Uma canção -presente embrulhada nela.
Dentro
Gosto da imensidão de palavras que o meu dicionário não descobriu e das linhas tortas que ainda não li, tão só porque me enterneço a desfiar novelos e seguir linhas que me levem num percurso iluminado à medida dos meus passos no chão. Às vezes, numa emoção incontida, dou comigo a salivar por pedaços de histórias que construí na minha cabeça de nuvem e que alguém verbaliza e nesse instante sei que não vivo no tempo e desconheço o que é esse conceito figurativo de idade.
Sinto que tenho anos de mar. Horas seguidas passadas em traçados circulares, estradas gastas e águas muito profundas onde sempre foi possível ver o espelho do céu. E, porém, não tenho o tempo do tempo que a minha pele reluz e o meus sinais indicam, por gostar tanto de sol e não saber que nos gastamos na superfície, da mesma maneira como vivemos para gastar as solas dos sapatos num percurso pedestre.
Amo a terra vista do mar. E o mar visto dos meus olhos lá.
(Mar Adentro), traduzido.
Sinto que tenho anos de mar. Horas seguidas passadas em traçados circulares, estradas gastas e águas muito profundas onde sempre foi possível ver o espelho do céu. E, porém, não tenho o tempo do tempo que a minha pele reluz e o meus sinais indicam, por gostar tanto de sol e não saber que nos gastamos na superfície, da mesma maneira como vivemos para gastar as solas dos sapatos num percurso pedestre.
Amo a terra vista do mar. E o mar visto dos meus olhos lá.
(Mar Adentro), traduzido.
Quotidiano
Às vezes pequeno-almoço com gente que tem sardas,
e penso na quantidade de pele à vista,
e se sorrio, porque me emociona pizindim,
chorinho-canção de minhas manhãs,
talvez seja a memória de músicas que nasceram antes de mim,
ou a leve certeza de que o humor abrilhanta a vida,
e a frescura de laços que me ligam instintivamente
a gente pura e bela.
e penso na quantidade de pele à vista,
e se sorrio, porque me emociona pizindim,
chorinho-canção de minhas manhãs,
talvez seja a memória de músicas que nasceram antes de mim,
ou a leve certeza de que o humor abrilhanta a vida,
e a frescura de laços que me ligam instintivamente
a gente pura e bela.
Fad'ango: sabor a'mar
Na madrugada do que me sinto, quase que sou o raio de sol que está a despontar. E a lua que lhe vai dar lugar. Tanta coisa- Meu Deus- tanto lugar que trago nesta vida de mar. Tanta gente, tantas e tantas melodias que hoje me encheram o olhar. Quero viver. Quero viver para rimar. Sentir no corpo o fado e o tango e saber que numa noite destas sou escarlate. Tenho amor vermelho-vivo, as minhas mãos são para te segurar, meu amor, meu amor, que ao menos me digas que perfume é este no ar. E se pudesse nessa voz velada segurar, se eu pudesse,ai se eu pudesse, todos os dias ouvir-te cantar.
Voltar a ti é como andar sobre nenúfares,
entristecer numa cidade portuária e ver nascer
narrativas sofridas de gente como eu
que ficciona o corpo, friccionado a alma
enjeita a certeza, ajeita o precípicio
e lá do alto te chama para dançar
e na estrofe primeira
já deixei de te amar.
Ar
Tenho 40 janelas
na parede do meu quarto,
sem vidros, nem bambinelas,
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do mar,
por outra entra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a via láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança,
quatro arestas,
quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho
que as vigias são redondas
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo e a humildade,
e o silêncio e a surpresa
e o amor dos homens e o tédio
e o medo,
e a melancolia,
e essa fome sem remédio
que se chama poesia.
E a inocência e a bondade,
e a dor própria e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia
e a viuvez
e a piedade.
E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.
Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
António Gedeão
na parede do meu quarto,
sem vidros, nem bambinelas,
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do sol,
por outra a luz do mar,
por outra entra a luz das estrelas,
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a via láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança,
quatro arestas,
quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho
que as vigias são redondas
e o sonho afaga e embala,
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo e a humildade,
e o silêncio e a surpresa
e o amor dos homens e o tédio
e o medo,
e a melancolia,
e essa fome sem remédio
que se chama poesia.
E a inocência e a bondade,
e a dor própria e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia
e a viuvez
e a piedade.
E o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo.
Todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar,
com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
António Gedeão
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