Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa (...)
António Franco Alexandre
"Quatro Caprichos", Assírio & Alvim, 1999
Aprendendo o paraíso
Conservo-te o meu sorriso
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso...
Cecília Meireles, always
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso...
Cecília Meireles, always
Alma Pública
Hoje vou quebrar uma regra que mantenho há algum tempo. A de passar para aqui textos pessoais, não ficcionais, e que surgiram como resposta a conversas faladas, escritas ou desenhadas. O próximo texto faz parte de um e-mail que escrevi em mais ou menos 7 minutos, e que fiz seguir, num atilho com cor vibrante, para um e-mail para onde seguiram muitos mais. Passo-o para aqui porque não sei bem como o escrevi: parece-me até que foi rápida demais a sua escrita, como se eu fosse apenas mensageira de algo ou de alguma coisa... (Thanks, Jo). De qualquer forma, é algo que eu deixo escrito porque quero-me lembrar do que disse (ou escrevi) sempre, sobretudo em dias marcados pela finitude. Ou seja, quero lembrar do que sou. De quem sou. E como vivo.
Pessoas de quem gosto. Tenho conhecido todo o género de pessoas: as que passam pela vida como um sopro; as que se arrastam ao longo dos anos fazendo-me sentir atemporal; as que me enviam mensagens tão só porque é Outono e porque, de repente, passam numa mercearia velha numa rua do Chiado e se lembram que um dia ( um dia no tempo curto) eu já lhes disse que, um dia ( nesse dia sem tempo) eu hei-de fotografar um sítio desses; as que conhecem sinónimos para a palavra valor, dignidade, ombridade e verdade...
Sim, saber viver sem ser reconhecido é uma arte. E ter amigos, uma arte maior. Mais ou menos o tamanho que a vida tem.
Quero ser amadora na arte de amar. As vias profissionalizantes roubam o encanto e o brilho de tudo quanto reluz. Não é ao acaso que o selvagem e o bravio despertam em nós sentimentos tão profundos quanto a espessura da nossa alma.
O domínio do formal e do correcto, deixo para as pessoas que escolhem óculos incolores, comidas destemperadas, banhos em praias acessíveis e iluminadas, caminhos apontados por placas, decisões medidas pelo mais fácil e pelo maior capital de segurança que oferecem ... e pouco sumo, cheiro, sabor, olfacto e tacto na ponta das mãos.
Para mim, quero a vida. Com todo o valor e toda a verdade a que posso aspirar, no mais doce de mim. Felizes dos que saboreiam os amigos da mesma forma como se saboreia uma compota numa tarde triste.
E pode ser que um dia eu aprenda a saber quando devo apenas reenviar e-mails porque eles contêm uma mensagem importante (como o que deu origem a este) e a não acrescentar nada
Pessoas de quem gosto. Tenho conhecido todo o género de pessoas: as que passam pela vida como um sopro; as que se arrastam ao longo dos anos fazendo-me sentir atemporal; as que me enviam mensagens tão só porque é Outono e porque, de repente, passam numa mercearia velha numa rua do Chiado e se lembram que um dia ( um dia no tempo curto) eu já lhes disse que, um dia ( nesse dia sem tempo) eu hei-de fotografar um sítio desses; as que conhecem sinónimos para a palavra valor, dignidade, ombridade e verdade...
Sim, saber viver sem ser reconhecido é uma arte. E ter amigos, uma arte maior. Mais ou menos o tamanho que a vida tem.
Quero ser amadora na arte de amar. As vias profissionalizantes roubam o encanto e o brilho de tudo quanto reluz. Não é ao acaso que o selvagem e o bravio despertam em nós sentimentos tão profundos quanto a espessura da nossa alma.
O domínio do formal e do correcto, deixo para as pessoas que escolhem óculos incolores, comidas destemperadas, banhos em praias acessíveis e iluminadas, caminhos apontados por placas, decisões medidas pelo mais fácil e pelo maior capital de segurança que oferecem ... e pouco sumo, cheiro, sabor, olfacto e tacto na ponta das mãos.
Para mim, quero a vida. Com todo o valor e toda a verdade a que posso aspirar, no mais doce de mim. Felizes dos que saboreiam os amigos da mesma forma como se saboreia uma compota numa tarde triste.
E pode ser que um dia eu aprenda a saber quando devo apenas reenviar e-mails porque eles contêm uma mensagem importante (como o que deu origem a este) e a não acrescentar nada
Acorda-me quando for noite.
Deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e nada escrevo. o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim
3ª edição
Dezembro 2000
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e nada escrevo. o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim
3ª edição
Dezembro 2000
Seguindo o rasto
Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
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