoas, segundo ouvi dizer. Prazeres: viver com tudo dentro. A minha avô: eminente, segura, preponderante e arrediça, mantendo sempre aquele ar sagrado e solene que a caracterizou toda a vida. Mais fria e menos tolerante que o meu avô, que adorava ver-me comer com as mãos.
Aprendi a gostar dela porque me foi impossível não gostar e tenho alguma pena por não lhe ter perguntado mais sobre o meu avô. Não podia. Não quis. Não poderia.
Acho que ela começou a viver a partir do momento em que ele morreu. E a ficar mais leve e ao mesmo tempo irónica e espirituosa (esta é a parte onde entra o Vinho do Porto que dá uma valente ajuda à coisa) na nossa presença. E eu sei. Eu sei.
Tenho um pouco dos dois dentro. Loucura: como acabou por morrer o meu avô. Serenidade: como morreu, por fim, a minha avó.
E hoje tenho o melhor do melhor de tudo:estórias sobre estórias para contar. Vividas. Sem nunca as contar inteiramente a quem se abeirou de mim dado ficarem num compartimento apenas acessível pela descida de escadas em caracol e porque gosto de as ir compondo e revendo, baralhando e dando, sorteando e imaginando, como num puzzle em que sobram sempre peças.
Somos um prato cheio e lá dentro estão as minhas mãos. Como sempre gostei de fazer.
Do verbo saber
Num instantinho venho aqui dizer que uma das coisas que mais gostava na casa de Benfica: alguém tocava piano, de cauda, no andar de cima. Fiquei encantada quando o ouvi pela primeira vez enquanto falava sobre "As palavras" de Eugénio de Andrade. "Quem as recolhe assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?
Como explicar que, um dia, à noite (com todos os dias dentro cheios de penumbra rasante) puseram, para eu escutar, Cesariny, pela casa? Como dizer que coube dentro de todas as casas sem as habitar por dentro? Como mudar a cor da retina para que ela fique mais clara e mais transparente? Como morrer por dentro?
Qualquer coisa no meio
Esta semana foi comprida. Comprida a arrastar-se. Comprida em cansaço. Comprida em corrida. E eu a ver-me e desejar-me. Porque, se eu pudesse, o dia hoje não tinha noite e continuava dia até outro dia vir e assim sucessivamente. Porque cada palavra me fez assentar os pés no chão e pensar nisso da verdade das coisas.
Esta semana senti-me desconfortável a valer num sítio onde normalmente estou muito confortável porque gosto do que faço. Porque trabalho para mim. E para tudo quanto me dá gozo aprender e hoje falei disso com uma pessoa very british de hábitos e tão soft de palavreado que mora no último piso. Qualquer pessoa ganha a vida ao subir aquelas escadas e soltar umas palavras na sua direcção. E percebi que tenho de lidar melhor com isso de devassarem uma vida à minha frente e a mim apetecer-me vomitar, no imediato.
Esta semana tomei chá e fiquei a pensar nos acasos dos casos dos ocasos que fazem as pessoas esquecerem-se de nós e lembrarem-se de nós. Esta semana disse coisas muito silly-season só porque decidi que ganho a vida na descontração e na leveza e não há maior prazer do que esse.
Esta semana abusei do verde e do encarnado e pus novamente a cabeça a arejar. E esta semana (como sei ser repetitiva e como isso me deixa feliz) percebi que amei o filme pela razão certa. Amo, esses: os incautos, sonhadores, diabólicos-demabuladores-de-nuvens, os observadores-natos-que-saem-do-seu-corpo-para-melhor-apreciar-a-vista e os oradores-dos-passos-perdidos, eternos condenados à palavra fácil de canto de boca, os que são sérios e magnânimos e leves ao mesmo tempo e os que esperam-a-eternidade-toda-para-serem-qualquer-coisa-de-mais-pungente-e-não-conseguem. Amo os desmembrados de família e de coração e os de feitio difícil pela manhã. Amo os moralistas e os imorais: os pérfidos e os samurais. Os amantes de ócio e de preguiça. Os que envergonham a filosofia barata de alcofa. Amo os surrealistas e os que abusam da pontuação, os que não se levam a sério e os que têm carácter antes e sobre qualquer coisa. Amo os que acreditam-não-haver-Deus e os que olham para cima quando dizem uma ignomínia. E nem sequer tenho umas calças bege. E nem sequer andei nos escuteiros na minha infância perdida. E quase que vejo as pessoas na infância quando elas escrevem.
Esta semana. Sinceramente. Só quero um poiso para descansar.
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